Amianto

Eu lembro quando recebi a notícia de que ela viria.

Eu ainda não sabia se era um menino ou uma menina, e isso realmente não importava, eu já me sentia a pessoa mais feliz e completa de todo o mundo.

Eu lembro do primeiro ultrassom. Eu não conseguia ver nada direito naquele monte de imagens borradas. Mas só de saber que aquela manchinha ali no meio de outras manchas era uma vida, que eu tinha criado, me deixava radiante.

Eu lembro quando descobrimos que era uma menina. Meu sorriso ia de orelha a orelha.

“Minha menina”.

Eu sai da sala do ultrassom fazendo planos: a cor do quarto, o primeiro vestido, as aulas de balé, a festa de 15 anos…Como ela se chamaria? Victoria, Amanda..talvez Sophia?

Foram os 9 meses mais excitantes de toda minha vida.
E finalmente chegou o grande dia.

Sophia nasceu.

Eu me sentia a pessoa mais completa de todo universo.

Eu olhava aquela coisinha, pequena e indefesa nos meus braços e meu peito se enchia da mais pura e genuína felicidade.

Eu lembro das primeiras risadas. Das primeiras palavras. Dos primeiros passinhos.

Sophia cresceu.

Ela não quis fazer balé, preferiu o futebol.

Ela não queria barbies de presente, mas tinha quase completa a coleção de carrinhos do hot wheels.

Ela não quis um aniversário das princesas, mas sim dos power rangers.

Ela não usava vestidos, mas tinha uma coleção de all stars.

Eu vibrava a cada gol marcado.

Sempre comprava um carrinho novo no natal e um all star no aniversário.

Ela não era como nos meus primeiros planos, mas eu a amava com todo amor que era possível caber no meu peito.

Lembro quando ela me apresentou o primeiro namorado.

E apesar de todo medo da notícia e todos as complicações com ela, não pude deixar de sentir alívio.

Eu lembro de quando ela largou dele. E como ficou mal por um tempo e tudo o que eu queria era tirar aquela dor do seu peito.

Eu lembro quando ela me apresentou a melhor amiga. E como ela voltou a sorrir como antes.

Eu lembro da sua cara de medo e de choro me contando que sua melhor amiga não era só sua melhor amiga.

Eu lembro de como a abracei e disse que a amava como ela era.

E eu não estava mentindo.

Eu sei que não devia, mas as vezes gostaria que meus planos inicias tivessem seguido seu curso.

Um dia eu vou ter um neto(a)?

E não é só isso.

As vezes eu tenho medo.

O mundo é cruel. As pessoas são cruéis.

Como a nossa família vai reagir?

O que eu quero dizer é que eu não tenho um(a) filho(a) ainda, mas eu sei como vocês se sentem, pai e mãe.

Perdoa por não ter saído como planejado.

Eu amo vocês.

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