1990 The Bronx Warriors: selvageria e galhofa na Grande Maçã

Uma coisa que eu admiro nos cineastas que produziam filmes B na Itália nas décadas de 70 e 80 é sua criatividade para tocar suas produções com orçamento quase nulo. Outra é sua imensa cara de pau de imitar descaradamente produções dos grandes estúdios de Hollywood (prática comum também entre vários cineastas brasileiros do mesmo período). Esta pequena jóia sobre a qual falarei agora foi dirigida por Enzo G. Castellari, responsável por filmes como o excelente “Keoma” (considerado o último dos Spaghetti Westerns) e pela obra-prima dos filmes baratos de Segunda Guerra, “Assalto ao Trem Blindado” (nos Estados Unidos lançado com o título “Inglorious Bastards”; Quentin Tarantino é declaradamente fã do diretor italiano e o homenageou em seu filme de guerra usando o mesmo titulo com uma grafia diferente).

O filme é uma salada de influências, sendo as principais “Warriors, Os Selvagens da Noite” e “Fuga de Nova York”. O resultado dessa explosiva mistura leva o nome de “1990 The Bronx Warriors”, que logo nos créditos mostra a que veio, dando ênfase às armas e ornamentos carnavalescos das gangues que povoam o local. Em seguida, temos um letreiro que nos explica que, em 1990, os índices de violência aumentaram de tal forma no Bronx que as autoridades declararam o local terra de ninguém, e desistiram de qualquer esforço para manter a lei e a ordem. Mais ou menos como a Crackolandia, só que um pouco mais organizado, uma vez que o local é controlado pela gangue de motoqueiros Riders, liderados pelo jovem e cacheado Trash, com seus jeans muito apertados.

A gangue conta também com Kurt Russell genérico e seu casaco de oficial nazista, e Evandro Mesquita de bigode com seus óculos de motorista de ônibus, figuras marcantes no elenco (os personagens têm nomes; acho que o Kurt Russell genérico se chama Ice, mas eu sinceramente não perdi tempo em decorá-los, então os chamarei assim daqui pra frente). Completam a gangue outros figurantes recrutados no braço local dos Hell’s Angels que não têm importância alguma na trama.

Essa ideia do bairro dominado por criminosos vem claramente de “Fuga de Nova York”, porém enquanto no filme estadunidense a cidade é isolada e transformada numa espécie de prisão, onde ninguém pode entrar ou sair sem autorização, no primo pobre italiano o bairro é simplesmente deixado à própria sorte, pra ser então dominado por gangues que, por algum motivo, contentam-se em viver confinadas num lugar em ruínas se digladiando por territórios.

A prova de que não existe nenhum tipo de barreira pra impedir pelo menos que as pessoas entrem no bairro é a chegada de Anne, jovem herdeira de uma empresa chamada Manhattan Corporation, que aparentemente fabrica armas. Ao chegar ao Bronx, Anne é atacada por uma gangue chamada Zombies, composta de jogadores de hóquei fãs do Kiss, para depois ser salva por Trash e seus amigos com suas motos enfeitadas com ridículas caveiras de plástico e equipadas com gambiarras mortais. A moçoila passa então a viver com os Raiders e se torna o par romântico do protagonista.

A história é meio sem nexo, mas pelo que consegui entender, Anne foge pois não quer assumir os negócios da família. Como por algum motivo os executivos inescrupulosos precisam dela, colocam um policial mercenário chamado Hammer em seu encalço. Com a ajuda de um caminhoneiro chamado Hot Dog (sem zoeira, o cara chama Hot Dog) e de Kurt Russell genérico, que é um traidor, Hammer arquiteta um plano pra tirar a jovem do Bronx, porém os planos são frustrados quando ela é sequestrada pela gangue dos Zombies.

E a partir daí a história fica parecida com a do já citado “Warriors”, pois Trash tem que atravessar territórios de gangues rivais para buscar ajuda de Ogre (novamente não tenho certeza se o nome é esse mesmo), líder de uma gangue de cafetões, auto-intitulado Rei do Bronx e respeitado por todas as outras gangues — eu não disse que a trama é sem pé nem cabeça? No começo do filme dizem que a gangue de Trash é quem comanda o Bronx. Se nem quem fez essa coisa sabe o enredo, não sou eu que vou saber.

Aliás, vale destacar as péssimas caracterizações das gangues. Se na produção de Hollywood temos gangues formadas por jogadores de baseball, palhaços e coisas do tipo, que apesar de caricatas dão todo o clima do filme, aqui temos uma gangue formada por dançarinos de sapateado (?), outra composta por pessoas que se vestem com farrapos, parecendo uma versão piorada do povo da areia de Star Wars (uma vez que são tão pobres que não sobrou grana pros capacetes, então ao invés disso usaram maquiagens mal feitas), e a já mencionada gangue dos jogadores de hóquei, que acham uma boa ideia lutar usando patins em um lugar com um terreno predominantemente acidentado.

A cena final, onde policiais a cavalo e armados com lanças-chamas (se a moda pega…) invadem o Bronx dispostos a não fazer prisioneiros, é de longe a melhor sequência de todo o filme, que apesar de algumas vezes perder o ritmo com cenas excessivamente melodramáticas (como a longa e exagerada morte de Evandro Mesquita de bigode, por exemplo) e das lutas mal coreografadas, é muito divertido pra quem não espera super produções. Mesmo tendo um final um tanto quanto pessimista, o filme ganhou uma sequência chamada “Escape From The Bronx”, que tem o dobro de pessoas com lanças-chamas, e só por isso também vale ser assistido.

1990: The Bronx Warriors (1990: I Guerrieri del Bronx)
País/ano de produção: Itália, 1982
Duração: 89 minutos
Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Mark Gregory, Fred Williamson, Vic Morrow

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