Deus no laboratório I
Acordei cedo, ainda atônito com a notícia que recebi no dia anterior. Não conseguia pensar quase nada a não ser no laboratório e o que estaria lá me aguardando. Confesso que parecia sacanagem, zoeira do pessoal, já que não existe qualquer evidência ou indício científico da existência de algo com nome de Deus. Aliás, nem sei se esse é o nome dele mesmo.
Tomei um café apressado, engolindo meio sem mastigar. Coração acelerado como efeito do estado de ansiedade que me assolava. Contando os minutos cheguei ao laboratório. Parecia que o coração iria sair pela boca. Após me vestir, dirigi-me ao local onde Deus estaria.
Temia encontrar uma sala vazia, sem nada. Minha mente vagava pensando como seria Deus, deus, ou sei lá o que eu iria ver. Seria um homem? Um velhinho barbudo? O Mr. Flanders dos Simpsons? Ah, são tantos pensamentos que nem sei mais. É como se tudo o que eu não acreditei estivesse materializado na minha frente. Ou se tudo que eu acreditei fosse mera farsa.
Bem, cheguei lá. Enfrente a porta, respirei fundo, coração palpitante, suor escorrendo. Lentamente a abri e lá estava, como posso dizer, “aquilo”. É, quando olhei me bambeou as pernas. É que minhas sinapses não batiam. Tive a sensação de medo do desconhecido. O que era aquilo? Minha mente não sabia pensar outra coisa. Minhas cadeias neuronais não encontravam a resposta pra indagação. Seria radioativo?
Aproximei-me de um balcão, onde estavam as planilhas impressas para catalogar os dados obtidos nas pesquisas. Pesquisar Deus — pensei comigo -, devo estar louco mesmo. Bem que me disseram que estudar demais deixa a gente meio lelé. Talvez aquilo que eu via fosse perfeitamente criado por meus colegas pra me zoar. Mas algo soava estranho….
Peguei a caneta, a prancheta e caminhei, lentamente até aquilo. Será que fala? — pensei comigo. Se falar, qual idioma? Ai que coisa mais besta. Mais uns passos e cheguei ao lado. Observando atentamente aos detalhes, perguntei: — Qual seu nome? A resposta veio: -Meu nome? Meu nome É.
Aí as coisas ficaram difíceis. Estava ali, aquela coisa que fala e ainda diz que seu nome É. Como assim? — Eu posso dar um nome a você, afinal É não significa nada, não diz nada. Posso dizer qual sua natureza e de que você é feito.
Ao que fui respondido: — Porque o nome seria tão importante pra você? Nomes costumam limitar as coisas e não nomeá-las adequadamente. Seu nome, por exemplo, é o mesmo de outras milhares de pessoas. Como alguém sabe que ao chamar seu nome estaria chamando você mesmo?
As coisas pioraram dentro de mim. “Aquilo” fala e apresenta raciocínio simples. E agora? Quem está pesquisando quem? Será que minha infância crédula em Deus estava me dando uma rasteira em minha convicção científica? Por qual razão Deus se deixou examinar?
Bem- respondi- é que não costumamos pesquisar deuses aqui. É muito novo, ainda não consigo acreditar. Nem sei dizer quem você é. O ser então respondeu: — E quem achas que eu sou? Aliás, se você disse nunca ter pesquisado deuses, porque tem em mente um estereótipo de Deus e vem me pesquisar querendo encontrar outra coisa? Quem é Deus pra você?
… O silêncio descrevia o momento. Parecia que nossa conversa ainda duraria um longo tempo. Tempo esse que eu não tinha a perder. Afinal, poderia estar entre os grandes cientistas, principalmente por ser o único a estudar Deus, coletar partículas de Deus e quem sabe, escrever um livro sobre o DNA de Deus.
Após uma avalanche de pensamentos, respondi: — De fato, não pesquiso deuses. Mas mesmo sem pesquisar pensava em encontrar algum tipo de deus como os da mitologia, como Zeus. Nunca pensei encontrar algo como você, que eu não saberia discernir…