A geração que nasceu de saco cheio

“A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor.” Zygmunt Bauman

Difícil identificar em que momento da história da humanidade as pessoas passaram a ser tão intolerantes e carentes de vitórias e medalhas. Talvez desde Adão e Eva as coisas sejam assim por aqui.

Bom, eu tenho 28 anos, tendo como base a minha geração, ainda estão presentes os nossos avós, pais e chegando com força total, os nossos filhos. Nossos avós e pais lutaram muito, e muitas vezes só pra sobreviver. Guerras mundiais, escassez, fome, ditadura militar foram alguns dos desafios. Muitos evoluíram economicamente e com muito suor nos proporcionaram uma vida mais estável. Nós tivemos tempo de escolha, mas ainda assim estamos de saco cheio.

Será que a impaciência e a carência estão ligadas ao anseio do nosso espírito por uma evolução acelerada?

Não parece ser uma questão de evolução superior ou espiritual, pois tudo é tão descartável, substituível e material que as vezes até me assusta. Graças ao advento tecnológico dos últimos séculos a nossa capacidade de controle e monitoramento sobre as ações dos outros aumentou e de maneira proporcional a nossa insegurança com relação às pessoas e ao futuro do mundo também. As discussões, os debates, as críticas são realizadas quase que instantaneamente, falar sem pensar é algo comum, ninguém para pensar em como agir e no que considerar antes de agir. Você simplesmente envia um whatsapp para seu amigo, namorada, pai, mãe, tio, prima e fala o que você sente ali na hora sem nem olhar nos olhos da pessoa, ou sem entender a verdade e o sentimento por trás das palavras, que só poderiam ser percebidos com o calor de uma conversa com olhos nos olhos. Uma lágrima, um olhar desesperado, uma feição de arrependimento não podem ser traduzidos em um emotion. Eu entendo que muitos negócios podem e até devem ser fechados via web ou qualquer tecnologia disponível, isso agiliza a maneira com a qual evoluímos na esfera capitalista, mas as relações interpessoais não são tão objetivas assim, não é mesmo? Não é possível entender o outro sem ao menos ouvi-lo.

Eu vejo a tecnologia atrapalhando a humanidade no cumprimento de uma lição fundamental que é amar o próximo. Esse vazio emocional que a tecnologia gera nos aprisiona e nos torna frios, então parece que já nascemos de saco cheio. A cada relação que finda, seja ela de amizade ou de amor, mais ódio, mais rancor e mágoa são gerados, porque não nos damos tempo de ouvir, de falar, de amar o outro, de compreender o outro, a relação simplesmente precisa acabar para que eu possa seguir em frente. Não importa o que houve, só quero renovar, então eu uso um aplicativo que vai me ajudar a conhecer um novo amor ou um novo amigo. Essas fendas sentimentais que são criadas em nossos corações após rompimentos vão abalando a nossa estrutura aos poucos. Hoje o perdão parece utopia e o egoísmo uma ideologia imperadora.

A facilidade e a capacidade de solução urgente é uma escolha nossa. A ferramenta encontra-se lá disponível para utilização e o que nos leva até ela é livre-arbítrio. Fato que a geração dos nossos avós muitas vezes não tinha a opção de solução rápida, isso fazia-os refletir e tomar decisões mais sensatas ou pelo menos com maior parcimônia. Não estou dizendo que eu largaria tudo e iria viver numa comunidade sem nada de tecnologia e onde as pessoas só se falam cara a cara. Eu respeito todo o avanço e usufruo dele o tempo todo, porém quero encontrar um motivo para não confiar todas as minhas decisões e relações às ferramentas originadas desse avanço. Eu quero tolerar mais, compreender mais, terminar as minhas relações com os pingos nos ís, sentir que do outro lado há um ser humano tentando me dizer algo, muitas vezes precisando de ajuda, perdido ou ainda insatisfeito com o que eu posso oferecer e tudo bem, ninguém é perfeito, mas todos merecem amor e respeito. Será que agir assim preencherá o vazio que esse saco cheio que veio de fábrica derrama em nosso peito?

As profissões mais promissoras atualmente estão ligadas a mente humana, psicólogos e psiquiatras estão com agendas lotadas. Cada vez mais pessoas buscando aulas de Yoga, meditação e coisas do gênero. Aquelas fendas emocionais aos poucos se expandem e fazem a nossa estrutura ruir.

Chegamos a um nível de tecnologia que contribui para a tomada de decisão e economiza milhões para empresas e até para nós mesmo, mas será que temos a maturidade necessária para lidar com isso? Ninguém pensou nisso né? Não. Porque tudo tem vinculo com o montante de dinheiro que isso ou aquilo pode gerar.

Por que falar sobre isso? Se nós não paramos pra pensar nas pessoas quem dirá no meio ambiente, e o meio ambiente é a atual maior ameaça a espécie humana. Sempre damos um jeito de vencer, e assim tem sido há milhares de anos, mas será que essa carência por vitória não é a vontade do nosso espirito de evoluir que é mal interpretada pelas limitações da mente humana? Quando você vence, normalmente recebe um prêmio ou uma medalha por ser o melhor em determinado assunto ou atividade, então você leva isso para casa e essa é a prova de que você é um vencedor. Daí em diante você passa a mensurar suas conquistas e sua evolução pelas suas vitórias e reconhecimentos. Quem garante que o segundo colocado não teve uma experiência mais rica e válida? Ele levara para casa um prêmio “inferior”, mas dentro de si sem dúvida uma lição de reconhecimento e de humildade, que pode fazê-lo entender que o nosso triunfo e evolução deve ser mensurado pelas lições apreendidas e não por tempo ou aplausos, tudo isso é proveniente do ego e nada disso poderemos levar conosco, porque muitas vezes os aplausos não nos ensinam nada além da obsessão por mais e mais e quando somos limitados ficamos de saco cheio e frustrados.

As pessoas estão de saco cheio da pressão de ter que ser o melhor, no fundo elas querem é ser feliz!

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