Um Vasco x Flamengo que vai muito além das quatro linhas

Rodrigo Stafford
Jul 10, 2017 · 4 min read

Acompanhei por um canal português a partida entre Vasco e Flamengo. Se o jogo não foi nem um pouco empolgante, as cenas de selvageria fizeram não só acabar com meu estado de espírito no sábado, como entristeceu meu domingo com a notícia de que um torcedor morrera no confronto com a polícia. Mais do que saber se São Januário tinha condições de receber um clássico, a minha pergunta vai no sentido inverso. Por que um torcedor sai de casa na noite de sábado para arrumar confusão? Ele certamente não foi assistir a um jogo de futebol.

O meu questionamento sai do uso do estádio porque as brigas não se dão só ali. Se o jogo fosse no Maracanã, os torcedores brigariam na Praça Saens Pena, Niterói, arredores do ex-Maior do Mundo. Se fosse no Engenhão, a confusão poderia ser no Méier, nos arredores do estádio, como aconteceu no jogo entre Botafogo e Atlético-MG neste domingo, e no último Flamengo x Botafogo em que um torcedor do Flamengo matou um botafoguense com um espeto de churrasco. Sim, um espeto de churrasco. Semana passada foi em Goiás e Porto Alegre. Não é um problema exclusivo do Rio de Janeiro, embora todos os problemas sejam mais agudos na Cidade Maravilhosa.

É certo que o Rio de Janeiro dá muitos motivos para um torcedor sair de casa com raiva, principalmente com a crise no Estado e falta de pagamento em diversas áreas. No entanto, nenhum deles justifica o sujeito dar um beijo em sua esposa (ou esposo), colocar a camisa de seu time, dar adeus para as crianças - e dizer que elas não vão ao jogo porque é perigoso —, pegar o revólver, as bombas, soco inglês, o quer que seja, e ir no caminho pensando como vai fazer para entrar no estádio com isso e como vai atingir alguém com sua arma. Porque uma pessoa que sai de casa com isso certamente não vai com boas intenções.

Em Portugal, fui a alguns jogos do Benfica, Sporting e Seleção Portuguesa. Não me recordo de ter sido revistado em nenhum deles. Também não lembro de nenhuma confusão no estádio de Alvalade ou da Luz. É certo que não era nenhum clássico e aqui, como em todos os lugares do mundo, existe confusão entre torcedores. Todavia, não há a cultura armamentista do Brasil, não só no futebol, mas na sociedade como um todo. As pessoas não sabem nome de armas, não carregam revólveres, não existe morte por bala perdida (semana passada teve uma suspeita por aqui, mas não era perdida, foi um assassinato passional). As pessoas saem de casa para assistir a um jogo de futebol.

A violência nos estádios faz o Brasil ser o campeão por mortes desde 2010 e é apenas o reflexo da violência de uma sociedade que assiste sem reação a um habitante do Rio do Janeiro tomar um tiro a cada sete horas. Um país em ebulição em todos os aspectos a começar com a República prestes a ir para o terceiro presidente em um ano e meio. Passa pelo Congresso, suas emendas milionárias e suas leis que visam a proteger a si mesmo. Entra nos estados, cada vez mais falidos, pedindo pelo amor de Deus pelo socorro e anistia ao governo federal e matando, aos poucos, seus funcionários que recebem os salários uma vez a cada três meses. Não podemos esquecer da violência doméstica e as centenas de mulheres agredidas e assediadas dentro de suas próprias casas. Ou da violência do trânsito, que começa numa fechada, vira um xingamento e um tiro. A violência nas estradas, onde os motoristas não respeitam as leis de velocidade e de não poder beber e dirigir, fazendo milhares de vítimas anualmente.

Torcedor ferido em uma partida entre Atlético-PR e Vasco em 2013

A violência no Brasil está em toda a parte, mas a população não se vê como violenta, assim como os políticos não se enxergam como corruptos. O primeiro passo é conseguir ver os problemas para depois combatê-los. Sem dar esse passo jamais a violência brasileira diminuirá.

Obs: São Januário é um estádio histórico não só para o futebol como para o trabalhador brasileiro e para o vascaíno. Foi fundado com o suor dos torcedores e foi palco de Getúlio Vargas e do início da CLT. Mas por sua localização peculiar não é possível ter duas torcidas ali. O mesmo vale para a Ilha do Governador, onde o Flamengo quer mandar o jogo do segundo turno. Se o fizer, certamente mais confusão acontecerá.

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