Solução para ausência de Mancuello pode estar na base do Flamengo

Com quase dois meses de trabalho, o Flamengo de Muricy Ramalho começa a dar resultado dentro de campo. Depois de alguns meses sem trabalhar e um rápido estágio no Barcelona, o treinador paulista chegou ao clube tentando implementar uma nova filosofia de futebol nas equipes que treina.

Montado a partir do 4–1–4–1 sem a bola e o 4–3–3 com ela, o rubro-negro tem demonstrado na maioria dos jogos uma equipe que busca a transição ofensiva a partir do jogo de posse de bola e a aproximação pelas laterais baseada em triangulações: Rodinei/Arão/Cirino pela direita, Jorge/Mancuello/Sheik pela esquerda.

Estrutura Tática do Flamengo: 4–1–4–1/4–3–3 com valorização da posse de bola e muitas triangulações pelos lados. Mancuello também troca bastante de posição com Sheik e infiltra na ‘’última linha’’ adversária

Há também infiltrações e trocas de posição no flanco esquerdo envolvendo Sheik e o argentino, o que confunde a marcação e dinamiza ainda mais o setor ofensivo do Flamengo. Obviamente o funcionamento ainda não é perfeito. Somente com o tempo e a continuidade haverá uma fluência maior de boas jogadas. No último domingo, porém, o rubro-negro encontrou uma pedra nesse caminho. Mancuello, meia interior e importantíssimo para a equipe pela técnica e movimentação intensa, acabou sofrendo estiramento no ligamento do joelho e ficará pelo menos um mês fora da equipe.

Defensivamente, o Flamengo tem procurado adiantar sua marcação e marcar no campo adversário, conseguindo êxito e roubando bolas no ataque. A marcação ainda varia entre a feita ‘’por zona’’ e a de ‘’encaixes individuais’’. Durante o ano passado, o Mais Querido usou a segunda opção durante quase todo o ano, e uma mudança para o modelo de marcação por zona não é tão rápido assim, apesar de ser claramente um princípio deste trabalho de Muricy.

Abaixo, dois exemplos claros de como o argentino se movimenta e cria situações de perigo para os adversários do Flamengo.

Na vitória contra o Fluminense, uma das trocas entre Mancuello e Sheik renderam mais um lance de perigo
Na vitória contra a Cabofriense, infiltração para receber de Pará e começar a construir o lance do gol de Felipe Vizeu
Na sequência da jogada, bola de volta para o lateral e Pará põe na cabeça de Vizeu. Repare no espaço criado para a chegada do camisa 21

O elenco tem boas peças de reposição, mas talvez esteja nas divisões de base o nome ideal e que mais se aproxime do papel que Mancuello vem desempenhando até aqui na temporada.

Vejamos então as opções que Muricy tem na manga:

Éderson — Contratado no ano passado, mostrou logo que chegou sua qualidade técnica. Pelo histórico de lesões, passou por trabalho especial de condicionamento e prevenção. Somente nesta semana deverá estrear na temporada. É o preferido da torcida e nas divisões de base da Seleção atuou como meia central, o clássico 10. Depois que foi jogar no futebol europeu passou a atuar aberto pela esquerda na linha de meio-campo. Nunca foi e nunca será exatamente um jogador com característica de velocidade e drible em progressão, mas é habilidoso e possui um bom arremate de fora da área, além de qualidade no passe, é extremamente técnico.

No atual sistema tático do Flamengo, não possui características para desempenhar a mesma função que ‘’Mancu’’ vem fazendo. Principalmente pela falta de ritmo de jogo, não conseguirá imprimir a mesma movimentação intensa e repetir a recomposição de qualidade do argentino. Uma alternativa pode ser a troca de função com Émerson Sheik. Na vitória na rodada inicial da Primeira Liga, contra o Atlético em Minas, o camisa 11 atuou na função para Éverton jogar aberto pela esquerda. O veterano consegue repetir a movimentação de Mancuello, mas não recompõe com a mesma facilidade e acaba carregando muito a bola, o que prejudica a rápida rotação de passes que o setor exige.

Aqui o time com Éderson na função de Mancuello e a estrutura tática mantida
Desta forma, Sheik jogaria na função de ‘’Mancu’’, fato que ocorreu na vitória sobre o Galo na Primeira Liga. Éderson na função que se acostumou a fazer no futebol europeu

Alan Patrick — Esse é um jogador da função. Meia central clássico e com muita qualidade no passe, além de visão de jogo. Assim como com Éderson, pesa contra as condições física e clínica. Foi relacionado para poucos jogos na temporada e só deverá estar em plena forma dentro de duas semanas. No ano passado foi titular na função no melhor momento do Flamengo no Campeonato Brasileiro. O Flamengo de Oswaldo de Oliveira alternava entre o 4–1–4–1 e o 4–2–3–1. Na primeira opção, atuava como meia interior pela esquerda. Já na segunda, era o meia-central. Teve uma pequena fase de muito destaque, mas assim como em outros clubes da carreira, acabou caindo de produção.

É um jogador irregular. Não tem a característica de movimentação e nem a velocidade que Mancuello tem. Com sua entrada, a equipe ganharia mais qualidade no passe para a finalização no último terço do campo, mas perderia dinamismo e qualidade na transição defensiva.

Alan Patrick: o ‘’reserva imediato’’ da posição

Éverton — Reserva com bastante rodagem nesta temporada. Era titular até Mancuello ganhar uma vaga na equipe. Conhece bem o clube e divide muitas opiniões na torcida. Atua melhor quando joga pelos flancos, principalmente o esquerdo. Até já atuou como meia interior no 4–1–4–1 e meia-central no 4–2–3–1, mas não tem tanta capacidade de fazer a bola rodar, justamente por se precipitar e errar muitos passes. Se escolhido, oferece movimentação até mais intensa que Mancuello, mas a equipe perde na qualidade no passe em uma região importante do campo. Recompõe muito bem e tem boa abordagem de marcação. Oferece a mesma opção de inversão de posicionamento com Sheik que Éderson. A diferença seria um lado esquerdo extremamente veloz, mas com menos qualidade no passe.

Éverton é uma das opções de Muricy e foi o escolhido contra o Resende. Desta forma, equipe repetiria formação da vitória contra o Atlético/MG em janeiro

Gabriel — Outro que atualmente é reserva, mas já foi titular em diversos momentos dessas três temporadas em que veste a camisa do Flamengo. Entra constantemente na equipe, tanto atuando pelos flancos (direita ou esquerda), quanto pelo meio. Apesar de não ser um jogador especificamente técnico, tem potencial para tabelas e triangulações curtas. É rápido, mas inconstante e frágil fisicamente. Se for o escolhido, o time ganha em disciplina tática, movimentação e velocidade, mas perde em presença física no campo de ataque e principalmente na finalização de média distância. Apesar de muitos discordarem, acho que funciona muito bem atuando como atacante de movimentação pelo centro do campo.

Gabriel ‘’por dentro’’ fez o quarto gol da vitória contra o frágil Resende

Canteros — Outro que é bastante contestado pela torcida. Volante de muita técnica e passe qualificado, mas de participação pouco efetiva na marcação e irregularidade dentro de uma mesma partida. A opção por ele possibilitaria um possível aumento no percentual de posse de bola. Sabe realizar infiltrações na defesa adversária e se posiciona bem, mas é lento e a recomposição defensiva não é a ideal. Tem sido pouco utilizado com Muricy Ramalho. Sua escolha é bastante improvável.

Canteros sabe se posicionar bem por ali, mas tem características distintas as de Mancuello

Lucas Paquetá — Meia canhoto de muita técnica e passe apurado. Titular absoluto da equipe sub-20 do Flamengo. Foi um dos destaques da conquista da Copa São Paulo em janeiro. Não é muito veloz, mas tem boa estatura e usa a passada larga e força física para vencer alguns embates no meio-campo. Joga como meia interior pela esquerda no 4–1–4–1 da equipe comandada pelo ótimo técnico Zé Ricardo e tem características táticas e técnicas próximas as de Mancuello. Se infiltra na defesa adversária e realiza trocas constantes com o ponta pela esquerda, assim como o argentino.

Sub-20 do Flamengo comandado pelo excelente Zé Ricardo: Paquetá é o meia-esquerda interior do 4–1–4–1, mesmo desenho e funcionamento parecido com o esquema de Muricy

Se considerarmos o histórico de pouco aproveitamento de Muricy com os atletas da base nos diversos clubes que passou, soa utópica essa opção. Mas se o treinador tiver meios de se informar corretamente e observar com atenção verá que dentro da base do clube há um atleta com repertório para cumprir a função e manter a filosofia de jogo proposta por ele até o momento.