O Brasil não precisa superar Cuba no quadro de medalhas do Pan de Toronto

Em Guadalajara foram 136 medalhas cubanas contra 133 brasileiras; no Rio de Janeiro 135 deles contra 157 nossas, mas com mais ouros para Cuba. Em Santo Domingo eles ficaram com 152, contra 123 do Brasil. Em meio a estes números que nos fazem esquecer o nome de vários medalhistas pan-americanos, a rivalidade que esteve presente no vôlei, basquete, boxe, judô e outros esportes descambou para a contagem de medalhas.

Eu considero divertido olhar quantas medalhas cada país conquistou e compará-las com as dos outros outros, mas passo longe de levar como um fator determinante ficar na frente ou atrás de um país, ou mesmo atingir um top-3 em ouros ou número total. Por mais que possa parecer um reflexo do nível esportivo do país, é um reflexo com uma baita refração.

Entre dezenas de diferenças esportivas entre Cuba e Brasil, começo pelas históricas. Nas Olimpíadas de Atlanta 1996 o Brasil terminava pela primeira vez com três ouros e dois dígitos no número total de medalhas. Naquela altura os cubanos já tinham 45 ouros e fechavam a terceira edição olímpica seguida em pelo menos 20 medalhas. Lembrando que os cubanos não participaram em 1984 e 1988.

Brasil x Cuba é clássico no vôlei (Creative Commons)

Se para 2016 a tendência do Brasil é realizar a melhor campanha do país na história das Olimpíadas, Cuba possui uma lista muito mais estreita de esportes com medalhas em potencial do que era nas décadas de 1980 e 90.

Se os cubanos possuem um baseball e um vôlei dono de três ouros olímpicos cada, além de uma esgrima afiada e mesmo participações medalhistas na natação, em Pequim e Londres os pódios cubanos (não-extintos, uma vez que o baseball saiu do programa olímpico após 2008) se limitaram a: Luta, Judô, Boxe, Taekwondo, Atletismo, Levantamento de Peso e Tiro. Quatro de combate e todos com um amplo número de categorias, o que significa também mais chances de elevar a soma em potencial.

Em um caminho bem mais aberto, como os Jogos Pan-Americanos, em que Cuba trata o evento com importância, a enxurrada de medalhas vem naturalmente. Para o Brasil não é diferente, por exemplo, na natação.

A principal questão é que o nível técnico dos esportes dentro do Pan varia muito. Diante disso, considero muito mais importante analisar o desempenho dentro de cada esporte, com o nível dos participantes, sejam eles brasileiros ou estrangeiros, do que pegar uma soma total deturpada. Trazendo para o futebol, é como pegar os títulos paulistas, brasileiros e Libertadores de Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos e comparar só a soma final, e não os contextos.

Ter em jogo uma vaga olímpica ou adversários do cenário internacional de topo inevitavelmente aumenta o valor da conquista. Não consigo enxergar da mesma forma uma conquista neste contexto e um ouro no atletismo com marcas extremamente altas em relação ao que é visto entre os próprios atletas do continente. Aí eu reforço: mesmo que um determinado esporte não seja forte na América, vencer diante de adversários que representam o melhor do continente é sim importante, o duro é quando os melhores do continente não estão.

Em um cenário de visibilidade e todos os valores propostos em eventos como o Pan, sim, todas as medalhas possuem importância, mas não é justo colocá-las em um número bruto e dizer que ganhamos ou perdemos para Cuba.