Sujem seus calções.
Todo clube de futebol tem uma filosofia. Uma espécie de mantra, que influencia gerações de torcedores ao longo de gerações. O Santos, por exemplo, tem os meninos da vila, que faz com que a torcida tenha uma paciência enorme para as jovens promessas do clube litorâneo, que revela mais que a Kodak nos anos 90. O São Paulo, ao longo da década de 2000, passou a adotar um tom mais arrogante, se é que posso chamar assim. Ganhar quase tudo na segunda metade da década fez com que muitos torcedores se auto denominassem torcedores do “Soberano”. E o Corinthians tem a raça.
Cresci ouvindo que a torcida do corinthians era que tinha o time, e não o contrário. Sempre li relatos, de veracidade comprovada ou não, que contavam como a torcida conseguiu virar jogos, cantando e incentivando o time incessantemente. A gente gosta da narrativa do drama. Gostamos mesmo. E a gente gosta mesmo é de cabra ruim que sai dando bico pro lado e suja a bunda.
Eu tive meu corinthianismo formado com um puta time, é verdade. O time de 1999/2000 era uma máquina. Mas no pacote vieram também as quedas para o Palmeiras, naquele que eu considero o maior pecado da história do futebol: O time de 2000 não ter ganho a porra da Libertadores.
Ainda que tenhamos vivido conquistas, tivemos também que lidar com times medíocres, como o do Brasileiro de 2001, o time do pacotão de 2004 e o de 2007, que considero o pior de todos os tempos. E aí é que eu chego no ponto central desse texto: A minha predileção por jogador raçudo.
Primeiro que eu gosto mesmo dessa narrativa da raça e sofrimento. Aqui é corinthiano maloqueiro e sofredor, graças a Danilo (nosso Deus). Ainda que o futebol não seja dos melhores, eu gosto de jogador que se emputece na derrota e vibra como um doente na vitória. Eu idolatrei o Gamarra sim, mas aqui também já batemos muita palma pro Betão. Eu acho o Vampeta um semideus, mas eu também vibrei pra caralho com o Marcelo Mattos fazendo gol de cabeça jogo sim, jogo não em 2005. Para não dizer que não falei das flores, eu era completamente apaixonado pelos carrinhos que o Tevez dava no campo de ataque, e não tiro da cabeça o lance contra o Juventude, na primeira rodada de um feliz Campeonato Brasileiro. Na ocasião, um pisão de um beque lhe arrancou a chuteira. Pois mesmo descalço ele infernizou o zagueiro disputando a bola até que este se livrasse da mesma.
Bichão, eu aplaudi até o Magrão. O MAGRÃO. E não me refiro ao Sócrates.
Na vitória de ontem, a gente viu no olho dos garotos da base que participaram do jogo o sangue que tanto pedíamos. A raça que tanto vi nos times do Corinthians de outrora parece ter voltado no elenco deste ano. O que o Guilherme Arana jogou foi uma enormidade. Se eu já achava que o fraco Moisés não poderia lhe ameaçar, agora é que eu cravo isso com toda a certeza do planeta. Encarou o Alecsandro no fim do jogo e fez o que tinha que fazer, ou seja, dar bico pra lateral e gritar no tímpano mais próximo. Maycon, completamente extenuado, roubou uma bola no fim do jogo, depois de um pique esforçado, para ser premiado com a assistência para o gol de Jô. Além disso, nosso camisa 30 (ou 5?) foi um leão na marcação. Léo Jabá, mais discreto, também merece ser exaltado.
E o que dizer de Romero? O nosso camisa 11, odiado por uma parte da torcida, adorado por outra, foi certamente um dos melhores em campo. Bateu de frente com Dudu diversas vezes, deu chapéu, correu incansavelmente e foi o que ele sempre foi e será: Um jogador limitado, sem dribles, mas que corre feito notícia ruim e não tem medo de cara feia. E isso, amigos, eu valorizo bem mais do que passar o pé por cima da bola.
Por mais Romero e menos Marquinhos Gabriel. Mais Arana e menos Moisés. Mais Maycon e menos Fellipe Bastos. Mais Jabá e menos Guilherme.
Por mais raça e menos firula, vai Corinthians.
