O PAPEL DAS IDEIAS NA HISTORIOGRAFIA DE LUDWIG VON MISES.

Introdução:

Dando continuidade à nossa análise de algumas obras do economista austríaco Ludwig von Mises, após um breve resumo de sua obra “Lucros e Perdas”, meu próximo passo será analisar a visão de Mises acerca do papel das doutrinas na história da humanidade,conforme escreveu em seu ensaio “The Role of Doctrines in Human History”. Logo, esse artigo busca mostrar a breve atuação de Mises enquanto historiador das ideias. Entretanto, devo de inicio alertar, que ele não se enquadra como um historiador das ideias comum. Enquanto outros historiadores das ideias buscam analisar o impacto e a história individual de cada autor dentro de uma corrente de pensamento, Mises não faz nenhuma análise acerca de autores, mas sim do impacto de determinadas ideias sobre o curso da história. Tentarei no decorrer do artigo fornecer algumas observações acerca das visões de Mises com o objetivo de enriquece-las.

I-História e Doutrina:

Mises inicia seu ensaio com uma crítica aos historiadores antigos. Essa crítica foca no problema desses historiadores em perceber o papel central das ideias na construção da história. Esses historiadores geralmente focavam seus esforços em meras análises de assuntos políticos do Estado e da história de seus governantes. Para eles, as modificações em termos de crenças e mentalidades pouco importavam na formulação da História.

Essa maneira de pensar a história logo foi posta em cheque com a ascensão das Revoluções Cientificas e do Iluminismo. Mises vincula esse importante rompimento ao surgimento da história cultural,pois é ela que estuda o desenvolvimento das instituições sociais,políticas e econômicas, as mudanças nos métodos e nas formas de produção,as alterações do modo de vida de uma população e a transformação de hábitos e costumes. Segundo Mises, o estudo da história cultural deveria ser um processo constante de estudo acerca das ações e pensamentos dos indivíduos. Assim ele define:

“Esses estudos devem levar à descoberta do papel dominante desempenhado pelas ideias em guiarem o comportamento humano. Tudo o que o homem faz resulta das teorias, doutrinas, credos e mentalidades que governam suas mentes. Nada é real ou material na história da humanidade sem o uso da mente. Os problemas essenciais da pesquisa histórica são as modificações dos sistemas de pensamento que governam o espírito humano. De uma forma ou de outra, os hábitos e instituições são produto de nossa razão.”

Dessa forma, para Mises, os seres humanos, como todos os animais, precisam se ajustar às condições do ambiente em que vivem. Entretanto, devido à Razão, esse ajustamento é um produto da ação do indivíduo sobre a natureza e não dela sobre o indivíduo. Dessa forma, vemos uma crítica clara de Mises à interpretação geográfica da história. O ambiente funciona apenas por intermédio da mente humana. Logo, determinados fatos históricos só poderiam ocorrer sob a ação de determinado uso da razão sobre o meio físico. Mises salienta dois exemplos para demonstrar isso.

O primeiro é o caso dos colonos puritanos na América do Norte e sua clara diferença para com os nativos. Nesse caso temos uma civilização que logo construiria um império mercantil e usaria dos meios ao seu redor para erguer uma das maiores nações do planeta e uma civilização que ainda desconhecia a roda e praticava formas primitivas de agricultura de subsistência. Vemos, nesse caso, uma clara diferença derivada da vantagem dos colonos puritanos por seus conhecimentos e ideias com relação aos nativos primitivos. Outros exemplos que também podemos utilizar nessa análise são o dos Impérios Pré-Colombianos e dos nativos brasileiros. No primeiro caso, vemos uma clara distinção entre determinados povos nativos das Américas. Tomemos por exemplo os incas. Existe uma clara diferença de desenvolvimento entre os incas e os nativos das planícies da América do Sul, sobretudo devido à capacidade dos incas de uso de sua mente para domar o ambiente ao redor e superar o estágio de subsistência de sua economia. Vemos isso claramente em seu domínio do processo de terraceamento e do cultivo da batata. No segundo caso, temos as diferenças no bem-estar e na complexidade social de nativos brasileiros antes e depois da chegada dos portugueses. Apesar da crença bastante difundida, os nativos brasileiros não viviam em um estado de completa miséria. Como demonstra o antropólogo francês Peirre Clastres, as sociedades nativas do Brasil, sobretudo a Tupi-Guarani, conseguiam administrar seus processos de produção de forma a gerar não apenas sua sobrevivência, como também produzir excedentes. Dessa forma, para Clastres, isso demonstrava que sociedades primitivas não tinham uma estrita necessidade de montagem do Estado como forma de aumentar a produção por via de monitoramento hierárquico para incrementar a produção de forma a gerar excedentes.( que pode ser chamado de Modelo Organizacional Alchian-Demsetz). Ou seja, os nativos, por uso de determinados arranjos culturais e do uso de seu conhecimento acerca da vegetação nativa, conseguiam sobreviver e prosperar sem a necessidade de uma estatização, como pressupunha modelos sociológicos tradicionais. Todavia, existe limites claros para o Modelo de Clastres. Inevitavelmente, os limites da técnica e dos arranjos de controle cultural iriam falhar em casos de mudanças das condições fixas do ambiente e forçariam os nativos no sentido de uma maior hierarquização de sua produção. Isso aconteceu de fato quando os nativos brasileiros começaram a fazer trocas com os colonos portugueses, sobretudo quando adquiriram instrumentos de ferro com os quais aumentaram sua produção e aumentaram a complexidade social de forma a surgir figuras hierárquicas de controle, que antes só existiam em tempos de guerra para coordenar a produção. Dessa forma, o domínio do ambiente por meio da razão por vias da força da mente leva, em alguns casos, ao surgimento de complexidades que criam a urgência da criação de estruturas hierárquicas, como o Estado.

O segundo exemplo usado por Mises é o da diferença dos moradores das montanhas da Escandinávia e dos Alpes. Ambas as regiões tem condições naturais para o desenvolvimento da prática do esqui. Entretanto, apenas os escandinavos desenvolveram essa prática. Mesmo em meios praticamente idênticos, apenas um deles desenvolveu essa prática. Durante séculos, os camponeses dos Alpes da Suiça passaram invernos inteiros impossibilitados de irem para as cidades nos vales por falta de um transporte, porém nem seus desejos nem suas necessidades foram o fator determinante para os desenvolverem.

Em seguida, Mises ataca as concepções da Teoria do Ambiente Geral, que afirmava que o homem não passava de um mero produto das condições culturais e das instituições do meio em que vivia. Para ele, tal explicação da formação social caia, inevitavelmente, em uma explicação cíclica, pois ,para ao afirmar que uma instituição humana molda o pensamento do homem, você tem que mostrar como essa instituição surgiu anteriormente. Dessa forma, Mises diz:

“Essas instituições e condições já são, elas mesmas, o produto das doutrinas dominantes da conduta da geração anterior. Elas mesmas têm de ser explicadas, apelar a elas não substitui uma explicação. Hippolyte Taine estava certo quando, ao lidar com a história da arte, referiu-se ao meio em que artistas e poetas realizaram seus trabalhos. Mas a história geral precisa ir além; não tem de concordar em considerar as condições do ambiente como dados que não podem ser traçados mais para trás.”

Mises, entretanto, está longe de afirmar que a mente é uma condição a priori para a concretização de fatos históricos, ou seja, que o homem não é totalmente desvinculado ao meio. Longe de dizer isso, Mises apenas afirma que o meio não pode ser a explicação primária ou fundamental para explicar fatos históricos. Como ele diz:

“Ao dizer que precisamos considerar os pensamentos humanos como a fonte derradeira da conduta humana não desejo defender que a mente é algo indivisível ou algo final, para além da qual nada mais existe, ou então é algo que não está sujeito às limitações do universo material. Não precisamos lidar com problemas metafísicos. Simplesmente temos de levar em conta o fato de que o estado atual do conhecimento não nos permite perceber como o homem interior reage às coisas externas. Homens distintos e o mesmo homem em épocas diferentes respondem de modo diverso aos mesmos estímulos.”

Por fim, Mises ataca o Materialismo. Em sua crítica, ele contesta a influência das forças produtivas como fatores determinantes do estado da mente e afirma que elas não passam de um produto do uso da razão. Não seriam essas forças que moldariam o uso da razão enquanto guia de um sistema de produção, mas sim essas forças seriam um produto do uso da razão para a realização de determinada ação no meio por determinada necessidade, como o desenvolvimento de novos métodos tecnológicos e processos de inovação.

II-O Papel Social das Doutrinas:

Nessa parte, Mises explica o papel das doutrinas no ambiente social. Ele começa atestando que a ciência não pode nos proporcionar uma explicação completa de tudo. Cada ramo do conhecimento precisa parar em alguns fatos dados — ao menos em tempo presente por limitações dos instrumentos ou de conhecimentos para compreensão de fenômenos — que precisa considerar como os fundamentos últimos para além dos quais não pode prosseguir. Esses fatos últimos são simplesmente dados à nossa experiência, não podem ser rastreados para outros fatos ou forças anteriores.

A individualidade, para Mises, é um desses dados últimos para a história. Cada investigação histórica alcança, mais cedo ou mais tarde, um ponto a partir do qual não pode explicar sem levar em conta a individualidade, a capacidade de cada ser humano de pensar e agir sobre o meio. Mises, usando de um argumento burkeano, afirma que o indivíduo, em qualquer momento dado, é um produto do passado. No seu nascimento, traz ao mundo como qualidades inatas o precipitado da história de seus ancestrais. Logo, mesmo em seus estágios iniciais, cada indivíduo é influenciado pelos seus ancestrais, seja por meio da família ou de instituições ancestrais da sociedade. Ao longo de sua vida, o indivíduo é influenciado pelo meio, tanto em suas qualidades naturais como sociais. Entretanto,não podemos explicar como esses fatores agem sobre o pensamento. Não se pode explicar a razão de René Descartes ter virado um filosofo e Al Capone um gangster.

Ao lidar com as doutrinas, origem, desenvolvimento, implicações lógicas e funcionamento na sociedade, Mises não busca defendê-los como fatos últimos. Doutrinas não tem uma existência própria a priori,elas são produto do pensamento humano. São apenas parte do universo e nada pode exclui-las de entrar em leis da causalidade. Devemos, contudo, atentar que os seres humanos pouco sabem a respeito de como essas ideias ou mentalidades são criadas.

Mises termina falando acerca de um certo teor crítico que deve existir com relação às doutrinas humanas. Ele distingue entre as doutrinas que ajudam na sobrevivência e as que prejudicam. segundo ele:

“Há doutrinas que contribuem para a cooperação social e há ideias destrutivas que resultam na desintegração social da sociedade. Todavia não devemos acreditar que as doutrinas destrutivas irão necessariamente perder adeptos por suas consequências perniciosas.
[…]
O fato de uma doutrina ter sido desenvolvida e de ter obtido sucesso para conseguir muitos adeptos não é prova de que não é destrutiva. Uma doutrina pode ser moderna, de bom gosto, geralmente aceita e,mesmo assim,prejudicial para a sociedade humana, para a civilização e para nossa sobrevivência.”
Ludwig von Mises.