Café e jornal

Uma manhã na Rede Bandeirantes de Televisão

Sarah Marques
Nov 6 · 7 min read

Por Arthur Almeida, Eduarda Motta, Gabriele Castaldi e Sarah Sandrin

Fonte: Reprodução

Parte do Grupo Bandeirantes de Comunicação, a Rede Bandeirantes de Televisão foi fundada em 13 de maio de 1967, com a criação da TV Bandeirantes. Atualmente, ela é a quarta maior rede televisiva brasileira em audiência e faturamento, estando presente por todo o país e, também, em algumas regiões do exterior.

Com sede no Morumbi, bairro nobre da zona oeste da cidade de São Paulo (SP), a TV Bandeirantes foi a responsável por estrear e consolidar diversas características da programação televisiva brasileira. Dentre elas, a exibição diária de telenovelas com episódios de 45 minutos de duração, a programação integralmente em cores, a operação por satélite e programas de discussão política ainda nos anos de regime ditatorial militar.

Frente da sede da Band no Morumbi, São Paulo (SP) | Foto: Grupo

A infraestrutura da sede da Bandeirantes encontra-se em um extenso terreno e, dividido em blocos dentro do prédio principal, a empresa possui disponíveis estúdios de gravação para televisão e rádio, cenários para programas, espaços para as redações e salas de edições técnicas, dentre outros ambientes profissionais e de sociabilização.

Apesar da proximidade dos setores produtivos (isso é, o rádio, a TV e o jornal — impresso e digital), do uso compartilhado dos espaços comuns e, até mesmo, em alguns casos, da rotatividade das equipes jornalísticas, de design e marketing, cada meio e programa possui a sua própria organização interna.

Assim, diferenciando-se quanto à lógica produtiva, à rotina e aos recursos — financeiros e humanos (mão de obra), o orçamento e o número de membros envolvidos no projeto sendo o resultado de um cálculo que tem como base o tempo que o programa está no ar, sua audiência e relevância diante da população e do contexto no qual está inserido.

Ambientes dos setores de Televisão, Redação e Rádio, respectivamente | Foto: Grupo

O setor televisivo da Rede Bandeirantes é dividido em três grandes canais: Band TV (frequência aberta), Band News e Band Internacional (frequências fechadas por assinatura). Cada um deles tem uma programação própria que é estudada para condizer com o seu público e objetivo. Assim, enquanto a Band News trabalha somente com programas de Jornalismo, a Band TV e a Band Internacional trazem às telas também blocos de entretenimento e esporte.

Essa diferença estrutural também influencia na organização interna das produções, como nas funções desempenhadas dentro da equipe jornalística. Enquanto há programas que seguem à risca a lógica de fluxos de informação e estrutura da produção jornalística tradicional, outros tiveram que se adaptar para funcionar.

Estúdio em que é gravado o “Bora SP” | Foto: Grupo

Por exemplo, a equipe do programa “Bora SP”, que passa das 7 às 9 horas na Band TV, não realiza reuniões de pauta.

Em entrevista, Paulo Campos, diretor-executivo do “Bora SP”, contou que as pautas começam a ser pensadas pelos pauteiros no período da tarde do dia anterior; quando se aproxima da noite, os repórteres do jornal começam a chegar na Redação e iniciam seus trabalhos de apuração e escrita; algumas horas depois chegam os editores para revisar as matérias e o roteiro que já foram produzidos, além de “paginá-las”, isso é, decidir a sua posição dentro do jornal, e planejar o envio de repórteres à rua para entrarem ao vivo no programa; por fim, fica à função da chefe de redação da Band fazer a revisão final do roteiro e acompanhar o programa ao vivo.

Na íntegra, entrevista com Paulo Campos, diretor-executivo do “Bora SP” | Produção e Edição: Grupo

Neste mesmo bate-papo, Paulo Campos conta sobre novas estratégias na prática jornalística do programa. Ele afirma a necessidade do jornalismo, na contemporaneidade, de envolver os telespectadores no programa.

Assim, ele exemplifica esse movimento a partir da interação com o público por via de aplicativos digitais consultados ao longo do andamento do programa ao vivo e a utilização de correspondentes de fora da Redação da Band, isso é, pessoas de fora do meio jornalístico tradicional, ele cita a Agência Mural de Jornalismo das Periferias, que traz ao “Bora SP” conteúdo voltado às regiões periféricas da cidade de São Paulo.

Redação Band News | Foto: Grupo

Também, na Band, é perceptível uma desestruturação da lógica da hierarquia das funções jornalísticas tradicional. Em entrevista a Igor Soares Peixoto, editor da Band News, este tema foi abordado.

O jornalista afirmou que, por ser um jornal que tem 24 horas de duração, torna-se difícil a supervisão integral dos processos jornalísticos por uma única função. Assim, na Band News, todos os editores-chefes atuam também como diretores-executivos, que “fecham” os blocos do jornal, havendo, portanto, editores responsáveis pela produção durante todos os quatro períodos do dia: de madrugada, de manhã, à tarde e à noite.

Igor Peixoto ainda conta um pouco da sua trajetória com o Jornalismo, antes de assumir a Band News, desde quando começou sua carreira na Band Rio de Janeiro, ainda como estagiário e, depois, como editor-chefe do “Jornal do Rio”, um dos jornais locais da emissora, e compara a experiência de trabalhar nos dois programas, cujas propostas, objetivos e público-alvo eram muito diferentes.

Estúdio Rádio Band News FM | Foto: Grupo

Além disso, na entrevista, Igor Peixoto fala sobre a relação que se constrói entre o jornalista e os servidores públicos (como policiais, bombeiros, etc.) e os impactos desse vínculo na produção de matérias e escolha de fontes; Jornalismo geral e especializado, com exemplificação dos programas da Band; estratégias de facilitação para a compreensão da informação pelo telespectador; e o processo de apuração de informações e a produção interativa nos meios televisivos e digitais.

Por fim, também, o jornalista comenta sobre o fator comercial dentro do Jornalismo. Ele afirma que a prática é, sim, comercial e exige uma produção que lhe dê retorno financeiro lucrativo. A informação e a publicidade existentes dentro dos jornais são produtos a serem consumidos. Assim, toda a estrutura dos programas já é idealizada para atender a essa demanda econômica.

Na íntegra, entrevista com Igor Peixoto, editor-executivo do “Band News” | Produção e Edição: Grupo

Ainda sobre os diferenciais de produção da Bandeirantes, Melissa Campagnone, diretora executiva da Band News, relata que, na emissora, é possível perceber um recorrente dinamismo em relação à troca de cargos entre os jornalistas.

Essas mudanças ocorrem, principalmente, através do desenvolvimento e da criação de uma nova programação. Nesses novos projetos, os membros de outros programas, editorias, núcleos ou setores são realocados para desempenharem novas funções.

Espaço para gravação Band | Foto: Grupo

O Grupo Bandeirantes de Comunicação é reconhecido, dentro da cidade de São Paulo, pela contratação de diversos recém-formados em Jornalismo que atuaram como estagiários dentro da empresa enquanto ainda estavam em suas graduações. E, é durante essas mudanças na programação que esses novos membros são inseridos efetivamente na Band, assumindo os mais diversos cargos: de pauteiros a editores-chefes.

Essas constantes possibilidades de troca de função também agregaram à carreira de Marina Machado, editora-chefe e apresentadora do telejornal “Notícias da Redação”.

Entrevista com Marina Machado | Foto: Grupo

Ela começou atuando na área de produção — contando o tempo das matérias e passando esses dados a edição dos programas — ; posteriormente, tornou-se repórter, função que executou até atingir o seu atual posto na Redação.

Esse histórico de múltiplas funções exercidas e conhecimentos acumulados auxiliam a profissional a exigir, com coerência, as matérias para os demais repórteres e produtores do programa:

Em entrevista, a jornalista, ainda, pontuou a necessidade de disponibilidade que os novos profissionais da área precisam ter para atuarem na profissão, justificando que ela demanda tempo e comprometimento integral, mesmo fora do horário comercial ou nos feriados e fins de semana. Apesar dos dias cansativos, Marina Machado destaca que a rotina na Redação é sempre muito rica de informação, adrenalina e curiosidades.

Gravação ao vivo programa “Notícias da Redação” com Marina Machado | Foto: Grupo

A defasagem quando se trata das novas mídias também foi uma questão citada pela apresentadora. Ela critica, sobretudo, o atraso na educação dos jornalistas em formação, que normalmente não reflete a realidade dos dias atuais, em que os veículos comunicativos encontram-se em um momento de transição e tentativa de modernização, com a integração de linguagens, a hipermídia e o hipertexto.

Essa mudança midiática, reforça a apresentadora, é essencial para atingir o público mais jovem presente nos ambientes digitais, principalmente no contexto atual, em que se sofre com a onda de desinformação e as fake news.

Para Marina Machado, isso fomenta a importância da profissão do jornalista, que precisa passar a informação correta e apurada para todos os públicos — de diversas faixas etárias e que se utilizam de diferentes veículos e formatos para se informarem.

Na íntegra, entrevista com Marina Machado, editora-chefe e apresentadora do “Notícias da Redação” | Produção e Edição: Grupo

Dessa maneira, a experiência de visitar a TV Bandeirantes e dialogar com profissionais que atuam na emissora há anos foi muito enriquecedora e pôde dar um panorama completo do dia a dia de uma Redação, das funções e práticas jornalísticas desenvolvidas em uma grande empresa de televisão.


Foto: Grupo
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade