Para começar

Samita Barbosa

Foto: Samita Barbosa

Se fosse escolher como eu gostaria de escrever, ou melhor, se eu pudesse criar uma receita de como eu gostaria de escrever, meus principais ingredientes seriam: imaginação de uma criança, pois as histórias mais mirabolantes saem dessas cabecinhas; um olhar detalhista sobre pequenos acontecimentos — aqueles que se a gente souber descrever minunciosamente (ao estilo de Machado de Assis) viram grandes histórias; boa memória; e claro, o dom poético de combinar as palavras como se elas dançassem num mesmo ritmo.

Nunca estou pronta para escrever, nem seguindo uma receita. Escrever é um receio, sempre. Expor em palavras os sentimentos e opiniões é como soprar uma bolha de sabão: você a vê linda, planando e refletindo o céu, mas a qualquer momento um vento forte sopra e a desmancha no ar. Esse vento são as críticas, que muitas vezes me fazem recomeçar a aprender a escrever de novo.

O estilo é uma fuga para que você possa ter mais liberdade em escrever um texto original. Toda técnica jornalística enrijecida com os padrões de um lide torna a notícia e a reportagem frias sem fazer com que os leitores se apaixonem pelo texto. Mas isso é assim mesmo o informativo é informativo e vem moldado em uma forma padrão.

Já o opinativo é a arte, onde você pode usar as palavras para lapidar um acontecimento, com aquele toque que o aproxima do leitor, você fica à vontade para escrever e isso se reflete na percepção do leitor. A boa descrição dos fatos é o que deixa o texto mais fluido. Quando leio algo bem escrito, como Clarice Lispector ou Cora Coralina, sinto que fiz parte do que elas descreveram em suas obras. Ou até mesmo Mário de Andrade que usa uma linguagem mais coloquial.