O dia em que perdi o meu recorde

Padre, eu pequei!

Eu me amo, mas existem coisas em mim que me incomodam demais. Uma delas é o temperamento. Apesar de estar muito irritado com os trabalhos da faculdade evito — agora — xingar as pessoas. A exceção foi quando sofri xenofobia aqui em Portugal e resolvi da minha maneira.

Padre, segundo minhas contas eram sete meses sem mandar ninguém se fud* ou tomar no c*. Acho que isso deve ser descontado dos pai-nossos e ave-maria. Nem no futebol soltei aquele libertador “arrombado”, o xingamento mais amplo da língua portuguesa porque abrange homens, mulheres, gays, trans, lumberssexuais… Ninguém quer ser arrombado.

Eu não me orgulho de xingar e me esforço para mudar isso, então tento instituir a meritocracia do xingamento, padre. Opiniões contrárias são bem vindas e muitas vezes me fazem pensar e mudar meu raciocínio. Não vejo problema em mudar. Mas o que eu não suporto é cagador de regra. Me acho um pouco, mas tento me controlar. Aprendi com uma juíza de “The good wife”, a introduzir o “na minha opinião”. De verdade, acho que melhora a situação.

Aconteceu de um rapaz classe alta, olhos claros, tratado com hipoglós e sucrilhos Kellogs (o do tigre Tony), com a carteira de trabalho mais branca que sua pele, começar a vociferar verdades como se não houvesse amanhã.

Política, música, religião, portugueses. Estava me incomodando, mas eu sou competitivo (outro defeito) e estava calado. Começou a falar de futebol. Só besteira. Retruquei e me calei novamente. Padre, ele não conseguia argumentar. Sabe-se lá como paramos no automobilismo. Não sou um fã, mas acompanho todos os esportes desde pequeno. Sempre curti o Senna e o vi morrer na minha televisão em um feriado do dia do trabalhador. Hoje completa 23 anos do acidente e ainda lembro do Galvão Bueno a narrar: “Senna bateu e bateu forte”. Então o companheiro solta que só idiotas gostam do elitista do Senna.

Padre, o senhor é mais velho e deve lembrar o que era o Brasil no início da década de 90. Um país onde a classe política inteira era (é?) corrupta, impeachment, o futebol não era campeão do mundo há duas décadas, a inflação era galopante e a autoestima do brasileiro era um lixo, havia Ayrton Senna. Obviamente que sua morte fez surgir o mito, mas o piloto era sinônimo de entrega, raça, que era possível. Se o esporte não é dos mais legais, ele dava confiança que se cada um fizesse seu melhor, as coisas poderiam melhorar. Foi assim no fatídico GP do Brasil de 1993. Senna não tinha o melhor carro, mas venceu em casa, saiu nos braços dos torcedores em uma cena jamais vista na história da Fórmula 1. Senna tem um papel fundamental na década de 90, que ultrapassa os limites do esporte e vai até a autoestima arrebentada de um país, que, pelo menos aos domingos, tinha o que comemorar.

O rapaz me chamou de idiota, cagou regra e ainda ofendeu um morto, que faz parte da história de um país, quer ele queira, quer não.

Então, padre. Eu pequei. Acho que xinguei até pouco. Creio até que ele deveria pagar os pai-nossos. O que pensa?