Rocky — Um Lutador: Adriaaaaaaan!

Rocky Balboa é, antes de mais nada, um exemplo de perseverança. Ele começa sua trajetória como um sujeito fodido, sem jeito com a mulherada, que tem pouca instrução e um emprego de bosta. Um completo perdedor. Mas que nunca deixou de acreditar nele mesmo e soube usar seu único talento, uma capacidade sobre-humana de aguentar porrada, pra se tornar um dos maiores lutadores do cinema.

Rocky é um boxeador amador e trabalha como capanga de um agiota. Ele não poderia ter arrumado um emprego pior, pois não tem coragem de espancar os devedores e por isso vive levando bronca de seu patrão. Porém, no ringue ele esquece a piedade, e logo na primeira luta que é mostrada, espanca seu adversário Spider Rico — mas não sem antes tomar muita pancada também.

Aqui já percebemos que as regras do boxe são bem flexíveis nessa história, pois Balboa contínua socando seu adversário já caído e não sofre nehuma punição. E também fica claro que estamos diante de um atleta exemplar, pois assim que a luta acaba, ainda em cima do ringue ele serra um cigarro de alguém da platéia. Depois de ganhar 45 dólares pela vitória, ele vai a pé pra casa e prova ser um cara da galera, pois pára pra tomar uns tragos com uns vagabundos que ficam cantando numa esquina (um dos vagabundos é Frank Stallone, irmão de Sly; nepotismo, a gente vê por aqui).

Nosso herói nutre uma paixãozinha por Adrian, uma nerd esquisitinha que trabalha em um pet shop. Como não é exatamente o rei do xaveco, ele usa suas tartarugas de estimação como desculpa pra visitar a loja e tentar impressioná-la com suas piadas de tiozão de churrasco, e até tira um sorrisinho sem graça dela nessa cena. Mas sua tentativa de romance é brutalmente interrompida pela patroa da garota, que a manda ir limpar bosta de gato. Empata-foda do caralho.

Adrian é irmã de Paulie, parceiro de birita de Rocky, que acaba dando uma ajudinha pro namoro dos dois finalmente acontecer. Mais uma vitória pro garanhão italiano, e também outra lição de vida: ele mostra que um homem de verdade não tem vergonha de namorar mina feia mesmo quando é zoado pelos amigos, pois toda mulher merece ser amada e principalmente respeitada.

Enquanto isso, Apollo, o Doutrinador, campeão mundial de boxe, está frustrado pois seu desafiante em uma luta pelo cinturão dos pesos pesados não poderá participar do evento. Pra não perder a viagem, ele arma um golpe publicitário e desafia um zé ruela qualquer a enfrentá-lo pelo título mundial. E, claro, esse zé ruela é Balboa, que nessa altura do campeonato já pensava em desistir do boxe, ainda mais depois de perder por inadimplência seu armário no ginásio comandado por Mickey, um velho desbocado que o considera um atraso de vida mas mesmo assim se dispõe a ajudá-lo a se preparar pra grande luta.

Começa então a exótica rotina de treinos, que inclui ovos crus no café da manhã, subir escadas correndo e espancar gado morto em um frigorífico; tudo isso num regime de abstinência sexual. Claro que com um treinamento assim o resultado não poderia ser outro: depois de 15 excruciantes assaltos, onde as regras do boxe profissional são sumariamente ignoradas, nosso herói, um ilustre desconhecido… perde por pontos. Qual é, galera, o cara veio do nada e aguentou até o fim contra um campeão mundial, não é pouca coisa.

Um fato interessante é que Sly era tão fodido na vida quanto seu personagem quando escreveu esse roteiro, mas só aceitou vendê-lo a um grande estúdio com a condição de ser o ator principal. A produção faturou um Oscar de melhor filme em 1976, batendo, entre outros, Taxi Driver de Martin Scorsese.

E não pára por aí, já que a saga do incansável boxeador teve mais cinco sequências, onde entre outras coisas ele sagrou-se campeão, enfrentou num mesmo filme Hulk Hogan e Mr T, acabou com a Guerra Fria e foi à falência, pra depois se aposentar com dignidade numa luta contra um adversário que era pelo menos 40 anos mais jovem que ele. E em breve chegará aos cinemas (ou já chegou, depende de quando você ler isso) um derivado da série, onde Rocky será o treinador do filho de Apollo. É esperar pra ver o que vem por aí.

Rocky — Um Lutador (Rocky)
País/ano de produção: EUA, 1976
Duração: 119 minutos
Direção: John G. Avildsen
Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith