Shaolin Contra os Filhos do Sol: a vingança nunca é plena

No texto sobre Os Clones de Bruce Lee, mencionei brevemente que era aficcionado por filmes de artes marciais na adolescência. Eu assistia toda semana a “Sessão Kickboxer” na Band e ainda gravava os filmes em fitas VHS (quando não tinha fita, gravava por cima dos especiais do Roberto Carlos da minha mãe).

Além disso, eu e meu grande amigo Julião, esse ainda mais viciado em filmes de porrada, costumávamos alugar fitas do gênero todo final de semana, e tínhamos até um sistema meio arcaico de pirataria que os mais velhos devem conhecer. Consistia em ligar dois vídeo-cassetes e copiar direto de uma fita pra outra. É, eu sei que isso é tosco, mas não tínhamos internet na época (até já existia, mas era cara); portanto esse era o único jeito de rever os filmes sem ter que pagar novas locações.

E o campeão dessas fitinhas era sem dúvida o grande Didi Mocó chinês Jackie Chan — imagine aquelas cenas de porrada e cambalhotas dos Trapalhões com lutas melhor coreografadas e você vai entender a comparação.

Aliás, as galhofas de Chan o transformaram no grande astro que ele é hoje. Em uma entrevista ele declarou que quis ser exatamente o oposto de Bruce Lee, pois não queria ser mais um imitador. Enquanto os personagens de Lee eram imbatíveis e de caráter íntegro, os de Chan em alguns casos apanhavam tanto quanto batiam, eram meio panacas e até um pouco folgados e pilantras às vezes, assim como o nosso trapalhão. O filme sobre o qual escrevo hoje é um bom exemplo disso, pois Chan começa sua jornada como um ladrãozinho fuleiro causador de encrenca.

A história se passa em Taiwan na época da Segunda Guerra Sino-Japonesa, que aconteceu por volta do final dos anos 1930 até a metade dos anos 1940 (calma, leitores; não é aula de história, até porque não tenho base pra isso. Mas caso queiram saber mais sobre o tema, dêem uma olhada aqui: http://tinyurl.com/gto94zh. Vocês podem se situar um pouquinho sobre os acontecimentos da época).

Como não poderia deixar de ser, uma vez que foi produzido na China, os acontecimentos são narrados do ponto de vista dos chineses, portanto os japoneses são retratados como opressores cruéis e impiedosos (também não discutiremos dívidas históricas nesse texto). Logo de cara, os estrangeiros mostram a que vieram e dão um belo cacete em Chan no meio da rua. Tá certo que ele provoca e meio que merece a sova, que só é interrompida com a intervenção de um mestre de kung fu chamado Hung (eu acho), que desenrola uma ideia com os nipônicos em seu idioma natal, salvando assim a pele de nosso atrapalhado herói.

Eu confesso que não consegui decorar os nomes dos personagens, pois há uma única opção de áudio do dvd e era uma dublagem horrível que mal dava pra entender. Tentei ver com legendas, mas isso só piorou as coisas, já que algumas vezes os diálogos escritos eram completamente diferentes dos falados, chegando a mudar o contexto de algumas cenas.

Por exemplo, na cena que acabei de descrever, Jackie Chan se estranha com os nipônicos no caminho do porto onde pratica seus furtos junto com seu velho tio. Chan se aproveita do fato de seus adversários não entenderem seu idioma e pergunta ao tio “devo dar uma lição neles?”. Na dublagem, o velho responde algo como “não faça isso, você vai nos meter em problemas”, enquanto que na legenda se lê “aproveite que ninguém está olhando e dê uma bela lição neles”. É como assistir a dois filmes diferentes ao mesmo tempo; só vendo pra crer.

No tal porto, os caminhos de Chan acabam se cruzando com o de um grupo de estudantes de kung fu vindos de Xangai dispostos a vingar seu mestre morto pelos japoneses. Porém, um dos membros do grupo já era esperado pelos japoneses e acaba preso; essa distração dá a Chan a oportunidade de roubar um valioso objeto da bagagem. O tal objeto, chamado pelos rebeldes vingativos de “cetro imperial”, é na verdade um nunchaku.

Paralelamente, um mestre japonês de karatê (cujo nome também não decorei, por isso o chamarei de Mestre Bigodinho) pretende unificar todas as academias de artes marciais de Taiwan e mantê-las sobre domínio nipônico, e para isso conta com a ajuda de outro mestre chinês pau mandado.

Mestre Pau Mandado quer que Chan se torne seu aluno, mas esse se recusa por não querer se unir aos nipônicos; isso enfurece Pau Mandado, que ordena que seus alunos espanquem o pobre jovem. Ele até tenta se defender usando o nunchaku roubado dos rebeldes, mas leva um couro mesmo assim.

Chan é encontrado quase morto em uma vala pelo mestre (que eu acredito se chamar) Hung e os rebeldes vingativos, e após a recuperação é convidado a se unir à escola deles. Uma das rebeldes é também mestra de kung fu, e não é a única guerreira dessa história, já que a filha de Mestre Bigodinho também é perita em baixar o sarrafo. Pra resumir, ao longo do filme descobriremos entre outras coisas que Mestre Bigodinho é um grande estraga festa, Chan é filho da puta (literalmente) e que a vingança nunca é plena; mata a alma e a envenena.

Este filme tem uma temática parecida com o clássico “Fúria do Dragão” (Fist of Fury) de Bruce Lee (nos Estados Unidos ele foi lançado com o título New Fist of Fury) e, assim como na obra de Lee, não tem um final feliz. Na verdade o escolhi pois queria falar sobre algum filme pré-Hollywood de Chan, e esse se destacou pelo roteiro mais sério (e pelo fato da maioria dos outros filmes dessa época serem quase iguais).

Os fãs de Chan podem estranhar um pouco pela ausência de piadinhas e acrobacias semelhantes às produções recentes do astro; me refiro, é claro, às produções de Hong-Kong, já que em Hollywood ele já virou Didi Mocó de vez…

Shaolin Contra os Filhos do Sol (New Fist Of Fury)
País/ano de produção: Hong Kong, 1976
Duração: 114 minutos
Direção: Wei Lo
Elenco: Jackie Chan, Nora Miao, Ming Cheng Chang