15.11.2015

Em 15 de novembro de 2015, em uma tarde de domingo de sol, num quarto cheio de gente, soubemos que Mallu havia chegado. Éramos mais, agora.

Meu cunhado atravessou o corredor do hospital, sorrindo ao lado da incubadora onde levavam a pequena até o berçário. Sem choro, sem surpresas, Mallu abriu os olhos o máximo que podia e, olhando profundamente para mim e minha mãe, estendeu a mãozinha enrugada em nossa direção. Chorávamos abraçadas tentando absorver cada detalhe daquele bebê.

Nunca vou esquecer do jeito que Mallu nos olhou. E nos reconheceu. A certeza de que ela sabia quem nós éramos foi avassaladora. Minha mãe exclamou “Eu sou sua avó, Mallu, eu te amo tanto” e naquele momento me senti ligada à minha família para sempre, certa de que o destino sempre soube que estaríamos ali, lado a lado, para celebrar a chegada de mais um de nós.

Mais uma mulher de boca grande, olhos amendoados e bochecha marcada. Mais uma de sorriso largo e olhos que ficam pequenos quando felizes. Mais uma de nós, tanto quanto minha mãe, minhas irmãs, mais um pouquinho de mim.

Mais tarde fui levada ao berçário, onde ela esperava que a mãe voltasse ao quarto. Mallu estava deitada em um cantinho num berçário à meia-luz, usando uma touca branca, dormindo peladinha e descoberta em um berço aquecido, o peito subindo e descendo rapidamente.

Encostei minha mão onde era possível ver seu coração batendo ritmado, forte, vivo, tão vivo. Ela respirou fundo e se tranquilizou. As batidas desaceleraram e ela pareceu dormir mais fundo.

Passei o dedo de leve na pele macia dela, e ela era tão macia. Uma penugem clarinha cobria seu corpo todo. Ela era como de veludo, um estojo de joia, um vestido de festa, uma capa de escultura, uma cortina de teatro.

Eu não podia tirá-la do berço, mas abaixei o quanto eu pude, e beijei o seu pé, tão perfeitinho, com as pequenas unhas já quase compridas. Enchi o pezinho de beijos, doida para apertá-la nos braços. Mais tarde, agora ela dormia a sono solto, cansada da viagem até nós.

O cheiro daquele pé me acompanha sempre. Aquele cheirinho dela, de sangue, o sangue que dividimos em parte, que faz dela uma pessoa um pouquinho minha também. Cheirinho de pele. De pelo. Da Mallu. O cheiro da minha primeira sobrinha.

(Texto é escrito dentro do projeto #30daysofGratitude. O primeiro dia tem como tema “What smell are you grateful for today?” — Link para o chart do desafio aqui https://twitter.com/outrarosa/status/759949529156288512)