André Breton — sobre a astrologia

Entrevista contida no livro Magia Cotidiana — editora Espiral/Fundamentos
Você tem interesse por astrologia?
Breton: Considero-a uma ilustríssima dama de fina estirpe, muito encantadora e vinda de tão longe que não posso ao menos submeter-me ao seu feitiço. No mundo puramente físico não vejo nada que possa rivalizar com ela em atrativos. Me parece, ainda, que guarda um dos mais altos segredos do mundo. É uma lástima que hoje — pelo menos para o povo em geral –seu trono seja ocupado por uma prostituta.
- A astrologia é apenas uma criação do homem ou uma formulação do universo sentido pelo homem?
Breton: Como precisamente é uma formulação - das mais notórias - entre as relações do homem com o universo, para mim não se impõe o problema. Este homem, a menos por uma imbecil presunção de sua parte, deve, contudo, saber que não há nada para “acreditar”, mas é permitido descobrir um pouco do oculto e liberar energias que estavam potencialmente na natureza. Creio que isso se aplica à descoberta de Netuno ou da penicilina.

Podemos considerar a astrologia uma forma de desenvolvimento objetivo dos poderes poéticos do homem?
Breton: Enquanto os astrólogos, explorando realmente o céu noturno, se deixaram impregnar de tudo o que emana para trazer suas centelhas à noite da existência humana, sim, eles colocavam em jogo todos os poderes poéticos.
Quais relações os surrealistas têm com a astrologia?
Breton: Relações desgraçadamente episódicas e inteiramente individuais. A astrologia, como a poesia, não só exige dedicação total mas também requer dos astrólogos sinais especiais de predestinação. Quanto a mim, conheci rudimentos da astrologia por volta de 1927. Depois, Pierre Mabille me passou um pouco do seu grande conhecimento do tema e me apresentou a Fludd (Robert Fludd), para que não desdenhasse da lamentável mediocridade de grande parte dos tratados modernos. Em geral, os surrealistas têm considerado a astrologia com vivo interesse, sobretudo do ponto de vista poético e sem aventurar-se muito longe nela.
- Se consideramos a astrologia como jogo lírico, você poderia admiti-la como um instrumento de uma arquitetura das relações no universo?
Breton: Não sou geômetra, ao menos no antigo sentido da palavra, e por esse motivo não tenho autoridade para tratar do tópico. O que sempre estimei na astrologia em mais alta conta não é o jogo lírico a que se presta, mas antes, sobretudo, o jogo multidialético que ela demanda e que é seu fundamento. Independente dos meios de apreciação muito sutis que a astrologia procura e das previsões que ela autoriza, também me parece seu método o mais fecundo exercício de flexibilidade mental. Desentranhar um destino partindo do ponto de vista dos planetas e de seus aspectos mútuos nos diferentes signos e casas relacionados com os pontos focais do ascendente no meio do céu supõe tal destreza que bastaria para acusar de infantilismo os modos correntes do raciocínio lógico.
O que você pensa da astrologia enquanto língua de ouro da analogia, que estaria assim como o contraponto e a harmonia para a música?
Breton: Devo parcialmente desqualificar-me por falta de vocabulário musical. Que a astrologia seja a “língua de ouro” da analogia, que tende a permitir maiores trocas entre o homem e a natureza, estabelecendo entre ambos toda uma rede de localizações que se correspondem, é algo que não poderia contradizer. Na realidade, nada revela aspiração mais ardente à harmonia (no sentido que Fourier concebeu essa palavra).
Diante do escasso interesse pela astrologia no plano da qualidade, o que você pensa sobre a responsabilidade dos astrólogos?
Breton: Creio que a responsabilidade é esmagadora e que o Centro Internacional de Astrologia deveria com toda urgência expor sua opinião contra empresas venais e a exploração desavergonhava da credulidade, que chegou ao ponto de desprestigiá-la definitivamente (horóscopo dos periódicos, etc).
Que relações você percebe entre o plano do livre arbítrio e o da predição?
Breton: Isto nos leva, creio, ao caso de Jérôme Cardan (astrólogo e filósofo italiano) que morreu de fome aos setenta e cinco anos para cumprir a predição de seu horóscopo e não desmentir a astrologia. Não vejo nada a acrescentar ao que disse a esse propósito Grillot de Givry (tradutor francês do místico Paracelso): “Resulta, pois, que se a fatalidade pode se cumprir foi por meio do livre arbítrio; mas seus adversários sustentaram que o acontecimento fatal havia se consumado e no livro do destino estava escrito que Cardan morreria de fome, qualquer que fosse a razão deste tipo de morte”.

�tradução: r.saffuan