Sankofa

“Mojubá!
“Só um verdadeiro conhecimento do passado é passível de manter na consciência o sentimento de uma continuidade histórica, indispensável para a consolidação de um estado multi-nacional. […] Não é indiferente para um povo entregar-se a uma investigação desta natureza, a um tal reconhecimento de si próprio; isto porque, ao proceder desta forma, o povo em causa apercebe-se daquilo que é sólido e válido nas suas próprias estruturas culturais e sociais, no seu pensamento em geral; para além disso, dá conta daquilo que existe de frágil nestes últimos, e que por conseguinte não resistiu ao tempo. Aquele descobre a amplitude real dos seus empréstimos, pode agora definir-se de modo positivo partindo de critérios endógenos não imaginados, mas reais. Possui uma nova consciência dos seus valores e pode agora definir a sua missão cultural, não de modo entusiástico, mas de maneira objetiva; porque apreende melhor os valores culturais que está mais apto, tendo em conta o seu estado de evolução, a desenvolver e a proporcionar aos outros povos.” (Cheikh Anta Diop — A unidade Cultural da África Negra: Esferas do Patriarcado e do Matriarcado na Antiguidade Clássica).
Nem sei o que escrever depois de ler esse trecho, que consta em um livro que havia épocas que queria ler e só agora obtive contato direto. São palavras de um dos maiores intelectuais negros que já tive contato; palavras que conseguem dar conta de parte da minha maneira de agir, falar, ouvir, ler e ser.
Frases como:
“Se o povo negro conhecesse seu passado glorioso, estaria mais inclinado a respeitar-se”. (Marcus Garvey),
“Sua história foi ocultada, aprenda sobre ela”,
“Não existe empoderamento sem conhecimento, estude suas raízes”
“Por mais fortes que se tornem os galhos, quem sustenta o tronco é a raiz… Conheça, Valorize e Respeite suas origens e sua ancestralidade.”;
entre várias outras frases, que leio, escuto e ando falando, me norteiam ao encontro da minha ancestralidade, da minha espiritualidade e da minha humanidade.
Preciso delas, porque algo me foi tirado a força, pelo contado com o/a Branco/a europeu, pelo colonialismo, pelo escravismo, pelo neo-colonialismo, pelo racismo (em suas várias e imensas vertentes), pela tentativa de destruição de minhas raízes, causando vários colapsos em seus descendentes.
Isso me é tirado a força a cada momento que passo em minha universidade, realizando leituras que não dizem nada sobre o meu ser, a cada momento que ligo a televisão, a cada momento que assisto um filme, a cada momento que leio algo, a cada momento que me relaciono com certas pessoas, que zombam da minha aparência, que me olham de cima para baixo, que me excluem nas suas rodas de conversas, que possuem como ideal (consciente e inconscientemente) de corpos o arquétipo de pessoas feomelaninadas.
Para lutar contra e me livrar de todas essas opressão recaídas sobre um “Ser Africano” que massacra e deturpa meu Ori, minha mente, meu corpo e meu axé, as vezes, ouço as frases ditas a cima, e danço, canto, sinto e re-sinto essa música em seguida:
“Aganju, Xangô
Alapalá, Alapalá, Alapalá
Xangô, Aganju
O filho perguntou pro pai:
“Onde é que tá o meu avô
O meu avô, onde é que tá?”
O pai perguntou pro avô:
“Onde é que tá meu bisavô
Meu bisavô, onde é que tá?”
Avô perguntou “ô bisavô,
Onde é que tá tataravô
Tataravô, onde é que tá?”
Tataravô, bisavô, avô
Pai Xangô, Aganju
Viva egum, babá Alapalá!
Aganju, Xangô
Alapalá, Alapalá, Alapalá
Xangô, Aganju” (Gilberto Gil)
Essa música me deixa em transe, me faz viajar ao passado. Por que sou filho dele, descendo dele, minha ancestralidade está ligada diretamente com sua força.
É preciso, para nós, filhas e filhos da diáspora, Africanas e Africanos, reconhecermos as nossas raízes, nos reconectarmos junto a elas, para assim nos identificarmos, nos colocarmos no mundo, contarmos as nossas histórias, nos colocarmos enquanto agentes desse mundo de desagência para a população africana.
É preciso que nos ajudemos e nos curemos; Aqueles que já estão nesse caminho que se coloque numa relação de Ubuntu com a sua malunga e o seu malungo. Que distribuamos livros, que distribuamos palavras, que distribuamos cantos, respeitos e segredos. Que aprendamos juntos.
Esse é o meu caminho, que eu trilho e traço a cada dia que coloco meu pé no chão. A cada dia que piso em um terreiro, que sinto o axé, dos orixás e dos guias, o axé das plantas, da água, do fogo que traça das velas, dos pés no chão, das palavras oradas, dos sons dos tambores ecoados e das palmas batendo. A cada dia que leio um livro de uma africana ou africano, a cada dia que escuto uma música destas e destes, a cada dia que ouço uma ou um Griot falar.
Escrevo esse texto para agradecer a minha mãe, para agradecer ao meu pai, para agradecer as minhas avós, para agradecer aos meus avôs, para agradecer as minhas bisavós, para agradecer aos meus bisavôs, para agradecer as minhas tataravós, para agradecer aos meus tataravôs. Para agradecer a Xangô.
Sem antepassado eu não Sou.
Motumbá e Axé!