Os Homens e o Dr. C.

Eu soube exatamente o momento em que deixei de ser criança. Não bem “criança”, talvez o termo correto seja “completamente inocente”. Foi também o momento em que eu toquei pela primeira vez na superfície do que significava se apaixonar.

Claro que nada naquele instante poderia me preparar para os momentos de desespero, dor e angústia que enfrentei por amor depois (pausa dramática), nem o quanto me apaixonar poderia levar à repetida destruição do meu próprio ego, de novo e de novo, nos anos que vieram depois.

Tudo aconteceu em maio de 2001, quando tinha 11 anos. Foi também o dia em que conheci aquele que é meu oftalmologista até hoje (e o meu mais longo relacionamento), o Dr. C.

Uma breve recapitulação que talvez esclareça a dramaticidade do momento: foi em março de 2001 que eu tive um “surto auto-imune” que, por algum motivo, fez com que as células dos meus olhos e do tecido conjuntivo ao redor resolvessem se atacar.

Naquele ano estávamos sem plano de saúde, e eu e minha mãe fomos parar no consultório do Dr. C após duas semanas de tentativas desesperadas da minha pediatra de resolver o problema com homeopatia. Ela desistiu de tratar o que até então era uma conjuntivite esquisita e nos indicou ao Dr. C, a quem ela não conhecia, mas que era o amigo de um amigo que tinha a reputação de um médico dedicado.

No estágio em que finalmente chegamos no Dr. C meus olhos não abriam mais sem alguma ajuda e o olho direito estava paralisado. Era um pesadelo.

Nos chamaram da sala de espera — minha mãe me guiou pelo corredor, já que eu não estava mais enxergando direito — e fomos recebidas na porta do consultório pelo Dr. C. Alto, com um nariz torto e dono de olhos azuis sorridentes, ele estendeu a mão e me cumprimentou, deixando na minha pele o cheiro bom de erva doce que senti em uma das infinitas vezes em que cocei o olho durante a consulta.

Dentro do consultório, ao fundo, alto o suficiente para ser audível e baixo o suficiente para ser só charme, tocavam os acordes de “Blue rondo a la turk”. Eu fiquei fascinada com a música, enquanto ele e minha mãe conversavam preocupados sobre meu estado de saúde. Encantada pelo fato de, lado a lado com livros médicos, estar uma impressionante quantidade de CDs e livros de fotografia. Absorvida pela música, pelo cheiro da sala, pela sofisticação dos objetos daquele consultório.

Fui sentada na cadeira de exame oftalmológico e o Dr. C., em um tom de voz preocupado, mirou uma lanterna em um dos meus olhos, se inclinou e, bem de perto do meu rosto disse: “Olhe bem no meu olho, bem no fundo do meu olho”.

E aí, senhoras e senhores, eu estava perdida.

O Dr. C. era (é, já que ele continua sendo meu oftalmologista) esse homem muito sofisticado, engraçado e perfumado, e mesmo a minha pequena Eu aos 11 anos tinha noção disso.

Eu conseguia sentir no perfume que ele usava que ele era diferente, especial. Eu sabia pelo tom de voz, pelo jeito que ele não usava jaleco, mas uma camisa branca bem cortada e calças jeans, sabia, com todas as fibras que eu tinha aos 11 anos, que ele era tudo que eu achava que um homem deveria ser.

Eu sabia pela música que estava tocando, pela fotografia preto e branco pendurada no consultório, pelo brilho nos olhos dele, pelo perfume dele, eu sabia que estava impressionada com aquele homem, pelo fato de ele ser um homem e ser todas aquelas coisas, eu sabia que aquela impressão que ele deixou em mim era o que fazia com que as pessoas se apaixonassem.

Entendi, enquanto ele olhava preocupado para o meu olho paralisado, que tinha sido apresentada ao que fazia com que eu me apaixonasse. Aquele homem tão distante da minha realidade e dos homens que eu conhecia me apresentou àquilo que faz com que eu fique de pernas bambas. Me entendam bem, eu tinha 11 anos, eu não me apaixonei, mas tive um vislumbre de mim mesma ao perceber a impressão que o Dr. C deixou em mim.

Acontece que estava doente, muito doente. Fui internada com a ajuda do Dr. C, que batalhou por uma vaga em um Hospital Público para mim. Nos dias que se seguiram eu perdi a visão temporariamente e passei por um tratamento pesado de corticoides e outras drogas que me deixavam tonta, enjoada.

Mas quando lembro desses dias, só penso que o Dr. C ia até Mogi das Cruzes me visitar, entrava no meu quarto e me cumprimentava com um carinho tal qual o que ele faria na própria filha (alguns anos mais nova que eu), deixando um pacote de salgadinhos e um cheiro bom daquele perfume que ele usa até hoje.

O fim dessa história a gente sabe: eu me curei com a ajuda do Dr. C., que arrastou até Mogi das Cruzes três médicos amigos dele até algum acertar o remédio que reverteria meu quadro, e cresci o suficiente para me permitir sofrer por amor mais algumas vezes, sempre por homens que tinham algo daquilo que o Dr. C tinha me mostrado naquela primeira consulta.

Na minha consulta anual com o Dr. C., eu encontro aquela menina de 11 anos e as expectativas que ela tinha em relação aos homens. É sempre um mergulho em mim mesma — e a garantia de que meus olhos, e os meus sentidos, estão bons para valer.

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