Vamos falar abertamente?

Há algum tempo estou vendo a discussão sobre machismo nerd circulando na Internet. Que tal a gente conversar sobre machismo, independente do núcleo?

Eu tinha 14 anos e sentia vergonha de mim. Eu, que naquela época exibia um corpão de uma jogadora de handebol/capoeirista/dançarina, andava na rua e chamava a atenção. Não estou falando disto com orgulho, veja bem. Estou falando com a mesma vergonha que sentia na época.

Receber cantadas na rua nunca foi legal. Uma menina de 14 anos que ouve baixaria na rua é terrível. Mas, por algum motivo, sempre me senti um tanto culpada, como se isso fosse normal e que se houvesse alguém errada, era eu. Naquela época eu andava com um inseparável moletom na cintura — um meio de me “proteger” dos olhares invasivos dos homens, que insistiam que olhar para a minha bunda era normal.

Vamos fazer um pequeno exercício mental. Lembre-se das meninas quando você tinha 14 anos. E meninas de 14 anos que você conhece agora. Muitas delas usavam/usam moletom na cintura ou roupa larga, né? Pelo mesmo motivo.

Quando você é uma adolescente, a realidade da vida onde homens se sentem no pleno direito de olhar para você e dizer o que bem entendem é muito assustador. Você sabe que estupros acontecem e há um medo de isto acontecer com você de forma iminente. E depois que cresce, continua sentindo este medo, não se engane. Só que quando você é adolescente…se sente mais vulnerável.

Quando me sentia agredida por aquelas “investidas” masculinas, e humilhada confessava para alguém o sentimento horrível que batia em mim, recebia como resposta de que era “normal”, que “homens são assim”, que “faz parte” e que “se te olham, é porque é bonita!”. Nunca fiquei satisfeita com estas respostas.

Aos poucos, depois de mais velha, comecei a ouvir sobre machismo e cultura do estupro. Daí, então, pude entender. Culturalmente, a ideia de que a mulher pode ser olhada, ouvir porcarias e ser assediada é normal. Cultura errada. E ela piora ainda mais quando a mulher é tocada, agredida, estuprada e ela muitas vezes é culpabilizada. Nunca é pensado na mulher e como ela se sente, até porque se ela não aceita, acaba caindo nos rótulos mais esdrúxulos como “recalcada”, “fresca” e, num cúmulo, “está se fazendo de difícil”.

Em tempos onde o tal “machismo nerd” vira a pauta-de-todos, que tal a gente tirar o rótulo e falar de um machismo geral, de uma sociedade em geral? Que tal a gente abrir o jogo e falar sobre esta sociedade errada?

Se você é homem, imagine-se andando na rua com medo de ser assaltado. Ok, isso é rotina para várias pessoas. Mas e se os ladrões passassem por você olhando fixamente para seus bolsos, para o celular que está na sua mão, para sua mochila, sem qualquer constrangimento ou sem tentar disfarçar? Imagine então que estes ladrões digam, em alta voz, “QUE CELULAR LEGAL! EU VOU ROUBAR ELE DE VOCÊ E LEVAR PRA CASA! TE EMPURRO NO CHÃO E NÃO TE DOU NEM TEMPO DE LEVANTAR!”. Por favor, imagine a cena. Pense na tensão de sair para a rua. Pense no medo. Mulheres sentem isso diariamente.

Extremo? Talvez. Mas torna as coisas mais fáceis de serem entendidas.

Ainda com este exemplo, imagine que você, após passar por toda esta situação, venha me contar tudo e eu responda com um “Ah, ele não faria isso contigo! Ele só falou porque teu celular é legal mesmo. Aliás, tu nem devia andar com o celular por aí. Foi pra te elogiar”. Você ficaria indignado, não?

Quando eu tinha 14 anos e andava na rua com moletom na cintura, sentia um leve pânico de andar sozinha, mesmo que fosse por uma quadra. Imagine as coisas horríveis que eu ouvia. Hoje me dei conta do quanto sentia vergonha de mim e sobre como até hoje isso dói. Todo o pânico que eu sentia era legitimado por uma sociedade que aceita que homens façam este tipo de investidas.

Se você sente esta mesma dor, minha solidariedade. Você está certa de sentir assim, você não está doida.

Haverão muitos que me acusarão de frescura, problemas psicológicos ou qualquer outra merda que lhe vier em mente para justificar que “o mundo é assim, não vai mudar, aceite, é normal”. Mas não é. Está na hora de falarmos sobre este sentimento que as mulheres sentem desde muito novas e sobre como aceitamos isso como marionetes de uma cultura bizarra. Está na hora de mudar.

Meninas de 14 anos não devem sentir vergonha de si mesmas.