E só restou cinzas

Willian Araujo
Sep 3, 2018 · 3 min read

Hoje eu acordei um pouco desanimado. É até normal. Em alguns dias é plenamente aceitável acordar com aquela sensação de cansaço ou até com um pouco de tristeza. Normal. Já acordei várias vezes me sentindo mal. A mente da gente é uma arma perigosa que fica 24h apontada para a nossa cabeça, só esperando o momento certo para disparar, e às vezes ela dispara quando você menos espera. Mas ontem, não foi o lugar interior e sombrio da mente que disparou, e sim algo externo: um incêndio. O incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

O Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista, é, ou era, a mais antiga instituição científica brasileira, e um dos maiores museus de história natural da América Latina. O museu foi fundado por do por Dom João VI em 1818, fez aniversário de 200 anos agora em junho, e contava com aproximadamente 20 milhões de itens catalogados. O acervo era formado por itens arqueológicos, de zoologia, botânica, geografia, geologia, entre outros. Tudo adquirido através de doações, aquisições, trocas e escavações. Tudo transformado em cinzas pelo incêndio.

Entre os itens queimados, estavam fósseis de dinossauros, insetos e plantas; esqueletos de diversos animais, alguns extintos; obras de cerâmica que datavam milhares de anos; quadros igualmente antigos e raros; relíquias egípcias; livros e documentos originais. E isso foi somente uma parcela do que foi perdido no incêndio. No caos que vinha sendo alimentado com o descaso de anos. Descaso que teve a contribuição de pessoas que estão no poder hoje e que lamentam algo que eles mesmos ajudaram a criar.

Mas, eu volto ao início onde eu escrevi que acordei com um sentimento de desânimo, pois esse é o foco principal desse texto. Esse terrível sentimento se deu por causa de uma memória que eu tinha do museu, que estava guardada lá no fundo da minha mente bagunçada. Guardada há anos, diga-se de passagem. Mas que foi despertada por esse horrível fogo: A primeira vez que eu fui no museu e vi uma imagem que ficou registrada para sempre na minha mente.

Essa imagem era a de um enorme esqueleto de uma baleia jubarte. Quando eu escrevo enorme, é porque a minha mente de criança pequena, a via como algo extraordinariamente fantástico. Imagine só você, criança, vivendo em seu pequeno mundo de brincadeiras, de desenhos, filmes de dinossauros e bonecos, fazendo uma visita ao museu pela primeira vez e logo de cara se depara com algo que fugia completamente de tudo o que você já tinha visto na sua curta vida. Um enorme esqueleto de baleia pendurado no teto por fios de aço. Foi essa imagem que ficou gravada na minha cabeça. E é só lá que está guardada com o carinho que a nostalgia permite. Fotografias nunca irão substituir o sentimento maravilhoso de ver algo tão surreal e lindo.

Ontem, lendo diversas notícias na internet, vi que esse mesmo esqueleto estava fora de exposição por falta de verbas para reparo. Hoje ele nem existe mais, assim como todo o resto do museu. Tudo o que restou foram as cinzas que voaram livres para o céu escuro e sombrio do Rio de Janeiro e o desânimo.

Willian Araujo
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