O olhar infantil em Bom dia Camaradas de Ondjaki

Ndalu de Almeida nasceu dois anos depois de uma Proclamação da República de Angola, em Luanda. Essa informação explica bastante a escolha do nome popular de Ndalu, Ondjaki, já que, em umbundu, uma das línguas mais faladas em Angola, Ondjaki significa "guerreiro" ou "que enfrenta desafios".

Bom dia Camarada é o primeiro romance ficcional de Ondjaki, trata-se de uma história sobre uma infância, mas ela é tão viva, que acabamos nos questionando se não são palavras que tentam descrever de maneira realista a sua própria infância, assumindo assim um Caráter um tanto memorialista.

Assim ele fala:

“Tudo isto contado pela voz da criança que fui; […] esta estória ficcionada, sendo também parte da minha história, devolveu-me memórias carinhosas. Permitiu-me fixar, em livro, um mundo que é já passado. Um mundo que me aconteceu e que, hoje, é um sonho saboroso de lembrar” (ONDJAKI, 2006, 2ª capa)

Seu texto traz alguns fatos reais de angola, que enfrentou uma violenta guerra civil desde a sua independência. Porém, não chega a ser um texto documental, teórico ou coisa parecida, mas sim, uma tentativa de relatar tais fatos — e não apenas eles — através do olhar de um menino, que não tem nome, mas poderia ser muito bem o do próprio autor.

Com uma visão infantil e de classe média, o menino narra vários pequenos acontecimentos aparentemente comuns do seu cotidiano, desde as conversas com seus amigos, as conversas com o camarada Antônio, os lanches na casa dos colegas, os passeios e conversas com sua tia e acontecimentos na escola. E é o simples fato de serem acontecimentos simples e corriqueiros, descritos a partir do olhar de uma criança que Ondjaki consegue nos envolver em seu livro, então, juntamente há um lirismo excepcional, nos traz uma série de outras maneiras de se ver coisas que nos passam despercebidas ou que estamos tão acostumados que não vemos a magia que se encontra naquele local ou ser.

Assim, ele transmite pérolas como:

* “No jardim havia umas lesmas que deviam ser mais velhas porque sempre acordavam cedo”

*“O abacateiro está a espreguiçar-se”

*“Tu sabes porque os mosquitos picam tanto? Por que têm sede! E sabes porquê que têm sede? Porque, como deves saber, os mosquitos nascem nos charcos de água, então como eles nascem na água, quando estão a voar lembram-se sempre de casa, quer dizer, dessa primeira casa, a Água… Então eles mordem-nos à procura de água…”

Mas, ao contrário que possamos imaginar a infância desse menino não está desatada de tramas políticas e históricas que Angola vivenciava na época da Guerra Civil, e Ondjaki não deixa isso passar, de maneira sutil, natural e simples, como um olhar de menino, descrevendo assim, fatos como a falta de água e luz, o controle dos alimentos, os desenhos das armas e as redações sobre a guerra (pois todos os seus colegas de classe já tiveram contato com uma Ak-47 ou pistolas) e os professores cubanos (que trazem os olhares do estrangeiros, do proletariado, da visão socialista e da busca pela liberdade)

Em um contexto pós-colonial e de Guerra Civil, uma frase se torna marcante em seu texto, frase essa que define lindamente a palavra esperança — que cerca os contornos do livro:

"A água é que trazendo todo aquele cheiro que a terra cheira depois de chover, a água é que faz crescer novas coisas na terra, também alimente como raízes dela, a água faz 'eclodir um novo ciclo'"

Por último deixo um trecho que me emocionou muito, tamanha profundidade que o autor emprega, tamanho lirismo colocado em palavras, tamanha percepção de um menino:

“ — Estás triste? — A Romina perguntou, enquanto íamos começar a atravessa a avenida.

— Não…

— Mas tás com uma cara… — ela, meiga.

— Eu não gosto de despedidas, sabes… Hoje estávamos ali no Largo 1º de Maio e depois do comício comecei a pensar nisso…

— A pensar em quê?

— Que as coisas sempre acabam, Ró.

— Mas tás a falar de quê?

— De tudo… Por exemplo aquela alegria, aquela gritaria ali com o hino e as palavras de ordem, tudo isso acaba, né, as pessoas vão para casa, separam-se…

— Não fiques assim.

— Não… não é isso… Vês, agora temos mais algum tempo de aulas, depois já são as frequências finais, depois as pessoas vão de férias, depois há pessoas que não voltam, mudam de turma, é sempre assim, Ró, as pessoas acabam por se separar…

— Tás assim por causa do Bruno? — ela afinal sabia.

— Tu já sabias que ele vai embora pra Portugal?

— Sim… Mas é por causa disso que tás triste?

— Não é só isso, Ró, isso é só o começo… Todos os anos saem pessoas das turmas, é normal, mas eu não consigo me habituar…

— Eu sei como é isso, quando vamos de férias eu também sinto um mambo assim esquisito…

— É…, uma pessoa passa o ano todo a refilar com os professores, a querer férias, mas depois as férias é que mudam as pessoas, outros já não voltam ,as brincadeiras nunca mais são as mesmas, e o pior não é isso, Ró…

— é o quê? — ela, meiga.

— Quando mudarmos mesmo de escola, mais tarde, ou quando acabamos a décima primeira, aí nunca mais vamos nos ver, nunca mais vamos ver os nossos colegas…

— Mas há sempre outros colegas.

— Não, Romina, não existem ‘outros’ colegas… Tu sabes muito bem quê que eu estou a falar. Esta turma, mesmo saindo e entrando pessoas, esta turma é a ‘nossa’ turma, tu sabes de quem eu estou a falar… E essa turma está a acabar, não sentes isso? — eu não queria olhar para os olhos dela, tinha medo.

— Estás triste? — ela, sem saber se me abraçava.

— Não sei… Sabes, quando as despedidas começam nunca mais param, nunca mais param…

— Mas tás a falar de quê?

— De nada, de nada… Sabes o que minha avó diz, Ró?

— Não… O quê que ela diz?

— Que quando vivemos os melhores tempos da nossa vida, nós nunca nos apercebemos… — aí olhei para ela. — Mas eu acho que não é bem assim…

— Então?

— Eu sei perfeitamente que estes são os melhores tempos da nossa vida, Romina… Estas correrias, estas conversas que nós temos aqui no pátio, mesmo cada um a aumentar assim a versão dele — aí eu sorri.

— Mas sempre vão acontecer mais coisa, né? — ela olhou para o relógio.

— Sim, claro, vão acontecer outras coisas… — olhei para ela.

— Mas estás triste? Hum?

— Um bocadinho, Ró, um bocadinho…”

Asè!

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