O jogo dos sete erros de José Mourinho

José Mourinho não gostou desse post

O momento talvez não seja o mais oportuno (dirão que é oportunista, não lhes tiro a razão), enquanto escrevo o texto acabo de rever mais uma derrota do bagunçado Chelsea de José Mourinho, versão 2015/2016, desta vez diante do Liverpool, 3–1 em pleno Stamford Bridge, de virada e com tratado não escrito que o time de Merseyside só poderia marcar belos gols. Adiei o texto por mais de um mês, talvez por procrastinação, confesso, talvez por dar mais uma chance a quem tanto se entregou aos Blues, todavia chegou a hora de falar do que não mais se pode ignorar, o elefante está sentado no meio da sala, ele é português, e dono de um ego maior do que o mamífero de grandes orelhas e presas de marfim, seu nome é José Mourinho, autoproclamado como “Special One”.

Tentando não cair na vala comum das criticas imediatistas calcadas nas recentes derrotas, optei por descrever em ordem cronológica os erros do treinador português em sua segunda passagem pelo time londrino.

José Mourinho voltou ao Chelsea para atuar na temporada 2013/2014 e retomar sua história vencedora no clube; o treinador vinha de um trabalho conturbado no Real Madrid, com intrigas nos vestiários do Santiago Bernabéu e desgaste insuportável com o elenco, diretoria, e imprensa, já o Chelsea vinha de erros atrás de erros em seu comando técnico, havia feito uma temporada apenas razoável em 2012/2013, mas trazia consigo um elenco com boas peças (Mata, Hazard, os veteranos Lampard, Cech e Terry) além de uma vaga na Champions League. Os Blues queriam sua volta, para José o clube era a melhor opção disponível e assim se deu a reconciliação do casamento perfeito.

Todos que acompanham os trabalhos do português sabem que seus times rendem mais nas temporadas seguintes do que na temporada de estreia, natural, leva-se tempo pra construir um trabalho. A temporada começou muito promissora, o time jogou bem nos meses iniciais, como sempre ocorre com o Chelsea da era Abramovich, mas logo surgiram informações de conflito interno com o zagueiro David Luiz e com o meia Juan Mata. O brasileiro resistiu até o final da temporada, já o espanhol foi cobrado pouco a pouco, preterido por Oscar no meio campo perdeu espaço no elenco e foi vendido para o Manchester United por um caminhão de dinheiro. Lembro que muitos comemoraram, “Mourinho” tinha vendido um jogador que não estava rendendo bem em uma das maiores transações do futebol inglês. Eu fiquei decepcionado. Mourinho em seis meses de clube havia queimado o melhor jogador da temporada anterior, eleito inclusive pela torcida e jogadores do clube a tal posto. Erro 1.

A temporada continuava próspera, apesar de quedas nas copas nacionais o time seguia vivo na Champions League e disputava a liderança da Premier League contra Liverpool e Manchester City. Até que veio o confronto da semifinal contra o Atlético Madrid… O time de Simeone fazia o primeiro jogo em casa e decidia em Londres. Na partida do Vicente Calderón Mourinho abdicou totalmente de atacar, segurou o empate em 0–0 e foi destroçado em criticas pela postura de seu time. Particularmente não achei nada demais, parto do principio que cada um joga com as armas que tem, quer eu ou você goste ou não, se elas não infringirem as regras o choro é livre. No confronto decisivo em Londres Mourinho precisava provar que sua estratégia era válida e que o empate era o suficiente. Não foi, perdeu por 3–1. O time foi eliminado e não conseguiu tirar proveito da estratégia que resolveu adotar. Mourinho errou? Sim, errar é humano, esse não vai totalmente na conta, um time perde e ganha junto.

Na Premier League o time tropeçou nas próprias pernas, similar ao que faria Steven Gerrard do outro postulante ao título, Liverpool, na semana seguinte diante do próprio Chelsea, perdeu pontos estúpidos (inclusive com a 1ª derrota de Mourinho em Stamford Bridge na Premier League) e acabou com a terceira colocação e uma vaga na UCL seguinte. Novamente erros que não podem ser computados somente ao “Special One”.

A temporada 2014/2015 começou com mais um erro, José pecou no mínimo por omissão. Frank Lampard, maior artilheiro da história do clube e um dos pilares centrais da época vitoriosa da era Abrahmovic não teve seu contrato renovado, houve boatos de atrito com Mourinho, e apenas lamentações do português após a saída de Super Frank. Esforço pra manter o ídolo no clube? O mínimo possível. Erro 3. Postura mantida na saída de Kevin DeBruyne, que confessou ao treinador não estar preparado pra disputar posição na Premier League, um investimento promissor, jovem e que Mourinho não fez questão de segurar ou dar a confiança necessária. Erro 4.

A temporada começou, o renovado Chelsea de Diego Costa, Thibaut Courtois (barrando Petr Cech) Cesc Fàbregas e Nemanja Matic apresentava bom futebol, com movimentação, passes, muitas assistências e gols além de uma defesa compacta até meados de dezembro. Depois disso o time entrou em sua habitual queda, virou um time estático e ganhou muitos pontos na individualidade de Hazard. Paralelo a isso ocorreram erros de arbitragem contra os Blues, coisa normal no futebol, mas que José Mourinho fez questão de rotular como perseguição e campanha contra o Chelsea, algo patético, mas não inovador na sua carreira em que sempre adotou a postura “Nós contra eles” em relação à arbitragem, mídia e contra a sombra que se projeta em uma parede. Iniciou um clima bélico em tempo recorde, superando seus tempos de Madrid. Erro 5.

Vieram as oitavas de final da Champions League, o adversário era o PSG, o Chelsea já tinha um ataque muito mais poderoso quando comparado ao ano anterior. Nada disso foi suficiente pra mudar a postura adotada um ano antes contra o Atlético Madrid. Se burrice não é errar e sim repetir os mesmos métodos esperando resultados diferentes dá pra saber a razão de nova eliminação em pleno Stamford Bridge. Erro 6.

José garantiu seu emprego e bom trabalho na temporada com o título da Premier League (conquistada muito pelo ótimo início de temporada) e com a conquista da Capital One Cup diante do rival Tottenham. Mas algo não estava bem, a queda no futebol era clara e alguma coisa precisava ser feita para que o começo da temporada seguinte não fosse como a fase estática e sem brilho que o clube encerrou a temporada.

Na off season Didier Drogba saiu (esse sem problemas, já não podia mais contribuir no nível da Premier League) e Petr Cech pediu pra dar continuidade na carreira em outros ventos, já que foi preterido pelo jovem, excelente e ainda falho Courtois. O problema é que os ventos escolhidos foram do norte de Londres, mais precisamente o Arsenal, rival londrino. Mourinho novamente contemplou a situação. Erro 7.

E então chegamos ao momento em que estamos, o Chelsea apresenta futebol pífio, Ivanovic, Cesc Fàbregas, Diego Costa e Nemanja Matic fazem uma temporada horrível, o sistema defensivo desmoronou, talvez extenuado devido à temporada anterior, e o ataque segue com o mesmo padrão estático que terminou 2014/2015.

Mourinho sente-se ameaçado com os maus resultados, cada vez mais e mais fala na imprensa o que não consegue justificar em campo, seu time não tem padrão, continua com sua síndrome de perseguição de árbitros e imprensa e vê o atual campeão naufragar rumo a Championship. O grande problema se passa no sistema defensivo, antes coeso dava respaldo para o ataque se virar como podia, agora nem isso resta, é quase matemática a razão de tantas derrotas de um time que nunca marcou muitos gols.

Diante da iminente demissão o português não cansa de bradar ser especial, o melhor treinador possível para o Chelsea e o maior da história do clube. Busca no passado glórias que justifiquem sua permanência. Se os problemas do Chelsea estão longe de serem exclusividade lusitana, tampouco as soluções estão nas mãos e caderno do treinador que virou um rascunho de si mesmo e que cada vez faz de si um personagem mais chato e um profissional inflexível. Com um elenco desgastado, e sem alternativas (só nas duas últimas temporadas o Chelsea viu partir Lukaku, Mata e Kevin DeBruyne, peças que formariam um dos melhores ataques do mundo, obrigado Mourinho) o Chelsea precisa descartar o quanto antes os produtos da geladeira que já passaram da validade, um deles é importado via Setúbal.