Abstinência.

Ando dopado. Como Trainspotting — o primeiro, não o segundo, não consegui assistir quinze minutos da forçação de barra que me pareceu o segundo. Sou Renton, saído da heroína, descobrindo que existe vida sem tantas cores, vivendo os seus dias — porque os dias ainda existem, mesmo que dessaturados.
Os dias vão, as emoções passam, você não corre mais no meu sangue. Era a nossa brincadeira — eu e você — eu era a sua droga. Você acreditava que eu era a sua endorfina, mas no fundo você é a minha dopamina.
Os dias vem, junto com eles a vontade de te ter, a ansiedade pelo próximo pico, a próxima dose, mais um pouco no meu sangue, tomam conta de mim. Eu estudo — por ti. Eu pedalo — para ti. Eu sorrio — pensando em ti.
Já ouvi falar desses sintomas. Pensar no vício 24/7. Viver a abstinência em cada ato diário. Notar a ausência do psicotrópico em cada pensamento. Sonhar com a viagem, com o reencontro, com o momento que seremos eu e você, a correr nas minhas veias.
E é verdade. Você está em tudo que faço, em todo meu dia, em todo pensamento antes mesmo das conexões neurais se completarem. Mas ao contrário da maioria dos vícios, este não me faz mal. A abstinência produz perseverança — e como sabemos, a perseverança produz experiência. A experiência, por sua vez, traz a esperança.
E é nela que eu me sustento. Em você eu estou. Abstinência/perseverança/experiência/esperança. De você, para mim, até que sejamos nós, novamente.
