Café e jornal
Uma manhã na Rede Bandeirantes de Televisão
Por Arthur Almeida, Eduarda Motta, Gabriele Castaldi e Sarah Sandrin

Parte do Grupo Bandeirantes de Comunicação, a Rede Bandeirantes de Televisão foi fundada em 13 de maio de 1967, com a criação da TV Bandeirantes. Atualmente, ela é a quarta maior rede televisiva brasileira em audiência e faturamento, estando presente por todo o país e, também, em algumas regiões do exterior.
Com sede no Morumbi, bairro nobre da zona oeste da cidade de São Paulo (SP), a TV Bandeirantes foi a responsável por estrear e consolidar diversas características da programação televisiva brasileira. Dentre elas, a exibição diária de telenovelas com episódios de 45 minutos de duração, a programação integralmente em cores, a operação por satélite e programas de discussão política ainda nos anos de regime ditatorial militar.

A infraestrutura da sede da Bandeirantes encontra-se em um extenso terreno e, dividido em blocos dentro do prédio principal, a empresa possui disponíveis estúdios de gravação para televisão e rádio, cenários para programas, espaços para as redações e salas de edições técnicas, dentre outros ambientes profissionais e de sociabilização.
Apesar da proximidade dos setores produtivos (isso é, o rádio, a TV e o jornal — impresso e digital), do uso compartilhado dos espaços comuns e, até mesmo, em alguns casos, da rotatividade das equipes jornalísticas, de design e marketing, cada meio e programa possui a sua própria organização interna.
Assim, diferenciando-se quanto à lógica produtiva, à rotina e aos recursos — financeiros e humanos (mão de obra), o orçamento e o número de membros envolvidos no projeto sendo o resultado de um cálculo que tem como base o tempo que o programa está no ar, sua audiência e relevância diante da população e do contexto no qual está inserido.



O setor televisivo da Rede Bandeirantes é dividido em três grandes canais: Band TV (frequência aberta), Band News e Band Internacional (frequências fechadas por assinatura). Cada um deles tem uma programação própria que é estudada para condizer com o seu público e objetivo. Assim, enquanto a Band News trabalha somente com programas de Jornalismo, a Band TV e a Band Internacional trazem às telas também blocos de entretenimento e esporte.
Essa diferença estrutural também influencia na organização interna das produções, como nas funções desempenhadas dentro da equipe jornalística. Enquanto há programas que seguem à risca a lógica de fluxos de informação e estrutura da produção jornalística tradicional, outros tiveram que se adaptar para funcionar.

Por exemplo, a equipe do programa “Bora SP”, que passa das 7 às 9 horas na Band TV, não realiza reuniões de pauta.
Em entrevista, Paulo Campos, diretor-executivo do “Bora SP”, contou que as pautas começam a ser pensadas pelos pauteiros no período da tarde do dia anterior; quando se aproxima da noite, os repórteres do jornal começam a chegar na Redação e iniciam seus trabalhos de apuração e escrita; algumas horas depois chegam os editores para revisar as matérias e o roteiro que já foram produzidos, além de “paginá-las”, isso é, decidir a sua posição dentro do jornal, e planejar o envio de repórteres à rua para entrarem ao vivo no programa; por fim, fica à função da chefe de redação da Band fazer a revisão final do roteiro e acompanhar o programa ao vivo.
Neste mesmo bate-papo, Paulo Campos conta sobre novas estratégias na prática jornalística do programa. Ele afirma a necessidade do jornalismo, na contemporaneidade, de envolver os telespectadores no programa.
Assim, ele exemplifica esse movimento a partir da interação com o público por via de aplicativos digitais consultados ao longo do andamento do programa ao vivo e a utilização de correspondentes de fora da Redação da Band, isso é, pessoas de fora do meio jornalístico tradicional, ele cita a Agência Mural de Jornalismo das Periferias, que traz ao “Bora SP” conteúdo voltado às regiões periféricas da cidade de São Paulo.

Também, na Band, é perceptível uma desestruturação da lógica da hierarquia das funções jornalísticas tradicional. Em entrevista a Igor Soares Peixoto, editor da Band News, este tema foi abordado.
O jornalista afirmou que, por ser um jornal que tem 24 horas de duração, torna-se difícil a supervisão integral dos processos jornalísticos por uma única função. Assim, na Band News, todos os editores-chefes atuam também como diretores-executivos, que “fecham” os blocos do jornal, havendo, portanto, editores responsáveis pela produção durante todos os quatro períodos do dia: de madrugada, de manhã, à tarde e à noite.
Igor Peixoto ainda conta um pouco da sua trajetória com o Jornalismo, antes de assumir a Band News, desde quando começou sua carreira na Band Rio de Janeiro, ainda como estagiário e, depois, como editor-chefe do “Jornal do Rio”, um dos jornais locais da emissora, e compara a experiência de trabalhar nos dois programas, cujas propostas, objetivos e público-alvo eram muito diferentes.

Além disso, na entrevista, Igor Peixoto fala sobre a relação que se constrói entre o jornalista e os servidores públicos (como policiais, bombeiros, etc.) e os impactos desse vínculo na produção de matérias e escolha de fontes; Jornalismo geral e especializado, com exemplificação dos programas da Band; estratégias de facilitação para a compreensão da informação pelo telespectador; e o processo de apuração de informações e a produção interativa nos meios televisivos e digitais.
Por fim, também, o jornalista comenta sobre o fator comercial dentro do Jornalismo. Ele afirma que a prática é, sim, comercial e exige uma produção que lhe dê retorno financeiro lucrativo. A informação e a publicidade existentes dentro dos jornais são produtos a serem consumidos. Assim, toda a estrutura dos programas já é idealizada para atender a essa demanda econômica.
Ainda sobre os diferenciais de produção da Bandeirantes, Melissa Campagnone, diretora executiva da Band News, relata que, na emissora, é possível perceber um recorrente dinamismo em relação à troca de cargos entre os jornalistas.
Essas mudanças ocorrem, principalmente, através do desenvolvimento e da criação de uma nova programação. Nesses novos projetos, os membros de outros programas, editorias, núcleos ou setores são realocados para desempenharem novas funções.

O Grupo Bandeirantes de Comunicação é reconhecido, dentro da cidade de São Paulo, pela contratação de diversos recém-formados em Jornalismo que atuaram como estagiários dentro da empresa enquanto ainda estavam em suas graduações. E, é durante essas mudanças na programação que esses novos membros são inseridos efetivamente na Band, assumindo os mais diversos cargos: de pauteiros a editores-chefes.
Essas constantes possibilidades de troca de função também agregaram à carreira de Marina Machado, editora-chefe e apresentadora do telejornal “Notícias da Redação”.

Ela começou atuando na área de produção — contando o tempo das matérias e passando esses dados a edição dos programas — ; posteriormente, tornou-se repórter, função que executou até atingir o seu atual posto na Redação.
“Acho isso muito válido na carreira de um profissional, pois você passa a entender como acontece todo o processo de criação, edição, de pensar a matéria, de plástica, etc.”, afirma.
Esse histórico de múltiplas funções exercidas e conhecimentos acumulados auxiliam a profissional a exigir, com coerência, as matérias para os demais repórteres e produtores do programa:
“Eu sei quando eu peço para um produtor o que dá pra ser feito e também com um tempo adequado”.
Em entrevista, a jornalista, ainda, pontuou a necessidade de disponibilidade que os novos profissionais da área precisam ter para atuarem na profissão, justificando que ela demanda tempo e comprometimento integral, mesmo fora do horário comercial ou nos feriados e fins de semana. Apesar dos dias cansativos, Marina Machado destaca que a rotina na Redação é sempre muito rica de informação, adrenalina e curiosidades.

A defasagem quando se trata das novas mídias também foi uma questão citada pela apresentadora. Ela critica, sobretudo, o atraso na educação dos jornalistas em formação, que normalmente não reflete a realidade dos dias atuais, em que os veículos comunicativos encontram-se em um momento de transição e tentativa de modernização, com a integração de linguagens, a hipermídia e o hipertexto.
Essa mudança midiática, reforça a apresentadora, é essencial para atingir o público mais jovem presente nos ambientes digitais, principalmente no contexto atual, em que se sofre com a onda de desinformação e as fake news.
Para Marina Machado, isso fomenta a importância da profissão do jornalista, que precisa passar a informação correta e apurada para todos os públicos — de diversas faixas etárias e que se utilizam de diferentes veículos e formatos para se informarem.
“É muito importante o que a gente está fazendo. Precisamos apurar direito, ouvir os dois lados e passar a informação de forma clara, porque, senão, ela se perde”.
Dessa maneira, a experiência de visitar a TV Bandeirantes e dialogar com profissionais que atuam na emissora há anos foi muito enriquecedora e pôde dar um panorama completo do dia a dia de uma Redação, das funções e práticas jornalísticas desenvolvidas em uma grande empresa de televisão.

