Orson Welles: Amado Depois de Morto?

Orson Welles (1915–1985). Muitas coisas sempre precisam ser ditas a respeito dele. Um dos mais provocadores artistas do século XX. Gênio ou fraude? Em meu blogue, CINEMA RODRIGO, escrevi sobre alguns de seus filmes que deixarei aqui neste link a seguir: https://cinemarodrigo.blogspot.com/search/label/Orson%20Welles

O que posso dizer sobre ele é o que às vezes penso, mas nunca que acredito totalmente nisso, de que Orson preferia passar mais tempo fazendo filmes do que exibi-los propriamente. A saga por trás de “O Outro Lado do Vento”, seu último filme é tão fascinante e cheia de entreveros que foi tema até mesmo de um documentário, Serei Amado Quando Morrer, dirigido por Morgan Neville, creio,a oportunidade que a Netflix encontrou para promover o que finalmente a rede de Streaming resolveu concluir o que Orson deixou inacabado há 40 anos atrás. Mas, vamos aos fatos. Que tal entendermos um pouco mais sobre a obra de Orson Welles? Foram mais de 130 filmes pelo que se sabe, tanto como ator, muito imemoráveis mas para sempre ele será lembrado por ter sido o realizador de CIDADÃO KANE (Citizen Kane, 1941), o que muitos consideram o melhor filme americano já feito ou quiçá a melhor fita do mundo em todos os tempos. Ao mesmo tempo sua grandeza e maldição. Claro que nunca mais conseguiu realizar outro filme tão bom como muitos preferem dizer. Neste ponto eu discordo, mas é lógico que sua maldição, vítima de um primeiro sucesso de estreia revolucionário nas telas de cinema,tenha prejudicado, sobretudo na época em que esses filmes eram produzidos e lançados, sua visão e maior entendimento da crítica e do público não eram alcançados. Nada como o tempo para ajudar na digestão. E o mesmo estava certo quando pensou que somente a morte o faria ser reconhecido.

Pra começar, Welles fez muito mais do que Cidadão Kane, A MARCA DA MALDADE (Touch of Evil, 1958) é mais uma obra do cineasta na qual tenho uma forte predileção e acredito que ele conseguiu neste filme provavelmente o melhor filme B de todos os tempos. Inigualável. Welles era inquieto e nunca teve a intenção de seguir as convenções impostas pelo sistema de Hollywood o que a contra gosto e diante todos os problemas lutou bravamente o seu espaço como Cineasta Independente. E, olha, não foi por falta de tentar, mas ele se via nas situações mais adversas e inacreditáveis nas feituras de projetos fadados as complicações diárias, semanais, mensais, anuais, por décadas! Com o dinheiro que ganhava financiava projetos modestos que até inconscientemente tinha medo de concluir. Afinal de contas, ele sabia que não iria se superar. Vários desses filmes (trechos deles) foram exibidos em festivais e nenhum deles pareciam ter sinal de grandeza. As pessoas olhavam para aquelas imagens e ficava a impressão de que tudo aquilo não passasse de brincadeira, a maior piada de um velho inteligente com senso de humor sagaz e que se acostumou aos prazeres da mesa e da bebida (e dos seus incontáveis charutos!) — desculpe Orson, quando eu observo tais imagens suas devo dizer que fica a impressão de um Pantagruel preguiçoso, divertido, sábio demais para se arriscar e de não querer ver uma reputação já firmada, num filme realmente para valer.

Muita gente se contesta quanto a Cidadão Kane. É o melhor filme ou não é? Eu mesmo já me peguei me questionando a cada revisão. Hoje com alguma folga, acredito que sim. Nunca um filme me provocou tanto a nível de querer entender mais a sétima arte. Uma obra em película que não precisa ser aquilo que o cinéfilo julga apressadamente. Vários pedaços de filmes que não precisam necessariamente encantar de imediato. Quando a fita é deveras questionada é muito mais instigante, diga-se. E tudo isso jamais vai tirar a ousadia de um pioneiro como Orson Welles. Um fanfarrão que transmitiu via rádio um famoso livro de sci-fi como noticiário e, com isso, balançou o planeta. Autodidata não tenho a menor dúvida. A precocidade audaciosa de um homem que teve que aprender e ensinar do seu jeito. Um auto proclamado gênio que até no Brasil deixou sua marca (foi aqui de uma certa maneira que começou sua derrocada quando deixou inacabado o semi-documentário “It´s All True”, que parecia muito influenciado por Eisenstein. Depois o doc seria terminado por outros e lançado oficialmente em 1993). Colocado no contexto de sua época, Welles e Kane foram geniais. Ele sempre se via nos personagens principais de seus filmes mesmo quando não atuava e nunca assumia isso publicamente, mas é óbvio que o filme em si era o seu maior alter-ego. E todas as premissas tratavam constantemente do tema da traição.

Diretor, ator, roteirista, deixou uma marca profunda logo no seu primeiro filme (Cidadão Kane, sempre votado como o filme mais importante de todos os tempos, pela crítica mundial, mas hoje rivalizado pelo reconhecimento de UM CORPO QUE CAI, Vertigo, de 1958 dirigido por Alfred Hitchcock). Nascido em Kenosha, Wisconsin, no dia 6 de maio, Welles estudou Pintura no Chicago Art Institute de 1931–33, trabalhando também como ator em Dublin. Em 1937, formou com o também ator John Houseman (1902–1988) o Teatro Mercury. No ano seguinte, passou a trabalhar na Rádio. Foi lá, em 30 de outubro de 1938, que uma emissão dramatizada da Guerra dos Mundos, de H. G. WELLS, provocou pânico na população, tornando-o uma celebridade nacional. Chamado pelos estúdios da RKO, assistiu a todos os filmes que pôde, chamando o Cinema de “o maior brinquedo que uma criança já teve”. Na verdade, Welles já tinha feito em 1934 um curta amador e surrealista chamado HEARTS OF AGE. Com a ajuda indispensável do iluminador GREGG TOLAND, Welles reformulou a utilização da profundidade de campo, a narrativa acronológica, etc., mas com o vigente fracasso comercial que o apunhalava, sim, novamente falo de “Kane” o princípio de tudo, mas tudo isso graças a provocação em parte pelo bloqueio da imprensa de William Randolf Hearst, que se considerava biografado em Kane. Welles nunca mais teve a mesma liberdade. It´s All True (É Tudo Verdade) foi cancelado quando ele estava no Brasil trabalhando com Grande Otelo. JORNADA DO PAVOR ( Journey Into Fear, de 1943) foi co-dirigido por telefone e uma colaboração de Norman Foster (diretor de filmes como Na Noite do Crime, Film-Noir de 1950) que o finalizou. Macbeth de 1948, rodado rapidamente no estúdio vazio da Republic. Otelo (1951) feito clandestinamente no Marrocos. Mesmo o casamento com a deusa Rita Hayworth (1918–1987) pouco ajudou. Welles trabalhou como ator em uma centena de fitas (quase todas abaixo da crítica, mas é claro que atuou em obras magistrais como “O Terceiro Homem”, citando alguns). O mais curioso em sua persona é que é difícil enxergá-lo apenas como coadjuvante. Uma presença imponente e que sempre funciona melhor sendo o protagonista. Na fase quase final de sua carreira foi também narrador de especiais para TV (sua voz era tão facilmente reconhecida, até foi cogitado que ele fosse a voz do vilão Darth Vader de Guerra nas Estrelas), participações a fim de produzir suas próprias fitas e com isso lhe davam verba. Já no fim ficou constatado que sua presença como ator em filmes alheios era mais para salvar e dar dignidade as tais produções comercialíssimas. Mesmo assim destacou-se em Cassino Royale (uma primeira versão do livro de Ian Fleming sobre James Bond com um elenco de estrelas — fita que flopou legal em 1967, uma produção coletiva dirigida por vários diretores), O Homem Que Não Vendeu Sua Alma, 1966, de Fred Zinnemann, Malpertuis, Viagem dos Condenados, e seu último trabalho, que foi a doce participação em Someone to Love (1987), de Henry Jaglom, este exibido em Cannes.

Sem sorte, seus vários planos e projetos permaneceram por vários anos inacabados, incluindo o lendário DON QUIXOTE com filmagens que datam desde 1955 até 1969. Este chegou a ser exibido como copião em Cannes em 1986. Na realidade, nos anos 70 e parte dos 80, conseguiu completar com financiamento vindo de petrodólares iranianos, apenas o semidocumentário (é praticamente impossível classificar o gênero desta fita) VERDADES E MENTIRAS (1973). Também se meteu com o governo iraniano que confiscou as latas que continham o seu mais aclamado e esperado filme: O OUTRO LADO DO VENTO, o filme mais controverso do cineasta que teve inúmeros produtores ao longo dos anos, parcerias, financiamentos, gente que produziu na época e fugiu com o dinheiro, e que agora pode ser finalmente assistido pela rede Netflix. Diretores e produtores como Frank Marshall e Peter Bogdanovich (que também era amigo pessoal de Welles e esteve na produção como ator), são alguns dos nomes mais conhecidos (Marshall fez uma brilhante carreira colaborando com Spielberg). Dando conclusão a esta pequena biografia, sigo acreditando que Welles sempre foi alguém capaz de brincar como ninguém sobre a importância da mentira na arte (não somente quanto a explicação de “Verdades e Mentiras” — F for Fake), mas sua obra em um todo, pode ser de fato um ensaio complexo que passeia no mais puro estilo show-off. Em 1998, saiu uma nova versão de A Marca da Maldade, conforme suas intenções propostas em um memorandum.

🎬 Serei Amado Quando Morrer 
★★★★☆
(They’ll Love Me When I’m Dead — Documentário)
© (2018) Tremolo Productions, Royal Road Entertainment, NETFLIX
🎥 Morgan Neville
🎭 Alan Cumming (apresentador/narrador), Peter Bogdanovich, Oja Kodar

Nos últimos quinze anos da vida do lendário diretor Orson Welles, ele fixa suas esperanças de retorno em Hollywood em um filme intitulado, O Outro Lado Do Vento, em si um filme sobre um diretor de cinema que está tentando terminar sua última grande obra. Um filme inconvencional.

🎬 O Outro Lado do Vento (The Other Side of the Wind) 
★★★★★
© (2018) NETFLIX 
🎥 Orson Welles 
🎭 John Huston, Oja Kodar, Peter Bogdanovich, Susan Strasberg, Norman Foster, Rich Little, Robert Random, Lilli Palmer, Edmond O’Brien, Mercedes McCambridge, Cameron Mitchell, Paul Stewart, Claude Chabrol, Dennis Hopper, Paul Mazursky, Henry Jaglom, Frank Marshall, William Katt, Cameron Crowe

Um diretor de Hollywood emerge do semi-exílio com planos de concluir o trabalho em um filme inovador.

E agora algumas palavras sobre este último testamento de Welles. Posso afirmar com certeza que o diretor era um homem a frente de seu tempo e um grande influenciador deste estilo de documentário que faz fronteira com a ficção. Uso sábio de metalinguagem ao mesmo tempo que emula uma autobiografia (por mais que Welles tenha jurado até a morte de que não se tratava dele). A maneira correta de assistir O Outro Lado do Vento é saber compreender que foi um filme experimental ao pé da letra, improvisado e sem um guião propriamente (embora tenha existido um script assinado por Welles e pela sensual atriz croata em cena, Oja Kodar,que foi o último amor da vida de Welles e dela, pela primeira vez, o diretor extraí cenas de sensualidade quase explícita em um filme seu). Na verdade, Oja é uma força da natureza neste filme. O Outro Lado…é um trabalho que exala sexualidade. Um prazer orgástico indescritível. É estranho assistir um filme lançado em 2018 mas gravado 40 e tantos anos atrás. É certamente o filme que mais ficou em desenvolvimento em toda a história do cinema. A presença ilustre do ator-diretor JOHN HUSTON é um brinde, ele, amigo pessoal de Welles, e aqui o seu alter-ego.

As filmagens começaram em 1970, no que Welles pretendia propor o seu grande retorno, mas acho que ele não compreendia ainda que Hollywood já não era mais a mesma. O sistema dos antigos estúdios haviam mudado e estava sendo comandado por uma turma de cineasta hippies. Foram tantos obstáculos, mas Welles continuou a trabalhar incansavelmente no filme até os anos de 1980. Complicações legais, financeiras, atores que desistiram e políticas que impediram de ser completado. Tudo aconteceu nos bastidores de O Outro Lado do Vento. Porém, muita coisa acontece no filme, idem. É como se Welles pegasse os fatos reais durante a feitura do próprio filme e hibridizasse com a premissa meio-ficção. Algo surreal e difícil descrever.

Várias cenas são homenagens, creio, ao cinema europeu dos anos 50–60, referências a Antonioni, Chabrol, são óbvias. Só que ainda mais audacioso que seus colegas, Welles se apropria de uma narrativa inovadora de filme dentro do filme (hoje em dia usado em inúmeros filmes, séries e plataformas) que segue o último dia na vida de um cineasta envelhecido (Huston), enquanto ele organiza uma festa para seu mais recente projeto inacabado. É muito ao estilo “Mockumentary” não convencional, apresentando uma abordagem de cortes rápidos com imagens coloridas e em preto e branco. É um drama satírico como nunca antes visto sobre a morte da Era de Ouro do Cinema Norte-americano e de artistas da vanguarda da Europa, ao mesmo tempo que apresenta a chegada da galera da Nova Hollywood bem doidona! As imagens são tão poderosas, o senso de humor, sensualidade, enfim, tudo que você tem a liberdade de imaginar está inserido neste magnífico santo graal do cinema.

O resultado final não deixa a desejar, tampouco as atuações “verídicas” do elenco em cena. Mesmo com a morte de Welles em 85, houve várias tentativas fracassadas de restauração, refazer a montagem e o possível para o filme ver a luz do dia, aliás, quem merece crédito tanto quanto Welles é o cinegrafista Gary Graver (1938–2006) que deu o sangue pelo filme. Ele era o braço direito de Welles e, assim como Bogdanovich esteve ao lado dele dentro e fora da tela, Graver como “ele mesmo” e Bogdanovich, além de tudo, como ator encarando um papel: Brooks Otterlake (que teve que ser refilmado por Bogdanovich depois da saída de outro ator).

Finalmente em 2014, os direitos foram adquiridos pela Royal Road e o projeto foi supervisionado por Bogdanovich (que na época teve um desentendimento com Welles, um ressentimento que é mostrado no documentário sobre o filme). O produtor Frank Marshall, que também aparece no filme fazendo parte da equipe de filmagem (foi seu primeiro trabalho), também assume a produção deste lançamento. Passou em Veneza e agora está na Netflix. Não assista ao filme sem antes ver o documentário citado acima.

Um deleite ver um Orson Welles inédito depois de 33 anos após sua morte. Isso é que eu chamo de um aclamado evento póstumo. É gratificante também ver a juventude de muita gente, entre eles Dennis Hopper, na época vindo do sucesso de Easy Rider (Sem Destino) e nomes como Paul Mazursky, Chabrol como eles mesmos, mas nada como ver a vida pulsante de John Huston, um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos, também. Não há filme mais fascinante e difícil de analisar como O Outro Lado do Vento. Assista e você verá um mestre com o maior brinquedo que uma criança já teve. É mais do que uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. É de pirar a cabeça!