A Busca do “Hexa” por quem insiste em ser “Penta”

Seleção Brasileira falha mais uma vez na busca pelo Hexacampeonato repetindo conceitos de 8, 12, 16 anos atrás.

Primeiro de Julho de 2006, Commerzbank-Arena, Frankfurt, Alemanha. França 1–0 Brasil, por uma das quartas de final da Copa do Mundo de 2006. Estava encerrada a primeira chance do sonho do Hexa pela seleção que chegava como a atual campeã, cheia de favoritismo, recheada de medalhões e nomes consagrados. Ronaldo “Fenômeno”, Ronaldinho Gaúcho (na época detentor do título de melhor jogador do mundo), Kaká, Adriano “Imperador”, Cafú, Lúcio, Roberto Carlos e Robinho (jovem estrela em ascensão) não foram páreos para uma seleção Francesa muito bem organizada e com o extraclasse Zinedine Zidane brincando de jogar futebol naquela noite.

Após o fim do jogo os erros óbvios começaram a serem apontados. Os principais deles a preparação as vésperas da Copa e a visível falta de condicionamento físico dos atletas. Em Weggis, na Suíça, a preparação para a Copa do Mundo, contando com histeria de torcedores em muitos treinamentos (incluindo até invasões de campo como na famosa imagem de uma torcedora rolando pelo gramado com Ronaldinho Gaúcho) parece ter tirado a concentração de uma seleção sem gana. Dentro de campo, o condicionamento físico foi determinante, com Ronaldo visivelmente fora de forma, e jogadores como Roberto Carlos e Cafú dando já os sinais da idade avançada para uma competição tão exigente.

No aspecto tático uma seleção desequilibrada: Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo formavam um time unido mais pela qualidade técnica e nome atrás das costas do que por um sistema eficiente de jogo. Sobravam jogadores para finalizar e criar jogadas (já na parte final do campo de ataque), faltavam jogadores para ter uma saída de bola qualificada e fazer uma boa transição entre defesa e ataque. Os responsáveis pela transição, Gilberto Silva, especialista somente em marcação e Zé Roberto, excelente passador, estavam sempre sobrecarregados no sistema defensivo já que os craques do quadrado mágico pouco acrescentavam no aspecto defensivo. O técnico Carlos Alberto Parreira, sempre conhecido por ser mais parceiro dos seus comandados do que por ser um disciplinador ou estrategista não teve a capacidade de enxergar as falhas do sistema de jogo e muito menos coragem de colocar um dos integrantes do quarteto mágico no banco. O resultado foi um time ENGOLIDO por uma seleção mais organizada e com Zinedine Zidane fazendo uma das apresentações individuais mais brilhantes que já tivemos a oportunidade de acompanhar na história das Copas.

Zidane despachou o quadrado mágico em 2006.

Fim de Copa, Itália campeã, com uma defesa forte, meio campo com boa saída de bola e ataque eficiente, era hora da reformulação total na seleção brasileira. A bagunça de Weggis e clima descontraído na Alemanha dava lugar ao militarismo do recém promovido técnico profissional Dunga. O nome escolhido era unicamente ligado a imagem de seriedade e profissionalismo, já que ele não tinha nenhum trabalho prévio como técnico de futebol.

O militarismo de Dunga não se restringia somente a disciplina de seus jogadores, o maior reflexo do sisudo treinador era no seu trato com a imprensa. Dunga apesar do tratamento igualitário, para desespero da Rede Globo sempre acostumada a ter privilégios no acesso a Seleção, criava um ambiente de contra tudo e contra todos, não aceitava críticas, encarava-as como pessoais e blindava seus atletas da imprensa. O ápice do clima de tensão ocorreu durante entrevista coletiva após um jogo da Copa na África do Sul, em que xingou publicamente um jornalista da Rede Globo.

Durante seu ciclo de 4 anos de seleção Dunga promoveu um futebol eficiente, com defesa fortíssima, transição rápida entre defesa-ataque, excelente contragolpe e ataque cirúrgico. A seleção nunca praticou um futebol encantador, mas jogou muito bem em alguns momentos como na fase final das eliminatórias e na Copa das Confederações de 2009. Dunga chegava a Copa do Mundo em 2010 provando a eficiência de seu time com resultados práticos, como aproveitamento excelente nos jogos disputados, classificação com recorde de antecedência a Copa e títulos da Copa América em 2007 e Copa das Confederações em 2009. As únicas falhas da caminhada até a Copa foram o percalço na busca do Ouro Olímpico em 2008, que contou com Ronaldinho Gaúcho dando aula de profissionalismo atendendo celular durante o recebimento da medalha de bronze, (foi o fim da linha para o craque que nunca contou com a boa vontade do técnico gaúcho) e a dificuldade de criação de jogo contra seleções de menor expressão.

A dificuldade de criação contra times de menor expressão, que naturalmente jogavam de forma mais fechada, era dada por um meio-campo brasileiro sem grandes criadores e organizadores de jogo. A seleção de 2010 contava com jogadores como Felipe Melo, Gilberto Silva, Elano, Josué, Kléberson e Ramires, atletas que se notabilizavam ou pelo forte poder de marcação, ou pela velocidade em conduzir a bola. O jogador de maior qualidade no passe para uma boa saída de bola era Elano, que se machucou no segundo jogo da seleção na África do Sul contra a Costa do Marfim. No jogo de eliminação contra a Holanda, mais uma vez nas quartas de final, o Brasil perdeu de 2–1, de virada, após um bom primeiro tempo e pane mental no segundo. Uma vez que tomou o empate a seleção se desestabilizou emocionalmente, tomou a virada, Felipe Melo perdeu a cabeça, foi expulso e o Brasil não conseguiu criar mais nada ofensivamente durante o jogo, restaram o domínio holandês no meio de campo e tentativas desesperadas da seleção brasileira para empatar a partida.

A Copa de 2010 chegava ao fim, com a Espanha, dando uma aula ao mundo de como se ganhava no novo futebol: Qualidade de passes na saída de jogo, troca de passes para buscar espaços e movimentação constante dos jogadores. Esse estilo de jogo era baseado no Barcelona de Pep Guardiola, que dominava a Europa em 2009, mas a qualidade na saída de bola já estava presente em clubes como Arsenal, Chelsea, Milan, e Manchester United que dominavam a Champions League no quadriênio 2006–2010. Se o jogo praticado pelos clubes europeus não interessava como modelo à seleção Brasileira pelo menos um título inédito de Copa do mundo da seleção Espanhola deveria chamar a atenção. Não chamou.

A preparação para a Copa de 2014 começou com a demissão do técnico Dunga, contratação de Mano Menezes e volta as pazes com a TV Globo. Mano Menezes, escolhido como técnico pelo então presidente da CBF Ricardo Teixeira não encantou ninguém durante seu trabalho: O time jogava mal, tinha as mesmas dificuldades para propor jogo contra seleções menores e colecionava fracassos, como a eliminação na Copa América 2011 e a perda de mais Olímpiada em 2012. No fim de 2012 Mano foi demitido e deu lugar a Luiz Felipe Scolari, que vinha de maus trabalhos e foi escolhido pela mística de ser o técnico do Penta.

Felipão teria um ano e meio para preparar a seleção para a Copa de 2014. Fez um trabalho com relativo êxito, vencendo uma Copa das Confederações em 2013 contra a favorita (e relaxada) Espanha (atual campeã Mundial e Bicampeã Europeia) em pleno Maracanã. A empolgação do torcedor brasileiro estava de volta, mesmo com a forma de jogo lembrando muito á praticada pelo técnico Dunga, com defesa forte, transição rápida entre defesa e ataque.

O meio campo a frente da zaga tinha opções como Ramires, Paulinho, Luiz Gustavo ou Fernandinho, nenhum dos 4 com o bom passe como característica principal, jogadores ou com boa marcação ou com velocidade para carregar a bola na saída de jogo. Enquanto o Brasil contra-atacava, ótimo, a bola chegava facilmente até Neymar e Fred e os gols vinham naturalmente (principalmente em função da seleção sempre achar gols no começo das partidas), quando tinha que propor o jogo era sempre a velha dificuldade.

A seleção chegou a Copa de 2014 com o mesmo futebol que jogava em 2010, e sem jogadores no banco que fossem capazes de mudar o estilo de jogo da seleção se fosse preciso. Lições da Espanha campeã de 2010? Nenhuma, a vitória no ano anterior fez quase toda a crônica esportiva achar que o Brasil estava no topo novamente. A comissão técnica de Felipão e Parreira já garganteava às vésperas da copa que a CBF era “o Brasil que deu certo”, e outras bobagens mais, como se o título fosse mera formalidade.

A preparação em Teresópolis contou com David Brazil, helicópteros do Luciano Huck em campo, bajulação em redes sociais e muito oba-oba da mídia. Até que chegaram as semifinais contra a Alemanha, jogando sem Neymar e Thiago Silva, com um meio de campo sem qualquer capacidade de reter a bola, o Brasil foi desarmado, dominado e atropelado por uma seleção alemã que contava com a qualidade de passe espanhol e a velocidade de transição ofensiva que o Brasil tinha em 2013. Um time tantas vezes mais completo no estilo de jogo que só o placar poderia refletir melhor tamanha diferença: 7x1. Em uma copa, em casa, na maior goleada da história das Copas de uma seleção europeia contra uma seleção sul-americana. Vergonha recorde e completa. Só restou o apoio psicológico da Dona Lúcia.

Não faltou bola na rede.

A seleção brasileira havia passado por clima de Zona em 2006, militarismo em 2010 e zona em 2014. O que iriam fazer para 2018? Mais uma vez apostaram no militarismo, do mesmo Dunga. Dessa vez os bons resultados deram lugar aos fracassos retumbantes; eliminações em duas Copa América, risco de não classificação para a Copa do mundo de 2018 aliados ao futebol horrível culminaram com a demissão de Dunga e a chegada de Tite. Finalmente a seleção brasileira tinha um técnico competente e bem preparado, escolha unânime entre especialistas, jornalistas e torcedores. Uma arrancada histórica fez a seleção escalar as posições nas eliminatórias e classificar de forma antecipada.

Uma sequência de vitórias tão impressionante que o técnico começou a ser tratado como uma espécie de deus por grande parte da imprensa. Pouco questionamento em suas escolhas, apoio incondicional da mídia, relação de mais amizade com a imprensa do que profissionalismo e o sempre otimismo da torcida criaram o clima de “trazer o hexa”. O sucesso do Brasil de Tite? Uma defesa forte, um meio campo com velo… é a terceira vez que escrevo sobre o sucesso do Brasil pré-copa e sempre é da mesma forma: Defesa forte, transição rápida e bom contra-ataque. É verdade que a seleção de Tite tem MUITO MAIS qualidade e organização, trabalha melhor os jogadores na parte final do ataque, há movimentações constantes entre os quatro jogadores de frente, mas a saída de bola apresenta as mesmas deficiências de 2010 e 2014. Não há qualidade em passes, como nas principais seleções e times do mundo, Paulinho segue sendo velocista, Casemiro e Fernandinho bons marcadores e passadores medianos. Se a principal revolução na forma de jogar futebol em 8 anos se dá no meio campo e o Brasil repete a mesma dinâmica da Copa de 2010 porque em 2018 os resultados seriam diferentes?

Seis de Julho de 2018, Bélgica 2–1 Brasil. A camisa pesada, os 5 títulos, a falta de tradição do adversário, nada foram suficientes para torcedores e imprensa manterem viva a esperança do “Hexa”. A chacoteada “ótima geração belga” mostrou que é ótima mesmo: Nos primeiros 45 minutos dominou o Brasil, especialmente no meio campo (surpreendente, não?) com partidas desastrosas de Paulinho e Fernandinho; Nos 45 minutos finais soube resistir com atuação decisiva do goleiro Courtois. Para a seleção brasileira restou mais uma eliminação, reclamações com a arbitragem e descontrole emocional na adversidade (após os tinha a impressão que a qualquer hora viria um chocolate belga).

Em 2022 o Hexa pode até vir se o trabalho de Tite for mantido, ninguém ganha uma Copa de uma hora pra outra, se era assim no passado, no presente já não cabe. É preciso preparação, trabalho a longo prazo e enxergar a evolução que o futebol tem dado nos últimos anos. Se soltar das amarras das convicções pessoais do treinador, ter preparo psicológico para saber reagir nas situações adversas (a última vez que o Brasil se viu atrás do placar em uma copa do mundo em jogo de caráter eliminatório e conseguiu a virada foi em 2002!) e esquecer de qualquer tipo de mística. Os sinais da importância na saída de bola já são dados há pelo menos 10 anos, se a seleção insistir no conceito de marcação e velocidade são grandes as chances dos torcedores brasileiros que adoram gritar “AQUI É PENTAAAAAAA!!!!” continuarem a gritar isso pelos próximos 8 anos.