O Tour em que nos voltamos a lembrar do brilhantismo de Cavendish … e não só

Foi apenas uma das quatro vitórias de etapa de Cavendish. Mas foi o suficiente para nos lembrarmos novamente que o sprinter britânico é um dos melhores na especialidade. Crédito: BiCycling

A edição do Tour de 2016 foi especial por vários motivos. Durante 21 etapas fomos despertados para uma espécie de revivalismo. E nesse campo fomos lembrados (novamente), como se isso fosse necessário, de que Cavendish, Sagan, Froome são ciclistas de outra dimensão.

Cavendish entrou numa fase da carreira em que tem sido uma sombra dos tempos em que dominava a seu belo prazer os sprints. Com a emergência de nomes como Kittel o britânico foi sendo relegado para um plano inferior quando emergiam as conversas sobre o melhor sprinter da actualidade. Mas o Tour de 2016 baralhou definitivamente essa conversa. Este foi o palco utilizado para sermos lembrados (novamente) de que Cavendish ainda tem a capacidade para batalhar com os melhores sprinters do pelotão. Mas para chegar a este ponto o britânico teve que sair da ribalta depois de passagens menos conseguidas pela Sky e Etixx-Quick Step. E nessa caminhada encontrou em si as forças necessárias para colocar novamente o seu nome entre a elite dos ciclistas mais rápidos do pelotão. E as quatro vitórias de etapa, a que se acrescenta a camisola amarela, foram o exemplo disso mesmo.

Sagan é um dos melhores ciclistas do mundo. Apesar de estar constantemente a vencer a camisola verde no Tour a ausência de vitória era uma realidade. Mas em 2016 conquistou três o suficiente para nos lembrarmos das suas capacidades. Créditos: Telegraph

Mas essa espécie de revivalismo que atingiu Cavendish também se estendeu a Sagan. Não por estar afastado dos grandes resultados. Mas já nos tínhamos esquecido da sua capacidade para vencer etapas no Tour. Apesar de estar constantemente entre os melhores, e das constantes vitórias na camisola verde, esse brilhantismo, ano após ano, ficava ofuscado pela ausência de triunfos em etapas. Mas em 2016 as coisas mudaram drasticamente. Sagan venceu três tiradas e colocou um ponto de exclamação num Tour de 2016 em que voltou a se apresentar em grande nível.

Froome dominou o Tour com uma vitória bem convicente mas a etapa com final no Mount Ventoux foi o suficiente para nos lembrarmos da sua insaciável vontade de vencer e do tipo de carácter competitivo do britânico. Créditos: Cycling Weekly

Mas o Tour de 2016 também foi um ponto de exclamação na carreira de Froome onde mais uma vez provou a sua dominância. Já conhecíamos a sua capacidade para vencer mas vê-lo a dominar a nível individual e colectivo era uma memória distante.

O Tour de 2016 acrescentou outra dimensão ao legado de Froome. A etapa com chegada no Mont Ventoux mostrou acima de tudo o tipo de carácter que possui. Era algo que já sabíamos mas este episódio fortaleceu essa convicção. Em breves momentos o britânico criou um dos momentos icónicos da corrida ao mesmo tempo que nos lembrava da sua insaciável vontade de vencer.

A força de Froome em vários terrenos acabou por intimidar aqueles que tinham a pretensão de disputar a geral da corrida. A conversa sobre quem o poderia destronar da liderança nunca chegou a acontecer. A cada dia decisivo Froome encontrava uma maneira de ganhar mais tempo sobre aqueles que ainda tinha uma réstia de esperança de poder contestar o trono do imperador do Tour.

Froome ganhava tempo em todo o lado. Era nas descidas, no plano, na montanha, no contra-relógio. E essa realidade foi um desincentivo a qualquer execução de um plano mais arriscado. O temor, cada vez mais gritante, das consequências de um ataque a Froome crescia no pelotão. E ainda para mais quando já não estava na corrida alguém com a imprevisibilidade de Contador. Talvez isso fosse suficiente para refrear Froome de algum dos seus planos. Mas a realidade é que nunca saberemos. Pelos menos no que diz respeito ao Tour de 2016. Mas ficou evidente que nunca existiu uma estratégia consistente de ataque a Froome e/ou à Sky. E isso acentuou ainda mais a dominância de Froome.