Fora d’horas #1 — O Rapaz e o Monstro (Bakemono no Ko)

Samuel G. Soares
Jul 10, 2017 · 10 min read

Spoilers ahead! Well, duh! Faz amanhã, dia 11 de julho, precisamente 2 anos desde a estreia do filme Bakemono no Ko no Japão. Desta forma, o timing deste artigo até pareceria relevante, mas não se deixem enganar. Continuam a ser 2 anos desde a estreia, uma evidência da minha péssima inabilidade para me manter atualizado com o que de mais recente sai. Ando a assistir a Mad Men e a Community (a passo de caracol), ambas as séries terminadas em 2015. Talvez devesse mudar esse pequeno aspeto agora que fiz a promessa ao mundo (desculpa a sério, mundo) de ser um blogger. Ei, talvez. Por outro lado, tantas vezes digo (a quem não quer ouvir) que a realidade é a minha maior âncora ao escrever humor. E o que é mais real na vida do que não ter tempo para tudo, aliás, para nada? Essa é a minha realidade, pelo menos. Bem-vindos a ela.

Um último aviso antes de iniciar o artigo propriamente dito, e que espero que não ignorem: isto contém MUITAS revelações sobre o enredo do filme. Aliás, percorrerei o enredo do início ao fim. Vou pressupor, assim, que já o viram, embora tal sejam estatisticamente improvável. Se ainda não o fizeram, força! Se não o pretendem ver de maneira nenhuma e só estão aqui pelo que tenho a escrever, força!, não há forma de eu possivelmente os avisar sobre quão desapontados irão ficar!


Ren é um menino de nove anos recentemente órfão de mãe, e cujo pai não dá sinais de vida. É certo que a mãe também não dá, mas por razões diferentes. O pai encontra-se desaparecido, ou por encontrar, digamos. Ren encontra-se infeliz no seio da família que o acolhe, parentes próximos, certamente, mas distantes, e decide fugir para as ruas de Tóquio, onde corre perante uma multidão que o ignora. Sentado, encolhido para si mesmo junto ao passeio num bairro qualquer, Ren encontra um pequeno rato, Chiko. Eu nem sequer pensei ña altura que aquela coisa fosse um rato, simplesmente admiti aquilo como uma bola de pelo animada e muito fofinha, que habitava o cabelo dele e lhe transmitia piolhos e doenças.

No bairro onde procurava dormir, Ren é abordado por dois estranhos sujeitos, um dos quais um lobo que, pensei eu, talvez lhe quisesse vender drogas. Estou a gozar, claro, mas o lobo queria mesmo que Ren fosse com ele, queria fazer dele o seu pupilo. Ren manda-o bugiar. É aqui que Ren começa a crescer em mim enquanto personagem. É uma criança mal-criada, rude, e o filme retrata isso de uma maneira encantadora e extremamente engraçada, por vezes. Ren arrepende-se de mandar o lobo ir passear, e corre atrás dos dois sujeitos depois de eles se irem embora, acabando por perdê-los na multidão. O que Ren encontra, contudo, são dois polícias incompetentes, que percebem que está sozinho e vão atrás dele, perdendo-lhe o rasto. O que concluímos é que nem uma criança sabem perseguir. Os serviços postais do Japão (Japan Post) são conhecidos pela sua eficiência. Os serviços policiais? Certamente uma valente merda.

Ren foge dos dois polícias e depara-se com um beco escuro, para o qual vê a sombra do lobo de há bocado entrar. O beco escuro como que o chama, atrai-o. Ren entra no beco escuro. A partir daqui podem existir drogas envolvidas, mas não tenho a certeza disso. O filme torna-se mais estranho a partir daqui, porque, coisa rara que não costuma acontecer nos becos, Ren atravessa-o e vê-se de repente num outro mundo, Jutengai, um reino habitado por animais com forma humana. Porcos bípedes, cabras falantes, o habitual. As semelhanças com o nosso próprio mundo pareceram-me devastadoras, de início. É neste reino que Ren encontra novamente o lobo que o tinha abordado, Kumatetsu, e se torna pupilo dele. Kumatetsu é um guerreiro poderoso, mas com muitos defeitos (semelhantes aos de Ren): é teimoso, rude, e indisciplinado. Apesar de tudo, Kumatetsu é muito forte, e é visto como um dos principais candidatos a ser o próximo Senhor de Jutengai, agora que o atual Senhor decidiu que se iria reformar e tornar um Deus. Já não era sem tempo, mas todos sabemos das penalizações que vêm com as reformas antecipadas. E tornar-se um Deus antes da idade legal? Meu Deus, nem quero pensar sobre o assunto!

O outro principal candidato a ser o próximo senhor de Jutengai é Iozan, um honrado e nobre guerreiro leão que tem o que falta a Kumatetsu: disciplina. Isto observa-se num primeiro combate de rua não-oficial entre os dois, em que Kumatetsu leva uma coça de Iozan. Ren é o único que torce pelo seu mentor, o que me entristeceu um pouco, que tenho sempre gosto em torcer pelo underdog. O foco do filme naquele que não é o mais nobre nem é o mais disciplinado revela-se uma caminhada extraordinária. Nem sempre somos os mais fortes, nobres ou disciplinados, uma verdade que o filme expõe de uma forma um tanto carinhosa em relação a Ren e Kumatetsu.

A relação entre os dois e a forma como evolui ao longo do filme é o que considerei ser o melhor ponto a favor do filme. Cedo no filme Kumatetsu rebatiza Ren, dando-lhe o novo nome de “Kyuuta”, do número 9 (kyuu), a idade de Ren na altura. A sinergia entre Kumatetsu e Kyuuta, sempre a gritar um com o outro pelo seu próprio temperamento, dá origem aos momentos mais engraçados do filme. Por exemplo, quando Kumatetsu começava a correr de uma forma bastante exagerada atrás do seu discípulo por causa da insolência do mesmo, o que, acontecendo algumas vezes no filme, sempre me colocou um sorriso na cara, pelo menos. As competições ao jantar entre os dois para ver quem terminava primeiro de comer as melancias relembraram-me do que acontecia na minha própria casa entre mim e o meu avô quando era pequeno. Contudo, Kyuuta acaba por vencer o seu mentor com o tempo, e eu nunca fui muito bem sucedido nisso. O meu avô ganhava sempre, ainda hoje ganha.

Kyuuta pratica o kamehameha perante a vigilância do seu mentor, Kumatetsu. Cortesia da Mongrel Media.

Como disse, Kumatetsu era um guerreiro forte, mas indisciplinado, por ter tido de aprender tudo sozinho. Ao contrário do seu rival Iozen, Kumatetsu nunca havia sido ensinado por um mentor, e como tal não tinha qualquer método de ensino. Kyuuta é rápido a apontar isso e diz que Kumatetsu não sabe ensinar, irritando-o. Mas o que o filme demonstra é como ambos têm algo a ensinar um ao outro. Kyuuta começa a aprender os movimentos de pés do mentor, o que achei particularmente ternurento, pois é algo típico da relação filho-pai, em que a criança procurar imitar o pai. Kyuuta mostra depois como consegue prever os movimentos de Kumatetsu em combate, e como isso poderá ajudar o grande lutador a melhorar a sua técnica. Até Kyuuta se torna melhor lutador, derrotando os bullies da zona, e, particularmente, Jiroumaru, filho de Iozen. Ao perceberem que realmente ambos têm algo a contribuir para a aprendizagem do outro, iniciam um período de treino de aproximadamente oito anos. Enquanto espetadores apercebemo-nos de que Kyuuta se está a tornar um homem. Cresce em altura, em destreza e em força. O seu pénis possivelmente cresceu também, embora o filme não especifique quantos centímetros, exatamente.

Agora um jovem adulto, Kyuuta arranja forma de voltar ao mundo dos humanos. Tem uma roupa estranha e possivelmente é gozado nas ruas, mas arranja uma amiga, Kaede. Muito como acontece quando tenho uma frequência da faculdade no dia seguinte, Kaede ajuda Kyuuta a recuperar anos de estudo no que parecem horas, atuando como a sua professora. Kyuuta está pronto para ir para a faculdade, aparentemente, mas faltam-lhe os meios financeiros. Aparentemente, unhas de cabra do reino Jutengai não servem para pagar as propinas. Quem diria? Enquanto isso, Kumatetsu cresce em popularidade e formam-se filas de jovens animais à porta da sua casa, que esperam ser treinados pelo guerreiro. Quando o faz, e a todos ao mesmo tempo, Kumatetsu parecia dar uma enorme lição de zumba, mas a ausência de qualquer mãe de 40 anos fez-me voltar à realidade — era um treino de kendo, nada mais.

Ainda no mundo dos humanos, Kyuuta encontra o seu pai, afinal vivo. A mãe continua, estranhamente, sem dar sinais de vida. O pai encontra-se feliz ao encontrar Kyuuta, e pretende recuperar o tempo perdido. Kyuuta acha que tal não é possível e acaba por rejeitar o pai. Depois de rejeitar também Kumatetsu, que ocupara durante tantos anos o lugar de pai, Kyuuta sente um vazio existencial que apenas Kaede consegue curar com sexo. Espera, não é desses filmes. O que Kaede lhe dá é uma pulseira vermelha. Bela merda, Kaede. Bem sabes o que tinhas a fazer.

Dá-se nessa altura o duelo pela sucessão. Kumatetsu versus Iozen. Sem o apoio de Kyuuta, Kumatetsu quase perde, até que o pupilo, que tinha estado a assistir secretamente na multidão, revela ao mentor a sua presença, gritando-lhe numa maneira estranhamente carinhosa mas rude, típica de como os dois gritavam um com o outro enquanto treinavam, ou quando Kumatetsu corria atrás de Kyuuta. Kumatetsu, renovado de forças, acaba por derrotar Iozen, e é declarado o sucessor. É nessa altura que Ichirouhiko, o filho mais velho de Iozen, é revelado como sendo um humano, algo que não surpreende ninguém. A sério, observem a seguinte imagem:

À esquerda, Jiroumaru. À direita, Ichirouhiko. Cortesia da Mongrel Media.

À esquerda, Jiroumaru. À direita, Ichirouhiko. Cortesia da Mongrel Media.
Pois, o que seria ele, um porco? Essa “revelação” não apanhou ninguém de surpresa. Ichirouhiko foi encontrado nas ruas de Tóquio por Iozen, e adotado pelo guerreiro leão. Ao crescer, Ichirouhiko nunca chega a perceber bem o que é. Nunca teve presas, e os únicos pelos que lhe nasceram foram o cabelo e os pelos púbicos, o que é incomum num leão. Quando o pai perde o combate pela sucessão, Ichirouhiko recusa que tal aconteça e utiliza os seus poderes telecinéticos para ferir Kumatetsu, cravando-lhe uma espada pelas costas atravessando a coluna e saindo do outro lado. Vá lá, filme, nem os poderes mágicos dos desenhos animados são capazes de recuperar alguém de uma lesão assim! Uma coisa que vemos evidente nesta altura é o que já havia sido proferido várias vezes durante o filme: todos os humanos possuem as trevas dentro do coração. Alguns humanos devem certamente possuir as trevas noutros sítios. É que eu tenho cá um negrão aqui em baixo.

Tal como Ichirouhiko, também Kyuuta é consumido pelas trevas, embora em parte. Utiliza poderes telecinéticos desconhecidos no personagem até então, quase matando Ichirouhiko com a sua própria espada. Tenho de confessar que nesta parte me senti surpreendido. De uma maneira ou de outra, os eventos até agora tinham sido, de uma forma ou de outra, previsíveis. Não fazia ideia de que Ichirouhiko seria o “vilão”, embora já tivesse obviamente reparado que ele era humano. Nesta parte Ichirouhiko desaparece em trevas para o mundo dos humanos. Kyuuta parte também para lá, onde se dará o combate final.

Já no mundo dos humanos, Kaede mantém-se agarrada a Kyuuta que nem uma carraça. Finalmente queria pila mas não era a altura mais indicada. Ambos são atacados por Ichirouhiko, que, até então em forma e elegante, assume a forma de uma baleia assassina. Não uma orca, mas, literalmente, uma baleia assassina. Quando Ichirouhiko e Kyuuta se confrontam, o último procura absorver a energia do outro através do vácuo dentro de si, com a intenção de sacrificar a sua própria vida.

Kyuuta tem uns problemas de peso pela frente.

Antes que o jovem guerreiro consiga levar a sua a avante, Kumatetsu, agora Senhor do Reino, e embora bastante ferido e fraco, decide renascer ele como Deus, afinal, reencarnando como uma espada para ser “manejada com o coração” por Kyuuta. Kumatetsu aparece no mundo dos humanos e preenche o vazio que Kyuuta sempre sentira, atravessando o buraco no peito que vemos na próxima imagem. Eu não fazia ideia que o que estava a assistir era, afinal de contas, um crossover entre folclore japonês e o Cirque du Soleil, mas a partir deste truque circense considerei-me agarrado. Finalmente Kyuuta se sentia em paz e em condições de derrotar Ichirouhiko, o que prontamente faz, mas sem o matar.

As segundas-feiras doem igual a todos, até mesmo a um jovem guerreiro.

Quando acorda, Ichirouhiko aceita a sua condição. Não é, afinal, um animal. É um humano e aceita isso tal como Kyuuta. Kyuuta, ou Ren, ou lá o raio, volta ao mundo dos humanos, faz as pazes com o pai e entra para a faculdade. Até ele, que não tinha tido escola desde os 9 anos, consegue? Teve uma mentora gira aos 17 e isso chega? Foda-se, que andei eu a fazer a minha vida toda?

A primeira coisa que tenho a dizer é um obrigado à RTP2, porque obviamente nunca tinha visto o filme que escolheu transmitir e acabei por gostar bastante, ou então não estaria para aqui a escrever isto! Seguidamente estão alguns pensamentos meus sobre o filme em si. Obrigado pela leitura!

  • O que mais gostei neste filme foram as interações tantas vezes humorísticas entre Kyuuta e Kumatetsu. Ri um pouco numa cena ou noutra, mas nada de exagerado.
  • Depois de reparar que o Ichirouhiko seria, afinal, o vilão, achei estranho que, até então, essa personagem estivesse quase apagada. Gostaria de ter visto mais um pouco sobre ele.
  • A baleia parece vir quase do nada. Qual o seu significado, afinal? Sinto que isso nunca foi explicado suficientemente bem ao espetador.
Samuel G. Soares

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CEO @ Bits e Bites. Part-timer no Intermarché porque a vida custa a todos.

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