Francês vai passar a ser a terceira língua oficial em Portugal durante o mês de Agosto
Medida será utilizada para fazer com que os emigrantes portugueses se sintam como se estivessem em casa

Entra Agosto, é verão, tempo de férias, e todos sabemos o que isso significa. Pelos supermercados, cafés e provavelmente todo o lado ouve-se sempre a mesma merda. Ça va? Ça va bien? Non, ça ne vas pas, na verdade, caralho! No Intermarché já tenho notado que a clientela a falar francês está cada vez mais numerosa. Cada vez mais são as pessoas que estupidamente me perguntam se podem pagar com “a carta”. Mas que merda é essa, “a carta”? Não se pode pagar com “a carta”, se bem que alguns velhotes levem envelopes onde têm guardadas as notas. Outros levam sacos de plástico com moedas e notas. Ainda não me deparei com um método de armazenamento de valor monetário mais rudimentar que esse, mas talvez alguém me tente pagar em conchas um dia.
“E que merda é que eu faço agora com esta carta, hum?” — eu, a atender, provavelmente.
Depois de me deparar com a situação da carta sucessivas vezes, procurei perceber porque é que as pessoas cometem esse erro tão frequentemente. As pessoas referem-se ao cartão de débito ou de crédito com o qual procuram fazer o pagamento. Uma breve pesquisa no Google Tradutor indica-nos que, efetivamente, a tradução de cartão para o francês é carte. Cartão de crédito será carte de crédit. Tudo bem até aqui. Carte em francês tem vários significados, podendo ser utilizada para nos referirmos ao pedaço normalmente retangular de cartão ou plástico com os mais variados usos, a uma carta de jogar ou um mapa, entre outros, possivelmente. A palavra não tem, contudo, ligação com o que nós portugueses chamamos de carta, uma vez que a carta que se envia no correio para o francês será a lettre. Resta então saber porque é que fazem a transposição de carte, cartão, para carta, lettre. O atrito linguístico deve ser o culpado. Muito diferente do atrito do asfalto, que acaricia suavemente o teu joelho quando cais, o atrito linguístico refere-se ao fenómeno de perda parcial ou total de uma primeira língua, devido a isolamento em relação a falantes dessa mesma língua, bem como aquisição e uso constante de uma segunda língua. Bem, está explicado. Já não é preciso criticar os emigrantes portugueses quando falam só francês (ou outra língua) entre si. Talvez já não tenham o vocabulário, sei lá. Daí, “a carta”.
De um ponto de vista do negócio, esta medida é ótima. A chegada dos emigrantes faz ferver com vida o turismo e o comércio. 3 em cada 4 clientes que atendo devem falar francês (é um exagero). Se temos três vezes mais clientes a falar francês, curiosamente estes geralmente também gastam três vezes mais que os portugueses. Talvez porque ganhem três vezes mais? Posto isto, não se pode dizer que o negócio corre mal. As vendas de baguetes estão quase tão altas como uma baguete empunhada na vertical. Compra-se o vinho do Porto Lágrima porque a saudade é uma coisa tão nossa e nem os emigrantes se escapam dela quando vão lá para a França.
Posto tudo isto, não falo francês. Safo-me com o inglês, certamente, mas, no que toca ao francês, por enquanto restrinjo-me ao modesto merci provavelmente mal pronunciado no final da conta. Quatrevingt o quê? Ugh, os números em francês são tão complicados!
