Para Além das Aparências

Em 2003, na UnB, um acadêmico conceituado, e também tradutor de um pensador conhecido, ia palestrar sobre a falta de sentido da vida, ou algo parecido.

O sujeito, parece-me, é bem respeitado no meio acadêmico. Ele, de fato, tem um trabalho interessante.

Como eu tinha lido as suas traduções e até a sua tese de mestrado - e ficando muito satisfeito -, criei uma grande expectativa a respeito do seu pronunciamento.

Quando começou a falar, percebeu-se de imediato que ele sofria de uma gagueira incontrolável. Dizer a expressão "sentido da vida" era um verdadeiro suplício.

Na minha incompreensão juvenil, segurei-me para não explodir em risos. A coisa piorava quando, ao dizer palavras em alemão, fazia-o com uma pronúncia aparentemente perfeita. Acho que, em alemão, ele não era gago coisa nenhuma.

Mas, ao decorrer da palestra, prendendo-me à importância das informações e à qualidade das ideias, a gagueira passou a ser irrelevante, tornando-se quase imperceptível.

Desse dia em diante, passei a relativizar a forma, a fim de atingir o conteúdo. É aquela velha questão de essência e aparência.

Desde Sócrates, as aparências continuam enganando. Há de se romper a superfície para alcançar o que algumas pessoas possuem de melhor.