O suspiro do monge.

O beijo veio como o primeiro gole de água gelada durante a madrugada. Me tirou do lugar, sem que eu mexesse ao menos os meus pés. Deixaria batom no seu queixo, se eu usasse. Sorte sua, por sinal.

E o sorriso — ah, a forma que sorriu, e o sorriso virou riso, e o riso transformou em gargalhada, enquanto eu tentava definir se achava graça ou ficava levemente preocupado com essa reação tão pouco comum.

Junto com a gargalhada, os tapas no meu braço, como se fôssemos dois grandes jogadores de truco e eu tivesse caído em mais um dos seus blefes, mesmo com tantos anos. Não, não era o caso. Não era um blefe, não era truco, não nos conhecíamos há tantos anos assim, e também não tínhamos (ao menos na época) as barrigas de chope necessárias pra essa interação toda ocorrer, nem o dinheiro sobrando pra jogar a primeira dose pro santo — que confessemos, é uma mania um tanto quanto estranha dos cariocas.

Nos beijamos, depois de tantos dias. Esquecemos quem fomos, quem somos, quem fantasiamos, naquele momento era tudo ao mesmo tempo agora — eu, você, as pessoas a nossa volta, o ritmo vagaroso do trânsito em algum lugar da estrada. Gosto de pensar que em algum lugar do mundo, um monge suspirou ao entrar em nirvana, naquele mesmo momento. Porque naquele beijo, o encontramos, e ele nos encontrou e nos abençoou. Ou fez o que quer que monges façam quando se deparam com essa situação, que equivaleria a abençoar caso ele fosse ocidental.

Nossas mãos se acharam depois dos tapas tão rápido quanto nossas bocas se encontraram. Enquanto elas já estavam acostumadas umas com as outras, estas tiveram um primeiro encontro tão memorável quanto aquela vez que me apresentei e você fingiu que entendeu meu nome. Eu sei que não entendeu, tá tudo bem, você estava cansada, eu estava com gosto de cerveja na boca, posso ter falado um pouco enrolado.

Mas nos entendemos no olhar. Nos entendemos no sorrir — e começamos a nos entender no beijar.

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