Dublin, minha quirida*

Ir morar longe do lugar onde se nasceu é viver uma relação de amor e ódio com o novo pouso. A comparação é clichê, mas mudar para uma nova cidade (ou para um novo país!), é igual a começo de namoro. Tudo são borboletas no estômago. Foi exatamente assim quando cheguei em Dublin. Lembro do arrepio que me cortou a espinha quando da janela do avião enxerguei a baía da cidade e todos aqueles quadradinhos verdes de roça.
No desembarque, logo depois de toda a tensão para atravessar o controle de fronteira e ganhar o primeiro carimbo no meu passaporte, veio um desentendimento com meu novo amor. Uma mala extraviada. No worries. A moça no guichê percebeu que eu não falava inglês direito, olhou meu sobrenome no documento brasileiro e mandou um italiano. Ma che! Com as 53 palavras que sabia em inglês mais as 17 do meu vasto vocabulário italiano consegui resolver os paranauês para a companhia aérea encaminhar a bagagem no endereço da minha tia que mora na Irlanda.

No caminho para o interior, fiquei embasbacada com o sol inesperado. Com todo aquele verde. Os campos pontilhados de branco: ovelhas com seus filhotes. Era a primavera. As bichas começando a parir depois da dureza do inverno. E não bastasse a sorte de ser recebida com sol e por alguém da família, ainda tinha o maravilhamento com as ruínas dos castelos espalhados na paisagem.
— Isso era mesmo um castelo? — perguntei pra minha prima irlandesa que dirigia da capital do país rumo à Tipperary.
— Sim, isso é o que mais tem por aqui — respondeu ela achando meu espanto meio engraçado.
E era verdade. Perdi as contas de quantas ruínas de fortalezas e igrejas e vilas fofas passamos até alcançarmos Thurles — a cidade pra onde corro sempre que fica muito difícil lidar com a saudade de casa. E por perto ainda veria mais nos dias que seguiram. Abbeyleix, Castle, Kilkenny, Holycross, Kiltegan, Limerick, Adare. O interior da Irlanda se exibe em tantas nuances de verde que a gente ignora quando o céu invoca de se pintar de cinza.
Novo território
De volta à capital, estava eu solta num mundo novo. Sozinha. E nada era familiar ao que tinha visto por Santa Catarina. A arquitetura georgiana com seus prédios não muito altos de tijolinhos a vista, as cumeeiras de cobre esverdeados pelo tempo, os parques com jardins milimetricamente desenhados com arbustos, árvores e flores. E as pontes? Enquanto no Brasil eu escrevia sobre as brigas sucupirianas para se construir uma nova em Blumenau — que ainda nem saiu do papel mais de quatro anos depois — conto oito pontes só no trecho de menos de dois quilômetros de Liffey entre o centro da cidade e a minha casa. Isso é baita bom.
Falando em mobilidade urbana, eu que nunca dirigi carro próprio, larguei de vez a ideia de um como necessidade. Tudo ficou acessível numa caminhada. A segurança pública aliada ao conjunto eficiente de calçadas, semáforos e faixas de pedestre facilita a vida de quem depende apenas dos pés para chegar. E se cansar, tem o Luas — o bondinho elétrico amor –, o sistema de aluguel de magrelas Dublin Bikes — nunca pedalei aqui, sou muito tansa pra isso –, o Dublin Bus com wifi nos polentões de dois andares, o Dart, a Irish Rail e etc.
Já a limpeza das ruas europeias é meio mitológica. Em Dublin pelo menos, é. Lembro de ficar chocada com as calçadas. Um mural de pinturas surrealistas de vômitos expostos para os pedestres que madrugam. Ainda que o poder público limpe tudo depois, as manchas ficam ali, enchendo o chão de arte visceral. E… europeus jogam lixo no chão sim. Talvez menos do que no Brasil, mas acontece. Papel, chiclete, copo, garrafa, bituca de cigarro, colchão, sofá.
English, pero no mucho
Andando por Dublin, percebi que o inglês não era o único idioma. Ouvi francês, espanhol, híndi, italiano, mandarim, polonês, coreano, português e mais um tanto línguas que nem sei. Nas minhas primeiras semanas aqui, caminhava bem devagarinho e de orelhas em alerta pra tentar captar todos os sons a minha volta.
Pois o idioma, ah o idioma! Ele vai te denunciar, te encalacrar, te fazer passar por todo tipo de situação boa ou ruim. Por causa dele, do teu sotaque, os nativos vão te olhar e saber que não és um deles. Mas não é só isso! Tuas feições, teu jeito de vestir, de andar, de falar, vão escancarar teu não pertencimento. A maioria dos irlandeses está acostumada com o fluxo intenso de estudantes e vai ser extremamente solícito, paciente, repetir devagar. Lembro de um dia em que me perdi quando estava procurando acomodação. Virei pra trás e com meu inglês quebrado pedi ajuda à primeira pessoa que vi. A moça de cabelo colorido e coberta de tatuagens que parou fez questão de desviar o caminho dela e ir comigo no endereço, para ter certeza de que eu chegaria a salvo no lugar que fui saber depois ser área perigosa.
Sempre vai ter alguém pobre de espírito o suficiente para fazer pouco do teu inglês capenga, para falar o quão ruim é tua pronúncia ou quanto nada daquela frase que tu traduziu mentalmente faz sentido. No começo, eu ficava chateadíssima com meus tropeços no idioma. Tanto, que no meu primeiro ano aqui mal abria a boca para tentar com medo de falar errado.
Depois liguei o famoso botão do foda-se. Agradeço de coração quem corrige com gentileza, afinal, é pra aprender que estou aqui. Mas pra quem vem com deboche, tenho duas respostas padrão: 1ª: “English is my second language and I am still learning. What is your second language?”; 2ª: “I am sure that my English is better than your Portuguese”. Não teve um cidadão desses que me respondeu com um ‘ah, eu falo a língua tal também’. Touchè.
Uóti?
Entender irlandês falando inglês não é mole. A primeira vez na vida que entrei num Starbucks saí chorando sem o copinho com meu nome na mão porquê não consegui pedir nem um pingado. Sotaque? Capaz, queridos. Soava como árabe pra mim, que só tinha estudado inglês em cursinho de quatro horas por semana, ouvindo norte-americano e lendo The book is on the table. Vai entender um nativo do lado norte de Dublin. Dois desses conversando, então? Se entender escocês de primeira, merece comemoração ao estilo Galvão Bueno abraçando o Pelé quando o Baggio botou o pênalti pra fora na Copa de 1994.
Enfim, só esses ruídos de convivência e choques culturais renderiam um livro. Com o tempo, tudo melhora. Os rostos das pessoas na rua passam a ser conhecidos. Tem o cara magrelo que pedala uma bicicleta igual à do nonno enrolado num xale verde na linha do Luas. O Angelo, que de segunda à sexta às 10h35 me via entrar sonolenta no café dele e pedir um cappuccino. O tiozão alto e de cabelo puxado pra trás com gel, super alinhado em terno — geralmente em tons terrosos — e sobretudo que eu poderia jurar que é modelo pelo jeitão de andar, mas que deve trabalhar pelas redondezas do Four Courts.
As ruas passam a ser menos estranhas, os bares viram os de sempre. O bartender do teu ‘pub local’ vira brother. As conversas randômicas com pessoas que tu nunca viu antes e que possivelmente nunca mais vais encontrar na vida terminam em gargalhadas. Às vezes, tu ainda vai ficar injuriado porque esse ou aquele te tratou diferente quando percebeu que tu eras estrangeiro. Só que vais aprender a ignorar os ignorantes.
A chuva vai fazer par com o céu cinza e derrubar teu ânimo e teu bronze junto com os níveis de vitamina D. A ventania faz lacrimejar, mas tudo bem, porque o rímel é de verdade: Rimmel London Waterproof e foi baratinho na farmácia. E, vez ou outra, vai fazer sol! Tu vais ver todo mundo felizão na rua. Em qualquer lugar que tu entrar pra comprar um café ou um pão ou uma pint, alguém vai olhar pra ti e perguntar: Are you ok, love? Yes, I am ok. Como não estaria num lugar onde as pessoas chamam desconhecidos de amor?
*Quirida:(adj. sf.) pronúncia da palavra querida por muitos nativos de Santa Catarina.
