OS QUATRO ELEMENTOS

Um ritual espontâneo, uma experiência mágica

Estava frio, muito frio. E cinzento. 
Mesmo assim, ao tirar, por instantes, os olhos da tela do computador e olhar pela janela, chamou-me atenção a dança das árvores sob o impulso do vento forte. 
Não resisti. 
Desvencilhei-me gentilmente de Yury, meu adorável cãozinho, que ali estava deitado, enroscado aos meus pés, dirigi-me até a janela e a escancarei. 
Então, convidei o vento poderoso para que entrasse! E ele não se fez de rogado. Passou logo por mim, me beijando gelado. 
Ali, naquele momento, aproveitando a poderosa presença, com toda vontade do meu ser, pedi à senhora dos ventos um favor especial. 
Pedi para varrer da minha existência tudo que não seja mais útil e necessário na minha jornada evolutiva. Tudo que anda desnecessariamente guardado, esquecido em um canto, acumulando pó ou bolor... e retendo energias estagnadas. 
Fechei os olhos e permaneci ali, por alguns instantes, envolvida e absorvida pelo efeito daquela força, me sentindo verdadeiramente entregue àquela ação purificadora. 
Até que senti os pingos... O vento havia convidado a chuva para entrar naquela dança. Precisei fechar a janela porque já não era só o frio... Algumas coisas já estavam a se molhar, dentro de casa.
Ainda assim, depois de fechar a janela, continuei a contemplar a chuva, através da vidraça. 
Pedi então à senhora das águas que lavasse minhas emoções, levando com ela qualquer resquício de mágoa ou ressentimento que ainda se escondesse sob as emoções harmonizadas do meu interior. 
E foi num suspiro profundo que percebi o quanto estava sendo atendida... Uma lágrima deslizou na face esquerda e eu soube que era apenas um sinal do muito que acontecia dentro de mim. E um sorriso de gratidão acolheu a lágrima. 
O frio estava agora mais intenso e senti uma vontade irresistível de acender o fogo na lareira. 
Quando ajeitava a lenha e tentava que as chamas começassem a arder, entendi que isto era mais uma etapa do processo de purificação que eu, intuitivamente, havia iniciado. 
Tão logo o fogo se fez presente, pedi a ele que consumisse definitivamente qualquer vestígio de energias deletérias, dissonantes e esvaziadoras que eu viesse, de alguma forma, alimentando em mim ou ao meu redor. 
A dança das labaredas parecia interagir com minha intenção. Eu me senti aquecer, por dentro e por fora. E, no momento em que as chamas se mostraram mais vivas e poderosas, eu senti todo efeito transmutador daquele elemento, atendendo ao meu apelo. Minhas pálpebras pesaram. Senti necessidade de fechar os olhos e ainda assim, com os olhos fechados, continuei a enxergar o bailado das chamas. 
Me senti leve e abençoada. 
Não fazia ideia de quanto tempo se havia passado desde que aquilo tudo começara... Parecia ter sido apenas minutos, mas na verdade, devem ter se passado horas... Mas eis que novamente olho para a janela e, desta vez, sou surpreendida por alguns raios de sol que insistiam em entrar, brilhando. O vento já havia cessado e ainda caia um chuvisco. 
A presença do sol, naquele fim de tarde parecia vir inundar-me, como que a preencher com uma nova energia os espaços deixados por tudo aquilo que eu havia decidido liberar. No momento seguinte, não tive mesmo nenhuma dúvida quanto a isso e voltei à janela, abrindo-a para que eu pudesse inspirar e absorver o dourado daqueles pálidos raios de sol. 
Pedi que aquela energia me alimentasse, se integrando a cada partícula e cada aspecto do meu ser. 
Permaneci de olhos fechados, sentindo a magia e força daquele momento. Aquilo foi tão intenso que eu podia perceber ondas de energia percorrendo meu corpo. 
Quando abri novamente os olhos, não pude conter um grito da mais pura alegria! Deparei-me com um fragmento de arco-íris que se exibia por entre rasgos nas nuvens ainda pesadas no horizonte. 
Não podia terminar de forma mais auspiciosa o meu ritual particular de purificação com os elementos da natureza, que se manifestaram tão generosamente naquele dia. 
Invoquei a energia de cada cor do arco-íris, desejando que suas características e atributos benéficos fossem por mim incorporados. 
Assim, pedi ao vermelho para me trazer vigor. 
Que o laranja, me encha de entusiasmo e alegria. 
Ao amarelo, solicitei aumentar minha capacidade mental e equilibrar meus pensamentos. 
Que o verde me fortaleça a esperança e favoreça toda cura em mim. 
O azul me traga paz de espírito e a certeza do quanto sou protegida. 
Ao índigo, pedi que me eleve espiritualmente e potencialize minha intuição. 
Que o violeta transmute em mim, tudo que necessita ser transmutado. 
A visão do arco-íris, ia pouco a pouco se desfazendo, mas eu pude absorver e conservar dentro de mim toda aquela magnífica vibração. 
Agradeci. Ao Universo, à natureza, a cada elemento que se manifestou e me auxiliou naquele dia. 
Agradeci a mim mesma, por haver tido a percepção para aproveitar o que me era oferecido. 
Ao fechar a janela e voltar a observar o ambiente da minha sala, tudo me parecia transformado para melhor. Tudo se mostrava mais bonito, mais vivo, mais agradável! 
Constatei, uma vez mais: o que vemos fora é reflexo do que trazemos dentro. 
E assim é!
(texto original em 24/01/2015)