Cartas às minhas amigas

Querida amiga,

Hoje me senti um pouco solitária. Senti como se no mundo não me houvesse uma alma irmã. Todos os rostos me pareciam desconhecidos e duros. Eram rostos de homens. Explico-lhe, hoje o dia amanheceu quente e o sol castigava com toda sua força massacrante. Tenho para mim que dias assim são dias de homem, a-ni-qui-la-do-res.

Não sei quando esta carta te encontra, nem como estará hoje. Espero que bem, espero que viva. Venho através desta carta contar-lhe o que se passa na minha vida. Estou bem. Não tão forte quanto queria, mas bem. Tenho procurado ajuda e seguido alguns dos meus sonhos. Sei que às vezes o mundo é duro e a confusão dos dias transforma nossos desejos em quimeras

Amiga, finalmente estou encontrando meu caminho enquanto pesquisadora e artista. Ainda estou cambaleante, mas somente o tempo, as experiências e as quedas me farão aprender a trilhar com altivez esse meu trajeto. Decidi falar sobre mim, sobre você na minha dissertação. Não se espante, nem tenha medo, nosso nome e história permanecem em segredo no silêncio dos nossos corações. Nossa história aparece mascarada no seguinte tema: As personagens trágicas femininas de Shakespeare. Sei que parece pomposo, mas tudo na acadêmia precisa ter um ar de importância.

Escrevo-te porque acho rude escrever sobre nós e nem ao menos contar-te. Vou explicar melhor como se dará este trabalho, te farei uma proposta e aguardarei com enorme carinho o seu retorno. Entretanto, comecemos pelo início.

Decidi falar sobre o feminino trágico. E logo depois de decidir este tema, fiquei me questionando se o trágico é uma condição de existência do feminino. Eu sei que pode parecer exagero, mas veja bem, decidi analisar a partir da minha matéria primeira de arte: o teatro. Dentro do teatro, escolhi o grande poeta, Shakespeare. Minha amiga, minha irmã, eu fiquei tão triste ao ver que em todas as tragédias as principais heroínas acabavam sempre mortas. Então me fixei em duas, uma por admiração e outra por reconhecimento: Lady Macbeth e Ofélia.

Não sei se você conhece ou ainda lembra das histórias delas, mas vou re-contar brevemente. Lady Macbeth convence o esposo a matar o Rei Ducan para que ele possa assumir o trono. O casal mata o rei, embora Macbeth a princípio não tivesse a coragem para fazê-lo. Lady Macbeth pede que os espíritos tirem dela tudo o que é feminino para que se fechem nela todas as portas da bondade e remorso. Você percebe o quão forte isso é? Por fim, Macbeth sobe ao poder , torna-se rei, corajoso, bravo, a rainha se perde em loucura e medo. Acaba suicidando-se, enxergando as mãos para sempre manchadas de sangue. A grande questão para mim, minha irmã, é que eu não acho que ela enlouqueça por medo, mas por frustração. Ela que queria o trono no início e quem tem uma coroa na cabeça é ele. Ela não queria ser rainha, mas sim, ser rei.

Ofélia me é um espelho doloroso. Creio que você já deve ter visto alguma imagem que remetesse ao seu suicídio. A ninfa, morta, afogada, flutuando plácida em água coberta de flores. Ela a todos obedecia, sempre correta, sempre gentil. Suicida-se após perder o pai, o irmão e o amor. Grande rebeldia esta a de cometer o suicídio. Última grande rebeldia e uma forma de protesto contra a sociedade machista e patriarcal dinamarquesa medieval (ainda bem que mudou!).

Eu resolvi então escrever cartas para as duas. Sei que pode parecer esquizofrênico, sei que elas não vão me responder, mas acredito que elas ainda tem muito para conversar comigo, com a gente. Então decidi escrever minha dissertação assim. Em cartas.

Por outro lado, ainda me sinto incompleta, preciso transformar toda essa inquietação em algo mais. Ainda mais depois de suspeitar que além delas, Desdemona, que morreu enforcada por Otelo, tenha sido também estuprada. Isso me fez lembrar aquela menina do rio e os 30 Otelos que a cercavam. Imagino o sofrimento de Lavínia, filha de Titus Andronicus, ao ser estuprada por dois irmãos, que perdeu a voz e a língua para que fosse proibida de contar sua tragédia e não quero que isso se repita. O produto da acadêmia, a dissertação ainda é um produto mudo, que não fala para o mundo. Então decidi fazer um espetáculo.

Não me pergunte, minha amiga, como isso se dará, não sei ao certo. Mas aqui entra meu pedido para você, pensei em tal como na dissertação, partir de cartas. Queria que você me escrevesse sobre como é ser mulher, ou sobre o trágico feminino e me enviasse, pode ser através de poema, ou um desenho. Pode inclusive me mandar uma foto sua de infância, ou o seu primeiro sutiã, ou me contar a lembrança do dia em que você descobriu ser mulher. Seria muito bom essa primeira lembrança, ou o que te vem na cabeça agora depois de eu ter te contado tudo isso. Posso te passar o meu endereço, seria maravilhoso receber uma carta na tua letra, com teu cheiro, para que eu note também o tremular incerto da tua mão ou possa ver a força com que você escreve.

Amiga, sei das dores e medos que ser mulher despertou em mim desde o desabrochar dos seios. Os homens sempre pintaram as mulheres como indefesas e inseguras e eu aprendi a crescer assim. Sinta-se livre e segura para me contar também das violências que você sofreu. Temos o mesmo sangue.

Tudo isso vai acabar se juntando numa dramaturgia ainda incerta, porém, tenho certeza que muito forte e verdadeira, porque falará de você, de mim e de nossas outras irmãs. Por favor, peço que mande essa carta para outras mulheres que você ache que possa me ajudar. É como uma colcha de retalhos do que é feminino. Caso queira mandar-me uma carta, te passarei o endereço da minha casa, ou podemos combinar um local para trocar as cartas por uma conversa ou um abraço. Entre em contato comigo que marcamos, ou te envio meu endereço, pode me encontrar no twitter, instagram ou facebook por Roubarameunome (no facebook isso vem depois da /), deixo também meu e-mail: Fernandacunha.n@gmail.com

Espero que me retorne, estou ansiosa por sua resposta. Espero mesmo que você possa me ajudar. Aguardo notícias suas e estou com saudades.

Fernanda Cunha.

11 de maio de 2017.

P.S: Seria um presente receber essa carta com sua letra, não impessoal e por e-mail. Me envie também cheiros e pedaços de pano, e tecidos e desenhos ou fotos que te recordem essa grande aventura que é ser mulher. Não precisa fazer sentido, pode ser poesia, pensamento entrecortado, em espiral. Basta ser sincero. Espero, caso me escreva, que possa enviar-me o quanto antes. Agradeço imensamente.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.