Selo de autenticidade
Como se chama teu irmão? João? O meu também. Vai que você grita “Joããããão!!” e a gente descobre mais uns cinquenta. Quando eu nasci, conheci o meu primo João, e pensei que ele era o único João do mundo. Pensei que todos os outros tinham nomes de outros, tipo Ramon, Mariano, Vitor e Tiago.
Minha mãe teve um segundo filho em 92. Como não tinha ideia do nome, perguntou para minha tia Rose e logo o menino nasceu, em 5 de outubro, e nasceu um João, que pouco depois virou Jota, Joãozinho, Jotinha.
Quando cheguei na escola no primeiro fevereiro de aulas, o menino do meu lado era João. Na chamada, três respondiam João Gabriel, João Prato, João Marcos. O reserva do time do bairro era o meio-irmão do Zé, o João. Poucos anos depois, nas aulas de inglês, o “titcher” era um tal John Silva (um jeito mais chique de se chamar João).
Em 1997, nossa família se mudou para outra cidade, longe de qualquer laço familiar. Ruas ébrias, um céu sempre pálido e um cheiro de terra fresca sempre pairando pelo ar nas noites de passeio em família. O vizinho do lado veio nos receber, cheio de carisma e batom da esposa no colarinho da camisa, que não deve nem ter percebido a mancha quando ele saiu de casa sem se limpar. Seu nome era João Afonso.
O João Afonso era diferente dos outros Joões, não por ser um João Afonso, mas por ser o João vizinho. O João que não era colega de escola e também não era meu primo, muito menos meu irmão. O João que certamente não seria o João da limpeza, o João Vitor da firma, o João advogado ou o João Carlos, namorado da Alice. Haveriam outras Alices, mas nunca tão belas, assim como outros Joões que nunca seriam meus vizinhos.
O que haveria de tão único no homônimo? Quem foi o primeiro, antes de vir a cópia? Só por ser o mais velho de todos, aquele João seria o original?
Quantos Joões existem no mundo? Quantas Alices, Márcias, Fátimas, Felipes?
Não faço a menor ideia, e me pergunto há tempos. Mas sei dizer a diferença de cada João — e nunca foi pelo sobrenome.