Final Space e o desafio de furar a superfície de um gênero
Como a série se sai no campo da ficção-científica: o gênero é respeitado? E se não, é possível funcionar mesmo assim?

A ficção-científica é um gênero narrativo da ficção especulativa que remonta ao século XIX, tendo como alguns de seu pioneiros, nomes como Mary Shelley, H.G. Wells, Jules Verne, Isaac Asimov entre outros. Não é simples definir claramente esse gênero, o que promove debates prolíficos até hoje. Um dos que se dispôs a debater o assunto é David Brin, no livro Through Stranger Eyes: Reviews, Introductions, Tributes & Iconoclastic Essays.
“… Muita gente tentou definir a ficção-científica. Eu gosto de chama-la de a literatura da exploração e mudança. Enquanto outros gêneros são obcecados pelas chamadas verdades eternas, a FC trabalha com a possibilidade de nossas crianças terem problemas diferentes. Elas podem, de fato, vir a ser diferentes do que nós temos sido…”. (Tradução livre do inglês)
Brin trata a ficção-científica como uma projeção de realidades que são moldadas de uma maneira específica pela influência de um ou mais aspectos particulares e, geralmente, fantasiosos, das mais variadas áreas do conhecimento científico como Sociologia, Física, Biologia e afins. É como se especulássemos como seria a influência da roda sob a sociedade numa época anterior a sua invenção.
Final Space é uma série animada, adulta e do gênero sci-fi de autoria de Olan Rogers para o canal de televisão americano TBS. Posteriormente a Netflix obteve os direitos sob a série e passou a exibi-la em seu serviço de streaming, dentro de seu catálogo de originais. Composta por, até agora, 10 episódios com aproximadamente 21 minutos de duração, a história narra as desventuras de Gary Goodspeed (voz do próprio Rogers), um cara comum (salvo pela excepcional falta de inteligência) que passa cinco anos encarcerado em uma nave no espaço após causar seríssimos danos ao patrimônio. Num dado momento Gary encontra uma pequena criaturinha verde vagando pelo vácuo do espaço, a chama de Mooncake e cria laços instantâneos com seu novo amigo. Acontece que a coisa mais fofa jamais representada na ficção é nada mais, nada menos que uma arma destruidora de planetas e parte do plano maligno arquitetado pelo vilão Lord Commander, que passa a perseguir o protagonista aonde quer que ele vá.
À medida que os episódios passam, o grupo principal muda, agregando novas figuras, perdendo antigas e mudando a dinâmica das relações enquanto segue em direção a uma solução para a trama. Inclusive, algo que ajuda a compreender que existe algo de linear nessa narrativa é o fato de, no início de todos os episódios, termos uma cena com Gary à deriva no espaço, enquanto conversa com HUE, a inteligência artificial que controla a nave onde estava preso, e conta o tempo até o que parece ser sua iminente morte. O recurso claramente tenta criar um senso de urgência e, principalmente, instigar a curiosidade para seja lá como o rapaz foi acabar naquela situação.
Uma coisa, porém, me chamou muito a atenção nas desventuras da tripulação da Galaxy One: para uma série de ficção-científica, falta ficção-científica. A fim de justificar minha tese, eu retomo o conceito apresentado logo no início do meu texto. Se tratarmos o gênero como algo que se propõe a especular sobre sociedades especialmente moldadas por um ou mais aspectos científicos, é essencial, para a execução dessa proposta, questionar, debater ou esmiuçar esses aspectos.
A citada Mary Shelley debate em seu livro Frankenstein, considerado a primeira obra de ficção-científica da história, implicações éticas e sociológicas de trazer algo de volta à vida, assim como propõe o método mais famoso e referenciado para fazê-lo, com o fantástico e megalômano momento em que o Dr. Victor Frankenstein canaliza um relâmpago até uma grotesca costura de partes de corpos humanos como forma de dar-lhe a centelha da vida. Esse tipo de trabalho é justamente o que Final Space não faz. Por mais que conceitos famosos de ficção-científica sejam referenciados constantemente, o trabalho de análise está feito em outras obras, não lá, sendo tratados da maneira mais natural possível na série. Não basta falar em um motor de dobra espacial. Em termos de sci-fi, seria necessário, no mínimo, comentar como a mera existência de uma tecnologia capaz de projetar um corpo tão grande como uma espaçonave mais rápido que a luz afetou aquele universo, mesmo que superficialmente.
Existem obras que trabalham a fundo esses aspectos científicos de forma mais técnica, dando ênfase à precisão científica enquanto outros focam menos na ciência em si e se dedicam aos reflexos dessas tecnologias sem exigir-se grande precisão técnica. A essas duas divisões, dá-se o nome de hard e soft sci-fi. Final Space se encaixaria no segundo grupo, mas, mesmo para essa classificação, a forma como trabalha a ciência de seu universo é superficial demais para gerar qualquer debate a respeito. Mesmo levando em conta que sequer é necessário realismo científico, a série não se salva de ser uma abordagem rasteira. Predecessores como Futurama ou Rick & Morty trabalhavam os conceitos sci-fi de forma muito mais complexa, mesmo aloprando esses conceitos com seu humor absurdo e “fora da caixinha”.
Lendo até aqui pode-se concluir que Final Space é uma série horrível, não é mesmo? E talvez fosse o caso, se ficção-científica fosse a única coisa que a série oferece.
Antes de qualquer coisa, Final Space é uma comédia. Sua função é fazer rir, divertir e te dar a impressão de que o tempo está passando mais rápido. Isso ela, ao menos para mim, fez bem, mesmo que de uma maneira torta. O humor usado é, na maioria das vezes, meio bobo, baseando-se em um monte de referências quase aleatórias, overeactings baratos e situações óbvias que se alternam com eventuais momentos de boa construção humorística e inversão real de expectativa, sem ter nada de realmente novo em sua fórmula. Mesmo a trama é bastante simples, envolvendo uma corrida contra o tempo e alguns obstáculos que servem tanto para permitir algum desenvolvimento de personagem, como para justificar a temporada ter 10 episódios. Mesmo considerando a falta de inteligência do protagonista, algumas decisões são tão intelectualmente questionáveis que parecem forçadas, numa tentativa idiota de fazer humor, só que na hora errada. Muitas dessas decisões vão de encontro à desesperadora corrida contra o tempo que constantemente é reiterada pela personagem de Quinn Aragone, uma superagente espacial e interesse romântico de Gary, mas é inútil. A coisa é tão extrema que quando a história se aproxima do clímax e o desespero dos personagens aumenta, me foi quase impossível não pensar em como eles se auto sabotaram nesse meio tempo.
Mas se o roteiro não é lá essas coisas, a trama é básica e a ficção-científica capenga, por que, diabos, eu deveria assistir essa série? Primeiro, evite pensar que Final Space tenta ser algo que não é. Em momento algum ela tenta ser híper-complexa ou debater profundamente ciência com o espectador. A ideia é referenciar obras de ficção-científica sem necessariamente fazer ficção-científica per si. Tudo isso deve ficar bem claro para que não pense que os criadores falharam em sua proposta. Segundo, dever assistir talvez não seja a melhor escolha de palavras. Tente pensar em “o que eu poderia tirar de bom dali”. Assim, talvez, você possa perceber o quase mágico carisma que Final Space tem.
É muito fácil se afeiçoar aos personagens e querer que se deem bem, porque eles simplesmente são incrivelmente legais. Até mesmo o protagonista, que pode irritar alguns com suas idiotices, consegue gerar empatia quando se esforça. Mooncake é, como já disse acima, A COISA MAIS FOFA DE TODA A FICÇÃO. O bicho de estimação perfeito, que qualquer um gostaria de ter (sendo que ele não faz bagunça, então é um bônus). Avogato é um gato humanoide (mesmo que negue ser um gato) que trabalha como caçador de recompensas (além de ser um parceiraço). isso é simplesmente muito legal. Quinn é uma personagem forte, com senso de dever, foco, inteligência e habilidade (sem falar que, para quem valoriza representatividade, ela é uma mulher negra que se destaca num campo tipicamente masculino). Até as inteligências artificiais são marcantes (SIM, até o KVN).
Apesar da minha aversão a avaliar personagens ficcionais com os exatos mesmos critérios que eu avalio seres-humanos, os dessa série conseguem me gerar apreço, mesmo sem uma construção inteligentíssima, complexidade, debates profundos, ou a famosa tridimensionalidade. Eles são humanos, legais, me divertem e é isso que importa. A história é bastante linear, mas funciona naquilo que precisa causar: necessidade dramática. Algo que mova motivações dos personagens para que eles sigam do ponto A ao ponto B da trama. No fim, são figuras simples, numa trama simples, que agem, muitas vezes de forma óbvia e, mesmo assim é muito fácil gostar deles, se interessar pelo que fazem e “comprar a briga” que travam. Eu fiz isso com um sorriso no rosto e o tempo passou muito rápido. Inclusive tendo terminado numa nota positiva e uma expectativa bem alta pela segunda temporada. Final Space é, simplesmente, uma ótima ficção-científica ruim.