Street Fighter — A Última Batalha: a pá de cal na minha infância

Street Fighter foi o primeiro jogo em que gastei uma ficha num fliperama. Também gastei muito a pele do dedão jogando a versão do Super Nintendo na infância, e até hoje ainda dou uns hadoukens de vez em quando; portanto, posso dizer que tenho um certo apreço por essa série. Sendo assim, tive grandes expectativas quando soube que um filme baseado no jogo estava sendo produzido, e enormes decepções quando aluguei o VHS. Se hoje em dia são lançados dezenas de trailers e a internet massacra filmes meses antes de serem lançados, na época do Street Fighter não tínhamos muito além de um único trailer de cinema e algumas fotos em revistas. Assim, na maioria das vezes só nos restava torcer pro filme ser bom.

Tentarei ser breve e comentar minhas maiores decepções (já que são muitas), começando pelo protagonista Guile, interpretado pelo Grande Anão Branco Jean-Claude Van Damme. É um mal começo, pois nunca simpatizei muito com Van Damme, a não ser por uns poucos filmes e por quando o animado belga apareceu mais pego que o Bozo no programa do Gugu e fez isso: (https://youtu.be/fDlLB98tah4).

Todos que conhecem o jogo sabem que os protagonistas são Ryu e Ken, mas nessa adaptação eles têm papel secundário servindo às vezes até como alívio cômico, e se originalmente eles são retratados como estudantes de artes marciais que rodam o mundo buscando desafios, aqui eles são dois vigaristas que se metem em lutas ilegais e tráfico de armas — o que nos leva a Sagat. No jogo ele é um gigante ameaçador que parece ter mais de dois metros de altura; no filme ele é interpretado por um ator que aparenta ser baixinho (talvez a baixa estatura do protagonista tenha motivado uma certa encolhida nos demais personagens) e que, apesar de ser a cara do Jece Valadão, não mete medo em ninguém.

A impressão que dá é que os produtores pegaram um roteiro pronto e resolveram encaixar Street Fighter nele às pressas, do jeito que desse, pra não perder os direitos de produção e lucrar fácil com a popularidade do jogo na época: alguns personagens são jogados sem muito critério na história e suas características mais marcantes são pouco aproveitadas.

Entendo que certos elementos são muito espalhafatosos e seriam difíceis de encaixar nesse roteiro, e que provavelmente não fizeram uma história sobre um torneio de luta (o que tornaria muito mais fácil de explicar personagens que são lutadores) porque Van Damme já havia feito outros quinhentos filmes assim. Mas o grande problema, na minha opinião, é o foco justamente nos personagens mais difíceis de explicar, como Dhalsin e Blanka (cara, pra quê aquele Blanka?), que estão completamente deslocados no contexto do filme e tem as caracterizações mais ridículas possíveis. O único personagem realmente parecido com sua contraparte virtual é Vega, porém ele tem pouco tempo na tela com sua tradicional máscara (e por falar em máscaras, sempre gostei do visual dos soldados mascarados de Bison por achá-los parecidos com bonecos do Esquadrão Cobra de Comandos em Ação).

Outra coisa difícil de engolir é nosso destemido coronel Guile: como disse anteriormente, nunca simpatizei com seu intérprete, e aqui mais uma vez ele tenta fazer o tipo herói inabalável, mas tem o carisma de um pepino em conserva — simplesmente não dá pra torcer por aquele cara. Uma grata surpresa é o saudoso Raul Julia como o vilão Bison; Raul já estava visivelmente debilitado por um câncer que o mataria pouco tempo depois mas, talvez por ser o único ator de verdade nessa bomba, rouba a cena sempre que aparece, e convence como um louco ditador asiático (mesmo não sendo asiático).

E por falar em asiáticos, por quê diabos transformaram E.Honda em havaiano, se ele é um dos personagens mais obviamente japoneses da história? Provavelmente nunca saberemos, mas com tanta coisa ruim junta, na verdade pouco importa.

Street Fighter — A Última Batalha (Street Fighter)
País/ano de produção: EUA, 1994
Duração: 102 minutos
Direção: Steven E. de Souza 
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Raul Julia, Kylie Minogue, Ming-Na Wen

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