O banco da bicicleta.

Acho que foi na terceira ou quarta vez que me incomodou. Até ali tudo bem, o dia estava mais frio que o costume, o vento mais cortante do que eu gostaria e o par de luvas continuava sumido, mas o que me aborreceu mesmo foi a terceira vez

Seu banco está desregulado — avisou mais um motorista de carro, saindo com a tranquilidade de quem fez a boa ação do dia, ajudando um ciclista num dia frio.

É, o meu banco está desregulado. Eu sei que ele está, infelizmente, percebi desde cedo quando saí de casa e o meu joelho estava mais perto do meu rosto que o meu peito. Percebi a cada pedalada que forçava o meu joelho já meio amolecido de problemas com obesidade do passado. Mesmo assim, sendo o terceiro ou quarto a me ajudar, ainda sorri em agradecimento, sem fôlego para agradecer ou xingar.

E assim eu terminei os quatro quilômetros e meio até minha casa, depois de sete avisos de motoristas de carro e três de pedestres (talvez um estivesse apenas me xingando por estar pedalando na calçada, mas aconteceu, desculpa).

Olhei para o banco, pelo menos uns 15 centímetros mais baixos do que estava semana passada e entrei em casa. Eu ainda tinha que massagear o joelho e fazer exercícios de resistência para que ele aguentasse amanhã e o dia porvir.

Adormeci solitário com a triste certeza de que na vida as pessoas apontam nossas dificuldades sob pretexto de nos ajudar, mas é raro encontrar alguém que consiga atrasar cinco minutos e fazer um desvio do seu objetivo para nos ajudar a regular a nossa.

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