Porque Making a Murderer me impressionou

Não sou hipócrita suficiente para cair em uma armação (por atenção) de uma série documentada: sei bem que, por mais que não fosse a intenção, a série é parcialmente favorável a Steven Avery é que há coisas mal contadas sobre seu julgamento na obra da Netflix lançada em dezembro.

Mas após ver 10 das 700 horas documentadas sobre o caso, fica difícil não dar o benefício da dúvida a Steven.

Trailer legendado

A primeira pergunta que faço a mim mesmo é pessoal: como seria fica encarcerado por 18 anos sendo inocente? São 6.570 dias para pensar sobre o que vale ou não a pena na vida. São cerca de 938 semanas para dar valor a cada pequena ação liberta como um banho de sol ou uma visita de familiares. E por fim são cerca de 234 meses que vão de início ao fim para avaliar o que deve ou não ser feito após a passagem desse tempo.

A segunda pergunta é a mais preocupante: por que diabos um recém liberto prisioneiro inocente mataria de forma brutal e cruel uma garota qualquer que visita sua casa/trabalho a negócios? Fosse a autora de sua primeira acusação, um dos policiais envolvidos ou qualquer inimigo da família Avery, haveria ao menos um pretexto para tal, mas não, não há.

E por fim a terceira pergunta é por que eu estou falando disso? Por que a revolta de minha pessoa a favor de um indivíduo, sendo que há milhares deles em condições similares ou piores, além de mulheres e crianças que vão passar o resto da vida presos nos EUA?

Das três, só posso responder a última que me foi dada assim que o serviço de streaming me indicou a série: sempre ouvi que a “América” era país da liberdade, que o dólar compensava qualquer serviço braçal, que as pessoas dali tinham casas, hospitais, carros e comodidade diferenciados para todos e que as decisões tomadas pelo governo dos Estados Unidos estavam livres de corrupção e em busca da proteção da família.

O que não me disseram era o preço da palavra liberdade, que tamanha conquista só pode ser feita através do sacrifício de milhares, seja pelo sistema, seja pelas guerras ou por ser refém da própria liberdade.

Frente a Steven Avery, pessoa do qual eu, por mais ignorante e distante que esteja de sua vida e seus problemas, acredito que seja inocente, só posso me sentir (de forma terrível) um sortudo por ser e continuar sendo brasileiro. Mesmo ganhando menos que deveria, mesmo sendo vítima de um governo corrupto, mesmo se um dia for acusado de um crime e ir para uma cadeia muito pior do que a que ele vive inocente.

Pois por algum motivo eu sei que a solidariedade do povo brasileiro me acolheria e que a bagunça das leis praticadas aqui me deixaria livre em pouco tempo, para que eu pudesse recomeçar e batalhar por aquilo que acredito.