O Demolidor: eu até hoje não sei usar as três conchas

Certa vez, em uma coletiva de imprensa, perguntaram ao velho Sly: “o que podemos esperar de seu novo filme?”. Ele, sem pestanejar, respondeu: “tiros, pancadas e explosões. Isso é um filme de ação; ninguém aqui espera fazer o novo Cidadão Kane”. Não tenho certeza a qual filme ele se referia, mas é bem isso que eu espero quando vejo um filme estrelado pelo Stallone.

O ano é 1996; a cidade de Los Angeles é dominada por gangues e um maluco chamado Simon Phoenix sequestra um ônibus que ousou invadir seus domínios e ameaça explodir todos os passageiros. Cabe ao policial John Spartan, mais conhecido como “O Demolidor” por seu comportamento explosivo, a missão de resgatar os reféns e prender Phoenix. Ele até prende o bandido, mas acidentalmente mata todos os reféns, e por isso é condenado ao mesmo destino de Simon: ser transformado em picolé numa “crio-prisão”.

36 anos depois, vemos que as coisas mudaram bastante. Em 2032, o mundo é um lugar pacífico, onde todos são educados e, por motivo não explicado, se vestem com quimonos. Armas e violência não fazem mais parte do cotidiano. Entre outras coisas, são proibidos carne vermelha, álcool, cigarros, linguagem obscena e contato físico. Pois é, que merda de lugar pra se viver. Parece até o Facebook; todo mundo é superlegal, perfeito e politicamente correto por aqui. E como não existe crime, a polícia tem uma função quase decorativa nessa sociedade, e se vê totalmente perdida quando Phoenix escapa da prisão criogênica e começa uma matança desenfreada. É muito engraçado ver os policiais sem ação; eles não sabem nem como dar um enquadro no cara e ficam sem reação diante de tanta agressividade.

É quando Lenina Huxley, uma jovem policial fascinada pelos violentos anos 90, tem uma brilhante ideia: se ele é um bandido do passado, vamos usar um policial do passado pra capturá-lo. Um sujeito que serviu com Spartan (e que por algum motivo não aposentou-se, mesmo tendo quase 70 anos) garante que o Demolidor é a melhor opção pro caso. Sly é colocado no microondas pra descongelar e fica totalmente deslocado num lugar onde não existe papel higiênico (como disse no título, até hoje me pergunto como se usam as tais três conchas).

É aí que começam minhas dúvidas. Ok, a história se passa em 2032, e segundo Lenina não houve nenhum assassinato nos últimos 16 anos. Levando em conta que ela deva ter uns 20 e poucos anos, é até normal que ela desconheça a violência. Mas o que me intriga é que, tirando o policial da terceira idade, todas as pessoas mais velhas (algumas que até já eram nascidas em 1996) agem como se nunca tivessem ouvido falar em assassinatos. Será que tanta paz os fez esquecer que a violência existiu um dia? Acho difícil, pois há até uma ala em um museu dedicada a esse tema. E vejam vocês que bela ideia: eles resolvem exibir obsoletas armas de fogo com munição nesse lugar!

E é pra lá que Phoenix vai, causando mais um grande tumulto e se armando até os dentes para cumprir sua missão: matar Edgar Friendly. E quem diabos é Edgar Friendly, você me pergunta. Pois bem, amiguinhos… acontece que nem tudo são flores nesse belo mundinho biodegradável, e como sempre os mais pobres continuam se fodendo. Eles são condenados a viver nos esgotos sem comida e começam a invadir a superfície para roubar alimentos. Friendly é considerado o mentor dessas ações, e um bando de pobres feios, sujos, famintos e rebeldes é algo que dr Raymond Cocteau, governador e líder de San Angeles, não pode tolerar, e por isso ele decide usar Simon Phoenix como arma pra se livrar desse incômodo. Só não contava com Spartan, que obviamente acaba pegando os vilões depois de destruir metade da cidade no processo.

Apesar de todas as baboseiras e furos no roteiro, eu me divirto muito com esse filme cheio de piadinhas dignas de A Praça É Nossa. É interessante ver John Spartan tentando se adaptar a essa nova sociedade, que parece perfeita mas esconde muitos problemas. Então é isso, pessoal. Se você procura ação à moda antiga e não um novo Cidadão Kane, assista O Demolidor e divirta-se!

O Demolidor (Demolition Man)
País/ano de produção: EUA, 1993
Duração: 115 minutos
Direção: Marco Brambilla 
Elenco: Sylvester Stallone, Wesley Snipes, Sandra Bullock