Deixe-me entrar*

Eu só entro se você chamar, então, me chama.
Me pede e eu entro, na sua vida, na sua casa, na sua rotina. Prometo trazer flores para enfeitar, músicas pra te cantar, canetas para te colorir, doces nos dias ruins e, nos bons, um bom vinho.
Me deixa te chamar de mozaum, amor, vida, delícia, ou qualquer outro nome, o seu não é íntimo o bastante. 
Cede pra mim um pouco de espaço. Não me deixa pensando na possibilidade de ser uma viagem minha; na inexistência dos sinais ou desconfiada da minha percepção, acreditar que fantasiei seu sorriso ao me encontrar por acaso no metrô.
Talvez eu te assuste com meu jeito expansivo, porém, prometo me contentar com o lado direito da cama e o esquerdo do peito.
Deixa por mim a tarefa de conquistar teus amigos, mas me ajuda contando sobre as vezes que discutimos Leoni e cantamos bem alto no meio da rua, conta das vezes no mercado onde eu te respondo o resultado do troco antes do caixa dizer e entregar o valor, ou de como eu te encanto com os meus poemas. Fala pra eles o quanto você acha estranho eu andar pelos dois mundos da ciência enquanto desenho plantas para a construtora onde eu trabalho. Só não diz pra eles o quanto você sofreu quando me viu na cama chorando de dor, deixa essa parte pra mim, eu romantizo ela como você jamais conseguirá.
Me deixa ir ficando um dia de cada vez.

Antes disso: Me permita entrar.


*A maioria dos filmes que me indicarás e, somente, assistido na sua ausência, foi ao acaso. Este, também, por isso tornou-se título desse texto, também, escrito ao acaso e achado hoje, se encaixa tão bem, não acha?