Um Pedaço de Madeira e Aço e a Vida

“A história de um banco, um simples banco de praça pública, que vê pessoas passarem durante horas, dias, estações, anos… Muitas passam, algumas param, outras voltam e há aquelas que esperam… O banco é um refúgio, uma ilha, um abrigo, um palco… um balé de anônimos conduzidos por uma coreografia habilmente orquestrada, em que pequenas curiosidades, situações incríveis e encontros surpreendentes dão à luz uma história singular, por vezes cômica, por vezes trágica. O quadrinista Chabouté (Moby Dick), com sua arte inigualável e seu excepcional domínio do preto e branco, tece uma narrativa gráfica com a magia de Jacques Tati, a beleza de Chaplin e pitadas de Marcel Marceau e Buster Keaton… 340 páginas de um drama cujo herói é um banco.”
Confesso que “Um pedaço de madeira e aço” me surpreendeu ainda mais na releitura. Numa tentativa de escrever sobre algumas obras que eu mais gostei até agora em 2018, peguei a HQ de Christophe Chabouté na estante e a reli. Tirando alguns momentos dramáticos, eu não consegui tirar o sorriso bobo do rosto ao ler essa obra. O sorriso de ler algo realmente tocante e real. E eu vou falar um pouco sobre essa HQ e sobre o que eu achei dela.
O autor francês Christophe Chabouté não é mais desconhecido do público leitor brasileiro. A editora Pipoca & Nanquim já havia publicado Moby Dick, do quadrinista, no ano passado (que ainda não li). Como o próprio nome já entrega, Moby Dick é uma adaptação em quadrinhos do romance clássico de Herman Melville. Apesar de não ter lido, posso escrever aqui que a HQ é uma das coisas mais lindas já publicadas por aqui. E é toda em preto em branco. Simplesmente maravilhosa.
E novamente, em maio deste ano, a editora publicou outra obra de Chabouté: “Un peu de bois et d’acier”, ou, “Um pedaço de madeira e aço”. Uma obra prima da narrativa gráfica, em preto e branco, que mostra uma história reflexiva e um tanto inusitada. Na HQ, nós acompanhamos o dia a dia de um banco de praça. Isso mesmo. Um banco de praça. E o mais legal de tudo é que a história não tem diálogos. Sim. Sem diálogos. É uma história silenciosa, muda. Não tem absolutamente nenhum balão de diálogo ou onomatopeia. Nada. Somente um simples pedaço de madeira e aço.

Tudo isso pode parecer estranho para o leitor. Mas não é. Em momento algum a história se torna ruim por causa disso. O banco, que é o protagonista da história, é o principal agente que liga e que move a narrativa do livro. É nele que se sentam dois velhinhos que compartilham um doce; onde um skatista faz uma manobra; onde um homem toca um instrumento musical; onde uma senhora senta para ler um livro (ela gera várias cenas cômicas); onde um cachorro faz xixi etc. Enfim, são diversos personagens que passam e se sentam no banco. E é isso que faz a história ser tão divertida. Nós acompanhamos o passar das estações e dos meses, e vemos como está a vida de cada um desses personagens que ocasionalmente volta a se sentar no banco. A vida, com suas misérias, alegrias, tristezas e vitórias é muito bem representada em “Um Pedaço de Madeira e Aço”. E isso, sem usar diálogo algum.
Passar tantas emoções sem utilizar diálogo é uma tarefa realmente difícil. Somente um mestre como Chabouté é capaz de tal coisa. Sua arte em preto e branco é responsável por todos os momentos dos personagens e por levar a emoção ao leitor. Ao longo da leitura, eu fui tragado pelos detalhes da arte, que não são poucos: um olhar desolado ou feliz; um sorriso; um detalhe na pintura do banco (que está em vários quadros); um nome de livro. Enfim, são tantos detalhes na arte de Chabouté, que fica impossível escrever aqui. Somente uma leitura atenta pode trazer uma bela experiência para você, leitor.

A vida em “Um pedaço de madeira e aço” é retratada de forma magistral. As emoções que cada quadrinho passa, cada pequena história que surge no banco da praça, cada pessoa, são extremamente naturais. Vivas. São vidas e trajetórias de gente normal, como eu e você, que vai de um lugar a outro, com uma história de vida diferente. Com alegrias e tristezas. Sem dúvida é um quadrinho reflexivo, que vai fazer você se emocionar, rir, e quem sabe, chorar.
Com certeza absoluta “Um pedaço de madeira e aço” me fez (e vai fazer você) prestar mais atenção nos pequenos detalhes da natureza, das ruas e das pessoas. Imaginar o que cada pessoa carrega consigo; que história ela tem; quais medos, esperanças e sonhos que ela guarda dentro de si. Qual silêncio será que cada um preserva?
“Um pedaço de madeira e aço” está à venda na Amazon por R$ 54,90, formato 23,2 x 15,4, capa dura e 340 páginas.

