Razões para odiar Cartórios

Era um dia qualquer da semana, nada de especial acontecia, com exceção de que havia faltado no trabalho. Estava sem internet e, jogando no navegador Chrome esperava para ser atendida no cartório com intenção de reconhecer firma de alguns documentos. 
Meu aparelho de telefone não é dos melhores e, como sempre acontece ao receber mensagens, travou.

— Droga, meu recorde era 620 — reclamei enquanto abaixava a área de tarefas para verificar se era só mais uma mensagem da Tim, até porque, quem mais me mandaria um SMS?

Não era.

Era… você?

Apressadamente li e reli para ter certeza da pequena palavra inscrita:

“Saudade.”

Comecei a digitar uma resposta. Estando um pouco nervosa, minhas mãos tremulas e suadas dificultavam e, muito, a acertar as letras, algumas destas saíram trocadas, precisando de mim um esforço um pouco maior.

O painel apitou. Senha 59. Era a minha.

Me levantei deixando cair todas as folhas no chão. Droga. Recolhendo-as deixei cair também meu celular, me fazendo assim, pensar que meu único desejo nesse momento era responder essa maldita mensagem. Nunca antes havia sido tão difícil.

Mais uma vez minha senha apitou no painel. Uma voz fina e se mostrando irritada grita:

— Senha 59, mesa 5. Última chamada!!!

Respondo de imediato:

— Estou indo!

Terminei de recolher os papeis, peguei meu celular, me levantei e caminhando apressadamente me dirigi à mesa 5.

A atendente era uma senhora de aproximadamente 50 anos. Seu jeito inquieto muito combinava com sua voz irritante e autoritária.

Sinto uma mão encostando no meu ombro. Era um senhor baixo, de óculos e sorridente. Me mostrou meu RG e dizendo onde o encontrou, fazia gestos repetitivos com as mão, havia sido perto dos bancos, caído. Agradeci à ele enquanto o mesmo se virava voltando para perto de uma menina, deveria ser sua neta, tinham os mesmos olhos.

— Moça, preciso do seu RG — disse a senhora enquanto jogava seus cabelos para trás dos ombros deixando visível seu nome no crachá: Maria Antonieta.

Meu nome seria Maria, minha mãe decidiu mudar no último mês de gestação porque minha tia a alertou de que “Marias” sofriam muito. Depois de adulta ouvi dizer que “Rosanes”, também. Se essas crendices forem verdadeiras, minha mãe trocou seis por meia dúzia.

— Senhora, pode aguardar no painel 2, chamará essa mesma senha. O painel fica em frente ao guichê 7. — De forma corrida, me ditava as instruções enquanto apertava compulsivamente o botão chamando a próxima senha. Antes mesmo de me levantar, percebi a presença de uma pessoa atrás de mim esperando. Deveria ser o dono da tal senha.

Meu celular começou a tocar.

Olhei para a tela e era o despertador programado para às 9 horas.

O único dia da semana em que meu celular desperta às 9 h é aos Domingos.

O cartório é aberto aos Domingos?


Estou em minha cama.

— Bom dia, Ro. — disse minha mãe ao me ver com o celular nas mãos procurando a sua mensagem.

— Bom dia, mãe. — respondi sem nem mesmo olha-la.

Sua mensagem não estava lá.

Em nenhum dos aplicativos possíveis.

Fechei todos.

Abri novamente o messenger.

Enviei:

Big, estou com saudade de você.”

“ Bom dia, Ro. Tudo bem? Desculpa não ter te respondido ontem, eu capotei kkkkk”

Com isso emendou uma conversa entusiasmada, mas que deixou escapar a saudade que eu sentia.

Ela era apenas minha.

Big faz referência ao amor sentido pela personagem Carrie em Sex and City. Personagem esta que em alguns artigos escrevia suas experiências amorosas com o Mr. Big.Talvez seja o meu caso.