Afinal de contas, o que acontece com a torcida do Corinthians?

Vou começar pulando toda aquela contextualização, toda aquela retrospectiva que envolve os anos a partir de 2011. Toda essa ladainha vocês já estão cansados de ler.

O que falo aqui é sobre um fator que posso considerar antropológico: A mudança de perfil do torcedor do Corinthians.

Na verdade, em todas as vezes em que tento tecer comentários sobre comportamento do torcedor, acabo cagando regra. Detesto isso.

É muito falado que o torcedor do Corinthians adquiriu o comportamento de cliente no Itaquerão (FODA-SE. É Itaquerão sim), o que é bem diferente do perfil corintiano-maloqueiro-e-sofredor-graças-a-deus que tínhamos no Pacaembu. É como aquele brasileiro médio que agia de uma determinada maneira quando possuía seu humilde cafofo na periferia, alugado, e agora continua comendo arroz com feijão e bife na janta, mas arrota salmão grelhado em seu confortável apartamento de 50m², financiado em 360 meses.

De certa forma, isso mudou sim. As vaias (que sempre aconteceram, é muito bom frisar) agora ecoam de maneira mais contundente. Agora conseguimos enxergar mais de perto pessoas irem embora aos 30’ do segundo tempo, quando a derrota se torna iminente, ou mesmo em caso de empate, onde o time nos oferece um futebol pobre.

Aquela torcida que já viveu tantos momentos onde até mesmo o torcedor mais saudável sentia o coração fraquejar, vide o gol do Ricardinho em 2001 ou o do Cristian em 2009, agora vaia o Danilo (vejam vocês, o DANILO!) assim que ele pisa no gramado num modorrento empate contra o Figueirense, no Brasileirão do ano passado. Ninguém me contou, eu mesmo vi. E curiosamente o Danilo marcou um gol quando a partida ainda estava 1x0 para eles. Imediatamente eu me virei aos corneteiros mais ferozes, no setor leste do estádio, e os xinguei como se não houvesse um amanhã na minha vida.

Ontem, na vitória sobre o Novorizontino, parte dos 11 mil torcedores presentes em Itaquera vaiaram o atacante Jô. No quarto jogo da temporada. DURANTE A PARTIDA.

Pois vejam vocês: A torcida, que nos anos 2000 teve que aguentar jogadores da estirpe de Bobô, Váldson, Wescley, Sebá e praticamente 90% do plantel de 2007, hoje vaia um jogador que, gostando ou não, é um prata-da-casa. COM A PORRA DA BOLA ROLANDO.

Na última final da Copa São Paulo, notei vários comentários sobre como o ambiente do Pacaembu se torna inegavelmente mais aconchegante aos torcedores mais nostálgicos. Curiosamente, algumas pessoas que eu encontrei no Pacaembu alimentando esse sentimento de “corintianismo de raiz” foram os mesmos cidadãos cuja face eu guardei na memória, pois estavam exercendo o que costumo chamar de “neocorintianismo”: vaiando jogador durante o jogo.

Sim, eu sou bom em guardar esses rostos.

Posso dizer que em uma primeira impressão, a geografia (se é que posso chamar assim) dos estádios pode explicar um pouco esse comportamento diferenciado em cada campo.

No Pacaembu, nas arquibancadas (verde e amarela), todas as torcidas organizadas ficam distribuidas nesse setor. Os torcedores comuns que gostam do ambiente, também ficam ali, o que acaba misturando uniformizados e “povão”. Como sabemos, as organizadas cobram uma postura mais otimista, com gritos e cantos durante o jogo. Talvez, intimidados ou acostumados com essa filosofia, os torcedores comuns se propõem a acompanhar o ritmo, vendo um ou outro bloco que destoa disso (no caso do Pacaembu, o lado direito da arquibancada verde, um pouco depois de onde fica a torcida Pavilhão 9). Já na Arena Corinthians, os torcedores comuns geralmente ficam aglomerados no setor sul, enquanto os organizados ficam no setor norte, do outro lado do campo. A diferença fica mais evidente em Itaquera, e isso é notado até mesmo no fato de existirem cadeiras no setor sul — ainda que essas dificilmente sejam utilizadas durante o jogo. No setor norte, a boa e velha arquibancada de cimento possui apenas barras de proteção. Com a distância, os torcedores ditos comuns não cantam nem durante a metade do tempo das organizadas.

Outro fator que chama a atenção é que de fato o torcedor médio da arena é tratado como um cliente. No caso, o produto é o Corinthians. Quando o produto apresenta defeitos (e convenhamos que num time com Giovanni Augusto, Marlone, Marquinhos Gabriel e Fellipe Bastos o defeito é não só possível como previsível), o torcedor reclama, quer trocar. Essa relação comercial foi estimulada pela diretoria desde o começo da Arena, e ampliada pelos preços praticados nos ingressos.

A diretoria pediu uma torcida mais elitizada (tentei evitar o termo, eu juro, mas aqui foi impossível não usar) e agora vai ter que aturar um comportamento digno disso.

Ok, há sempre a teoria de que com o time em frangalhos os “clientes” vão abandonar o barco e só os torcedores “de raiz” irão ao jogo, mas eu não acredito nisso. Há muito jovem torcedor que vai a quase todo jogo, independentemente da fase do time, mas acaba se comportando como o torcedor dito “modinha”.

Eu, sem poder ir a estádios durante a semana devido às aulas, e aos fins de semana por economia doméstica, tento cagar o mínimo de regra possível, até porque ódio eterno ao futebol moderno pra mim é um puta slogan de marketing do século XXI (logo, moderno).

Mas que é triste ver a galera vaiando o Danilo durante o jogo, isso é.