Duzentos e poucos passos

Ontem, dia 24 de maio de 2017 eu enterrei minha filha Clarissa. Ela não chegou a respirar o nosso ar, e morreu com 9 meses e alguns dias, um pouco antes do seu nascimento.

Ninguém está livre de dores. Ninguém vai passar pela vida sem sofrimento. Mas há um requinte de crueldade tão violento em perder um filho assim que é difícil projetar algo que possa superar isso. Mas apesar e diante disso, eu resolvi compartilhar algumas reflexões e entendimentos que essa perda me trouxe, para que de alguma forma possa ser útil para que você entenda seus próprios problemas de uma maneira mais serena e procure respostas apropriadas na dimensão que cada evento merece ter.

Este não é um texto de autoajuda, por favor, não me ofenda, eu não espero dar uma lição de vida aqui, quero apenas compartilhar um entendimento. Tampouco quero comparar dores ou criar qualquer ranking de sofrimento. Isso não é útil e não é essa minha intensão. Quero apenas compartilhar que acontecimentos realmente marcantes não podem ser um fim neles mesmos. Mesmo sendo ruins, eles precisam ter um significado, a gente precisa extrair deles algo que questione a forma como vivemos, como nos relacionamos e se possível, nos torne uma pessoa melhor.

Sobre a dor da perda? Essa é alucinante, acredite. Ela dói instantaneamente, dilacera quase fisicamente o peito e seus primeiros 15 minutos parecem não ter fim. Essa é a resposta imediata para a voz de um médico com a informação de que o coração da sua filha parou de bater. Mas essa dor não vem sozinha, ela vem acompanhada por um vazio que toma o lugar dos planos que você fez. Toma o lugar de uma projeção de futuro que não vai se realizar. Essa dor vem junto com a certeza em saber que você nada pode fazer para que a mãe de sua filha, sua esposa, não sinta algo assim tão violento. Ela vai sentir talvez algo mais doloroso ainda e vai sofrer sem que nada você possa fazer para evitar. Essa é a dor da impotência, algo tão ou pior do que a perda em si.

Como pode ver, não é uma dor que vem sozinha, e não se espera que desapareça por completo em uma vida só. É isso tudo que faz dessa experiência compreensivelmente devastadora.

Engana-se, por outro lado, quem pensa que o seu estado depois dessa queda é de total desespero. Há o desespero, sim, lembre-se dos 15 minutos iniciais. É só isso que esse tempo é, desespero. E ele volta, em novos minutos de dor e toma conta da sua cabeça todas as vezes que você procura um porquê para Clarissa ter morrido. Na maior parte do tempo, entretanto, essa dor convive com sua racionalidade, relativamente de uma forma normal. Nesses momentos você deixa de lado as causas, se é que elas existem, e pensa nas consequências. É com isso que você tem que lidar. Hoje me apego nesses momentos racionais, mesmo constantemente abalados pelas curtas estocadas do desespero, para encontrar um sentido nessa experiência e para retirar algo disso tudo que me faça conviver melhor com a vida. Algo que ajude a construir em mim mesmo alguém melhor. Nesses momentos, não me interessa os motivos da morte dela, mas sim a razão, o significado, de uma vida tão curta.

Nós passamos pela vida esperando os grandes resultados, as grandes conquistas. A gente não é preparado para sofrer grandes perdas, e é normal que seja assim. Mas elas vão vir, inevitavelmente, e vão marcar nossa vida tão ou mais profundamente que momentos bons. O que faremos depois desses grandes eventos da vida, os bons e ruins, vão definir como vivemos o nosso tempo. Viver não pode ser uma contabilidade fria entre ganhos e perdas materiais e emocionais, não vence quem tem mais. Também não vence quem sofre menos. O jogo parece ser ganho no comportamento que você adquire depois de acontecimentos realmente importantes.

Durante os muitos meses da gravidez, nas nossas conversas silenciosas o que eu mais projetava em Clarissa era ajuda-la a ser alguém melhor do que eu. Vaidade? Sim, eu reconheço, mas quem não deseja mudar decisivamente a vida de alguém não está vivendo de forma completa. O que pode ser mais completo do que usar o seu tempo para mudar realmente a vida das pessoas? A maioria de nós passa pela vida em busca de coisas que nem chegam perto de uma realização assim. Mudar realmente a vida de alguém! Ter um filho apresenta essa possibilidade, mas não é a única. Essa é uma das grandes lições que eu tento tirar desses que são os meus piores dias.

Enquanto eu esperava que como pai eu mudaria a vida de Clarissa, foi ela em tão pouco tempo de vida comigo, quem decisivamente está mudando a minha. Eu estou me preparando para mudar a forma como me relaciono com as pessoas e com tudo o mais. Claro, de cara você se sente bem perdido, não é uma luz que acende prontamente, mas aos poucos, os pedaços partidos vão formando uma visão mais clara do que você precisa fazer.

Eu não recebi uma iluminação que me fez mudar e me trouxe um sentido para a vida. Vamos deixar isso claro. Mas o fato, um dos mais esclarecedores é que eu sinto que envelheci muitos anos em poucos dias. É duro, mas não se envelhece gratuitamente, algo retorna desse processo. É preciso aprender a perceber. Se meu envelhecimento foi acelerado, meu aprendizado também o foi. Não quero repetir processos assim, não quero viagens no tempo a esse preço, mas entre ganhos e perdas eu tive esse resultado.

Foi tudo muito rápido. Agora compartilho essa história com muitos que gostam de mim e que nada sabem sobre isso. Muitos sequer sabiam que eu e Bare esperávamos uma filha. Mas é isso, ficamos grávidos, fizemos planos, decoramos um quarto, decoramos um casamento, vivemos uma gravidez e depois de andar duzentos passos segurando um pequeno caixão, enterramos uma filha.

Não sou um homem de fé, é verdade, mas isso não me impede de enxergar um sentido em acontecimentos assim. A vida de Clarissa será completa se eu der a ela um significado. Tenho que permitir que a mudança que ela iniciou em mim progrida para que nossa relação deixe de ser apenas de dor e saudade e vire uma relação de gratidão. Então não vou deixar que apenas dor e frustração preencham nossa vida em comum. As cicatrizes vão ficar, a dor constante dos planos que não irão se realizar vão incomodar, vão persistir, mas isso vai me lembrar a reagir corretamente diante de outros problemas que vão se tornar a partir de agora, menores.

Li tantas biografias de empreendedores de sucesso e o que há em comum em todas elas é que eles enxergam soluções em momentos ruins de uma forma que outros não conseguem. Clarissa me mostrou que isso não é uma verdade do mercado, é uma verdade da vida. Ela me mostrou que é possível reagir melhor diante de problemas, ela me mostrou que encarei o maior medo possível e sobrevivi, e que agora não posso temer coisas menores. Me mostrou que se posso controlar minha raiva por algo tão justificado, por que vou alimentar minha ira por razões pequenas? Se ela não me ensinou a ter fé ou crer em algo maior, como dizem, me ensinou decisivamente que não vale perder tempo sendo intolerante, seja qual for o motivo do embate.

Por fim os médicos não responderam o porquê do seu coração parar. Infelizmente é algo para o qual não terei respostas. Sei apenas que eu vou continuar aprendendo com tudo o que aconteceu, e vou reagir a isso tudo de forma positiva, sem raiva e sem culpa. Eu sempre achei, como disse antes, estar preparado para fazer dela uma pessoa melhor, mas não esperava realmente que fosse ela a me transformar. É claro que a dor continua, é claro que ela é insubstituível, mas vai haver saudade e gratidão e não desespero ou arrependimentos.

Eu sei que não terei uma resposta para o que aconteceu, eu nunca saberei porque Clarissa morreu, mas aprendi no curto tempo que tive com ela, na minha despedida ao segurá-la sem vida ao nascer e naqueles difíceis duzentos e poucos passos antes de enterrá-la o porquê que ela viveu.

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