Reminiscência

ou -Laudate-
ou -O pálido facho de luz empoeirada- 
ou -o Ar seco da memória que respiro-

As veias saltavam pálidas naquelas mãos. Levantava alto, na ponta dos dedos, hóstia daquela missa. Falava com esforço todo o lento e moroso da reza, aspirando o ar pesado carregado que estava da história e do pó acumulado de décadas. Na segunda fileira se via do altar um homem também velho. Por entre os dentes sussurrava alguma coisa que não se consegue ouvir, mas que com certeza não acompanhava as falas do padre. Fala de músculos tensos cada frase saindo como flechas dos lábios encobertos de bigode branco. Os olhos de arqueiro fixam Cristo crucificado suspenso atrás do altar. O olhar intensifica e compenetrado cerra os punhos como quem aperta de dor sem morfina os lençóis da cama de um hospital. Profere provocações como cobrador. A imagem sacra não responde ao convite de enfrentamento, lançando um olhar petrificado de desdém piedoso. Desiste por insistência. As pessoas fazem fila para a comunhão. Ele some pelos corredores laterais, auxiliado de uma bengala marcando o passo corrido.

Do que eu mais me lembro são dos relógios. O relógio e o não acontecer que viviam naquela casa. A poeira sempre constante no ar nunca se movia, congelada na luz que entrava pelas altas janelas. Os relógios eram três na antessala, dois na sala, um no hall da cozinha e um no escritório. Eu vagava pelos cômodos e ouvia os tique taques dessincronizados marcando a hora não passar. Eram milênios cada minuto que corria lá. 16h: cacofonia total dos carrilhões, cucos e relógios. Às vezes eu tinha a impressão de que a casa era mais velha que a própria tumba de Tutancâmon. Quando eu era jovem se fazia uma pergunta à que todos os meninos respondiam: buceta. Eu respondi: o cheiro de casa de gente velha. A pergunta era qual a melhor coisa que havia. Uma vez eu me enfiei pelas altas estantes do escritório, aquela poeira toda e cheiro de incenso me faziam espirrar a cada tragada de ar, como da primeira vez que fumei tabaco. Eu me divertia com as capas e nomes dos livros, já que o Ateneu estava fora dos meus desejos de leitura com oito anos de idade. Contei naquela vez 29 bíblias emprateleiradas. Todo natal meu bisavô surgia com uma nova, ou às vezes com algumas repetidas para servir de presente que nunca entregou. Não entendo essa coisa por bíblias. Numa delas deixei escorregar de dentro uma foto carcomida de jovens recém-casados. Qualquer coisa escrita numa letra de punho rápido e incompreensível. Agora estão em caixas.

Eu não lembro de minha bisavó. O porta-retratos na sala de música sempre esteve lá, oposto e de frente ao piano. Me sentei uma vez no banco do piano e me pus a olhar aquela pessoa que diziam ser minha bisavó; Ela está em preto e branco e muito mais nova do que eu jamais a vi. Eu simplesmente não conseguia imaginar sua juventude. Pessoas tinham fotos de criança mas não significava que eram crianças uma vez na vida. Ela parecia feliz. Parte do não acontecer daquela casa era da constante vigilância de meu bisavô, que apesar de nunca ter repreendido verbalmente sempre surgia como um observador orwelliano onipresente que me fazia desistir de qualquer acontecimento. Eu tinha medo de sua presença. O piano foi sempre um objeto de desejo inatingível: não se podia encostar no piano.

Eu lembro de minha bisavó somente em uma memória. Minto, duas. Eu lembro do café forte que saía da cozinha e era posto à mesa. Ela lia uma revista de tricotar em uma ponta da mesa e eu sentado ao meio observava a contagem dos pontos. Na outra ponta meu avô sentava com o jornal estendido por toda sua cara, sobrando apenas seu cabelo branco por de cima da vista. De tempos em tempos se ouvia

o virar das folhas;

minha avó contando em pensamento alto os pontos;

e os onipresentes tique taques dos pêndulos dos relógios.

Ela servia o café, tomava o adoçante e fazia jorrar na xícara. Eu não conseguia entender como se bebia aquilo tão amargo e tão doce.

Me trouxeram para vê-la um dia. No lugar da cama havia uma maca. Fui levantado. Lhe tinham sumido com uma das pernas. Mãe, como é possível, sumiram com uma das pernas de minha avó. Onde está a perna perdida. Diabetes. Era a palavra que me diziam. Uma tal de diabetes havia sumido com a perna de minha avó. Não era uma palavra intimidadora, mas ao ver minha avó pela metade as quatro sílabas ficaram geladas ao toque. Eu sussurrava-as quando via o frasco de adoçante e sentia o bisturi gelado correndo pela carne. Naquela semana eu não comi açúcar.

O não acontecer veio junto da partida da vó. Ela quem dava o tempo. Os alunos que não seguiam o compasso levavam logo uma reguada nas juntas dos dedos. Ela era old-school. Quando eu estava na idade de aprender ela já não estava na idade de ensinar. Nem de tocar. Eu não lembro de ter visto ela tocando, mas lembro de ter ouvido. Ela é jovem e toca com viço os dedos espalmados alcançando e saltando as teclas. Me parece que eu queria tanto ter essa memória que ela acabou surgindo, cultivada no carecer, na terra de uma nostalgia que não vivi.

Um dia eu decidi dar um fim ao não acontecer. Eu esperei os olhos vigilantes saírem da casa e fui ao piano. Sabia onde estavam as chaves. Ocasionalmente ele abria, mas não tocava nas teclas: depositava uma memória e tornava a trancar, escondendo a chave por entre as bíblias na biblioteca. Eu abri. As teclas estavam empoeiradas como se estivessem assim desde que foram feitas. Eu como toda boa criança martelei-as e fiz cacofonia e algazarra daquela sessão de improvisação com meu primo. Mal alcançava o teclado, apoiava-me na ponta do banco para ter altura. Não tardou. O passo clicado das solas duras chegou à sala de música e sem mover uma palavra fez as crianças dispersarem e o piano se fechar. Viu todas aquelas memórias espalhadas pelo ar. Os óculos embaçavam tanto era a transpiração. Recolheu todas as memórias com cuidado para não se ferir, guardou-as dentro do piano e trancou novamente: aquilo nunca mais deveria de haver. Dito e feito. A chave sumira.

Na outra semana retorna à igreja. Do outro lado a imagem na cruz permanece petrificado no desdém piedoso. Sozinho, pouco antes da missa. Senta-se, junta as mãos de veias aparentes e não baixa a cabeça. Encara a imagem sacra. Nós nos aproximamos de seu rosto envelhecido. A luz atravessa dos vitrais, espalha-se e reflete no cristalino dos olhos, concentrados no altar. A boca entreabre-se, a poeira do ar redemoinha-se com a respiração. Acusa o traído de traidor.

O coral canta monotom. As últimas luzes escorrem do vitral. Escorrem do cenário. Escorrem do rosto. A última luz que resta ilumina somente os pontos de poeira estáticos no ar. Eles levaram-na antes de leva-lo. Essa foi sua penitência.