Se eu pudesse mudar um pouco de você.

Me entenda, não é que eu não te amo. Eu sei que você sabe disso, e que eu também tenho os meus defeitos. Tenho certeza que você deve ter em algum cantinho do seu cérebro uma listinha (conhecendo sua organização, classificada em cores e graus de importância) de modificações, adaptações e upgrades que você faria em mim se eu pudesse.

Mas a verdade é que

Se eu pudesse mudar um pouco de você, eu acrescentaria uma pitadinha e meia de camomila, pra descansar um pouco mais e não entrar em parafuso. Tiraria uma dose e meia de cafeína, pra conseguir levantar e viver a vida numa boa, sem precisar carregar o peso do mundo e o poder imaginário de resolver todos os problemas.

Se eu pudesse mudar um pouco você, eu colocaria um pouquinho de pimenta calabresa, pra poder aproveitar mais os momentos em que você semicerra os seus olhos e eu sinto a sua indignação quando eu te provoco. Aproveitaria também para colocar um pouco de manjericão, que combina com aquele nosso vinho guardado e uma malemolência de estar em seus braços.

Açúcar mascavo. Colorau. Açafrão, mas só uma colherinha de sobremesa. Shoyu. Aquele molho parmesão do Subway. Barbecue, molho tártaro e inglês. Sal. Olharia pro chimichurri e ficaria com um pouco de dúvida. No fim, de pouquinho em pouquinho, se eu pudesse, mudaria alguns detalhes em você.

Afasto, pronto para admirar minha criação — você com uma cirurgia plástica na alma. Olho de um lado, olho de outro. Não te reconheço. Como um photoshop em que você mal reconhece a pessoa da foto, percebi que é nos detalhes que você tem a sua identidade. Percebi que é cada uma daquelas coisas que me agoniam, me irritam e me desolam, fazem de você um único ser em unidade.

E que se eu amo você, é por inteiro.

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