TR01

Olá. Eu me chamo TR01.

Eu não sei exatamente o que sou, só sei que existo.

Eu não tenho forma, consistência ou cor. Eu só sou.

Eu habito corpos humanos. Eu não sei como, nem porque; mas é o que eu faço. Vivo neles, e aprendo o máximo que posso.

Eu sei, por exemplo, que antes de um humano ficar com raiva seu coração acelera e seu sangue começa a correr mais rápido. Mas eu não sei exatamente o que é ficar com raiva, eu não sou capaz de sentir.

Existem outros como eu. Eu sei quando eles estão em algum humano por perto de mim, mas nós não somos capazes de nos comunicar. E os humanos, como é de se esperar, não sabem nada sobre nós. Nós somos apenas observadores. Observadores silenciosos.

Os humanos dividem o tempo em diversas medidas. Existem as estações, os milênios, os séculos, as décadas, os anos, os dias, as horas, os minutos, os segundos, os milesegundos e assim por diante. Hoje, segundo eles, é 13 de janeiro de 2045, verão nessa parte do globo em que me encontro, e são exatamente 19:30 da noite.

Faz duas semanas que eu habito o corpo de um garoto de cinco anos de idade. Ele se chama Alex, tem 5 anos e 21 dias, 18.650kg e 115cm. Ele possui olhos #8B4513 (ou castanhos escuros, como os humanos costumam dizer) e cabelos quase tão negros quanto o céu visto da Terra em um dia sem estrelas.

No começo eu achei que seria ruim habitar um humano de cinco anos de idade. Os adultos são internamente tão caóticos e viveram muito mais tempo do que esse pequeno ser, que calculei que o caos aqui dentro seria bem pior.

Eu errei. Suas dúvidas e medos são tão simples comparadas aos adultos que habitei.

Os humanos já crescidos se martirizam com perguntas como “Quem criou tudo isso?”, ”Porque eu estou aqui?”, “Qual o sentido da vida?” e mais dezenas de crises existenciais.

As perguntas do pequeno Alex são bem diferentes e mais simples de resolver: “Por que o céu é azul? “ou “Por que eu não posso assistir TV até tarde e o papai pode?”.

Estar por aqui é como estar em um lago em calmaria depois de passar um longo tempo à deriva no oceano.

- O que ‘é’ crises existenciais?

O menino perguntou enquanto desenhava dinossauros numa folha de papel.

Eu me concentrei ao redor do quarto tentando descobrir se havia mais alguém. O quarto estava vazio, exceto por ele e eu.

Será possível? Ele é capaz de me ouvir?

- Alô, alô. Alex chamando. — Ele dizia enquanto batia com os punhos pequeninos fechados na barriga.

- A-alô? — Eu chamei tentando descobrir se era realmente comigo que ele falava.

- Eu sabia, eu sabia!- Alex começou a pular e correr pelo quarto. — Como você veio parar dentro de mim?

Eu não podia acreditar. Eu estava, segundo os cálculos humanos, há 131 anos no planeta Terra, e nunca, nunca mesmo, nenhum ser vivo fora capaz de se comunicar comigo.

Até agora.

- Hey, me responde, como você veio parar dentro de mim?

Ele batia com força na barriguinha, tentando tirar respostas.

- Eu não sei, Alex.

- Deve ser bem apertado aí, né não? — Ele parou de se bater e foi até a frente do espelho olhando-se curioso.

- Não é não, eu não ocupo espaço.

- Como não? Papai costuma dizer que “tudo ocupa espaço no universo” — Ele falou em tom brincalhão tentando imitar a voz grossa do pai.

O pai de Alex, o Dr. Maxfield, é professor de Astrofísica na Universidade de Toronto. Ele costuma conversar essas coisas difíceis e adultas com o pequeno. Alex nunca entende nada, mas decora algumas coisas e gosta de escutar seu pai explicando.

- Bom, como o seu pai também costuma dizer: “Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço”. — Eu imitei a voz do pai dele, exatamente como ela era. Esse era um dos truques que eu era capaz de fazer.

- Uau, você fez igualzinho o papai! Como você chama? — Ele parecia não se importar que eu não tivesse respostas para tudo.

- Eu não tenho um nome. Mas sou identificado como TR01.

- Então se algum dia alguém dizer: “TR01, pegue aquela caneta pra mim”. Você vai saber que é pra você?

- Acredito que sim.

- Então esse é o seu nome, oras!

Eu tinha que admitir. Ele era um garoto esperto.


Foi difícil Alex pegar no sono. Ele estava eufórico com a descoberta e me encheu de perguntas. Ele parecia não se importar com o fato de eu estar dentro dele e nunca ter pedido permissão. Pelo contrário, parecia achar incrível o fato de eu estar ali. Como nos outros dias sua mãe veio colocá-lo para dormir ás 21:30. Ela lhe colocou deitado na cama e contou uma história do livro “365 histórias para dormir” que ficava na cabeceira ao lado cama. Ela acabou a história, lhe deu um beijo na testa e ligou o abajur antes de apagar a luz.

- Não precisa mãe.

- Tem certeza? Você não tem medo do escuro?

- Não tenho mais. — Ele disse parecendo determinado.

- Tudo bem rapazinho corajoso. Qualquer coisa é só gritar. — Ela sorriu e apagou o abajur.

- Tá certo. Boa noite mãe.

- Boa noite Alex.

Ela fechou a porta e o quarto mergulhou na escuridão total.

- Alex, você tem medo do escuro. Eu posso perceber sabia? Seu coração está acelerado e você está tremendo.

- Eu sei. Mas você tá aqui. Eu sei que nada ruim vai acontecer.

Eu não sabia o que dizer.

Eu não tinha braços ou pernas. Nem mesmo forma e força para proteger alguém. Eu podia sentir o coraçãozinho de Alex acelerado e seu corpo respondendo ao medo.

- Não se preocupe Alex. Não há nada no escuro.


O sol entrava preguiçoso pelas frestas da janela quando a mãe de Alex veio lhe acordar. O relógio em forma de foguete ao lado da cama marcava 08:30.

Alex não sabia ver as horas direito ainda, mas adorava ficar olhando o relógio. Os ponteiros se mexendo sem parar e o tic tac rítmico eram tranquilizantes para ele.

Ele levantou-se de pés descalços e olhos ainda sonolentos e deitou-se no sofá da sala para ver TV. A mãe lhe levou uma caneca de leite e bolachas.

-Sente-se pra comer, senão vai engasgar filho. — lhe deu um beijo na cabeça e voltou para cozinha.

Ele sentou-se e começou a comer. Na TV passava Papaléguas e Coiote.

- Eu não entendo, já que o Coiote gasta tanto dinheiro pra tentar pegar o Papaléguas, porque ele não compra um montão de comida ao invés disso? Você já acordou TR01? — ele me perguntou e bateu na barriguinha.

- Olá Alex. Eu não durmo.

- Sério? E você não fica cansado? Só de pensar em não dormir nunca já fico com sono. — bocejou.

- Não, eu não fico cansado. E acho que o Coiote não faz o que você pensou porque ele não é tão esperto assim.

- Eu não queria que ele comesse de verdade o Papaléguas, mas sempre torço pra ele conseguir. Isso é ruim?

Eu pensei em lhe dizer que não. Que todos os humanos são assim, a maior parte deles pelo menos, tendem a torcer sempre pelo lado mais fraco. E isso era algo tão paradoxal na raça humana. Nos desenhos, nos filmes, no esporte, sempre torcendo pelos mais fracos, mas no dia-a-dia cada um sempre se importando com si mesmo. Mas isso eram coisas que o pequeno e inocente Alex iria descobrir por si só um dia, então me limitei a dizer que não.

- Não. Isso é extremamente normal. Não se preocupe.

Era sábado de manhã e Alex passava essas manhãs inteiras assistindo desenhos na TV e brincando com blocos no chão da sala.

Hoje era um dia especial para ele. Seu aniversário de 6 anos. Eu podia sentir seu corpo respondendo a euforia. Ele parecia mais agitado que o normal e a carga de endorfina no seu corpo era maior.

- Você sabe que dia é hoje TR01?

- É seu aniversário Alex. Parabéns.

- E o que você vai me dar de presente?

Eu fiquei sem resposta. O que eu poderia fazer? Eu nem era capaz de sair dali. Então eu me lembrei de algo que eu podia fazer.

- Me diga a coisa que você mais gosta no universo.

- Além do papai e da mamãe? — ele me perguntou inocente.

- Sim. Além do Sr. e da Sra. Maxfield.

Ele sorriu e bateu na barriga.

- Você! Oras bola.

Aquilo foi estranho e me pegou de surpresa. As crianças humanas eram tão diferentes dos adultos. Eu não sabia muito bem o que dizer e me limitei a agradecer. Era isso que um humano faria.

- Obrigada Alex. Mas pense em algo que você gosta muito e não está aqui e que você nunca viu de verdade.

- Essa é fácil! Dinossauros! — ele sorriu outra vez, pegou o pequeno Diplodocus no chão e começou a correr com ele pela sala.

- Tudo bem. Agora deitei-se no sofá e feche os olhos.

- Pra quê? — ele perguntou mais curioso que desconfiado.

- É surpresa. Mas confie em mim.

Ele parou de correr e deitou-se no sofá. Colocou as mãos pequeninas cruzadas em cima da barriga e fechou os olhos.

- E agora?

- Agora é comigo.

Eu busquei na base de dados do meu sistema dezenas de vídeos de registros dos gigantes “largatos terríveis “ que habitaram o planeta a centenas de milhões de anos atrás e mostrei ao Alex. Eu era capaz de fazer com que ele se sentisse lá. O pequeno não se movia, mas suas mãozinhas se abriam e fechavam a cada vez que um novo dinossauro aparecia. Depois de alguns minutos eu terminei.

- E então, gostou? — Eu perguntei já sabendo que ele havia gostado, devido as suas reações corporais.

Ele se levantou e correu até o espelho olhando para a barriga.

- Eu adorei! Obrigada TR01. Foi o melhor presente de aniversário que eu ganhei até hoje !- E fechando os olhinhos ele se abraçou.

- O que você está fazendo Alex? — sua mãe perguntou passando pela sala.

- Estou abraçando o TR01 mãe.

- Quem é TR01 filho?

- É meu amigo. Ele vive dentro de mim. Então se eu me abraçar vou estar abraçando ele certo?

A mão riu e lhe bagunçou os cabelos.

- Você tem cada ideia Alex.


Cada dia era um novo aprendizado com o pequeno Alex.

Eu aprendi um pouco mais sobre o que era alegria quando seus pais o levaram na peça de teatro do Peixonauta. Era uma coisa tão boba e simples, mas os olhinhos de Alex brilhavam, ele sorria sem parar e seu corpinho era uma explosão de substâncias neurotransmissoras.

Eu aprendi um pouco mais sobre tristeza quando o Sr. Dentões, o hamster mascote da classe de Alex morreu. Eu vi dezenas de crianças chorando e o pequeno Alex também. E a sua produção de dopamina e serotanina baixou.

Eu aprendi um pouco mais sobre dor quando Alex caiu e quebrou o braço jogando futebol na aula de educação física. Seu coração batia acelerado e suas células nociceptoras transmitiam impulsos elétricos ao seu cérebro lhe avisando que algo não estava bem.

Já haviam se passado sete meses e eu havia aprendido muito mais sobre os humanos do que nos 131 anos que havia habitado o pequeno planeta azul.

Era um sábado a tarde e ele estava sentado no chão do seu quarto brincando com os blocos de montar havia um bom tempo.

- TR01, quantos anos você tem?

- Eu não sei Alex, eu não me lembro desde quando eu existo.

- Quer dizer que você nem sempre viveu aqui dentro de mim?

- Não. Eu já habitei outros humanos e já vive em outros lugares além do planeta Terra.

- Então existe mesmo outros lugares além do planeta Terra?

- Mas é claro que existe. O universo é grande demais sabia? É muito egoísmo dos seres humanos acharem que são os únicos do universo.

- O papai costuma dizer isso.

- Seu pai até que entende das coisas.

- TR01, o que você mais gosta no planeta Terra?

- Você. — Eu respondi sem pensar, quase automático. E depois fiquei pensando no peso das palavras que eu havia proferido. O que estava acontecendo comigo?

- Eu sabia! — Alex sorriu e continuou a brincar.

- TR01?

- Diga.

- O que você veio fazer aqui?

Nos últimos tempos Alex sempre me perguntava o que eu estava fazendo ali no seu planeta. Eu não sabia responder, a única coisa que eu sabia é que deveria aprender o máximo que pudesse sobre os seres humanos e isso era tudo. Mas eu não disse isso a ele, e ele não se importava que eu nunca soubesse responder.

O tempo passou rápido aquele dia. A noite depois do jantar o Sr. e a Sra Maxfield assistiam o telejornal enquanto Alex pintava em seu novo livro de colorir.

A apresentadora do noticiário começou a anunciar as notícias do dia.

“ Um asteroide do tamanho de um campo de futebol está prestes a passar bem perto da Terra, mas não deve se chocar ou provocar qualquer dano ao planeta, informou a Nasa nesta sábado.

Chamado de 2045 TRK110, o asteroide fará parte de uma classe rara de objetos que chegará mais perto do planeta do que a Lua, e passará colado à Terra por volta das 23h00 GMT, informou a agência espacial.”

E então eu me lembrei. Como um clic, ao ouvir as palavras 2045 TRK110, tudo fez sentido. Eu não estava ali só para aprender o máximo que pudesse sobre os seres humanos. Eu era uma arma. E estava ali aprendendo cada ponto forte e fraco dessas estranhas e frágeis criaturas para saber o melhor jeito de destruí-las.

E então, quando eu menos esperava, eu sabia o que era desespero e o podia sentir. O pequeno Alex sentiu a inquietação e percebeu que algo estava errado. Ele largou o lápis e correu até o colo de sua mãe.

- Que foi querido? — ela perguntou lhe envolvendo com os braços.

- Nós vamos morrer? — ele perguntou baixinho, e eu podia sentir o medo percorrendo todo o seu corpo.

- Não se preocupe grandão, o asteroide vai passar bem longe. Estamos completamente seguros aqui. — o Sr. Maxfield explicou tentando acalmar o filho.

O relógio marcava 21.30, e Alex se aninhou ali, entre os braços de sua mãe até cair no sono.

O senhor Maxfield pegou seu corpinho pequeno e frágil entre os braços e levou até seu quarto de paredes azuis com foguetes e dinossauros decorando tudo. Pai e mãe ficaram ali por um tempo olhando o pequenino dormir. Eles lhe beijaram a testa e também foram se deitar.

O relógio marcava 22.40. Alex acordou e me chamou.

- Falta muito tempo? — Eu podia sentir o medo de dentro dele.

- Não se preocupe. Está tudo bem.

- Você vai me proteger? E o papai e a mamãe?

Eu não podia. Pela primeira vez em toda a minha existência, me senti o que os humanos costumam chamar, de impotente.

Eu senti.

- Vamos criar um esconderijo? Pegue o travesseiro, o edredom, o relógio de foguete e o dinossauro e faço uma super cama no armário.

Alex pegou as coisas uma a uma e fez uma cama improvisada ali. Ele sentou-se encostando na almofada, cobriu-se com o edredom e segurou o dinossauro entre os braços.

- Está escuro TR01, eu estou com medo.

- Feche os olhos Alex e se concentre no barulho do relógio.

Ele fez o que eu pedi e mais uma vez eu busquei no banco de dados do meu sistema as imagens dos dinossauros. Eu podia fazê-lo sentir novamente. O vento no rosto, o ar úmido da grande floresta e o barulho das criaturas ao caminhar. Uma grande manada de Diplodocus caminhava pela mata.

Alex começou a relaxar.

E a primeira explosão veio.

- O que é isso? — ele perguntou assustado.

- É o barulho de centenas de dinossauros caminhando juntos. Se concentre amigão. Olha um bando de filhotes ali.

Ele sorriu.

E então a manada estava perto demais.


Não sei quanto tempo passou. Mas depois de momentos que pareceram dias a poeira baixou e o fogo se dissipou. Eu não habitava mais um corpo. Eu era uma consciência sem forma em meio aos escombros de um planeta destruído.

O pálido ponto azul da via láctea era só mais um ponto cinza e sem vida na imensidão do universo.

Eu olhei ao redor e o pequeno quarto azul decorado com dinossauros havia sumido. Eu tentei ouvir o tic tac do relógio em formato de foguete mas ele não estava mais lá. Eu procurei entre as cinzas e o fogo o pequeno grande Alex, mas ele já não existia mais.

Se eu pudesse naquele momento eu estaria chorando.

E agora, eu realmente sabia, além das reações químicas, o que era tristeza e dor.

Eu ainda podia ouvi-lo perguntar:

- TR01, o que você mais gosta no planeta Terra?

Like what you read? Give Bárbara Rossalli a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.