Liverpool-u23 | O começo dos rapazes

António Duarte
Sep 4, 2018 · 7 min read
Os reds no Etihad Stadium.

Os sub-23 do Liverpool ainda não venceram nesta temporada na Premier League 2. Os reds contam com 3 empates e 1 derrota na competição, mas deixam boas indicações em campo. Nesta pausa da data FIFA aproveito para dar um feedback dos pupilos de Neil Critchley no começo de temporada.

O Liverpool-Under23 opta por jogar no 4x3x3 num modelo semelhante ao da equipe principal (como não podia deixar de ser). A equipe copia também alguns mecanismos e características que foram idealizadas por Jürgen Klopp no Liverpool. É uma equipe de contra-golpe total, bastante intensa, executa o seu pressing numa zona alta do campo, é pouco paciente a trocar a bola, preferindo as transições rápidas, gosta do jogo exterior e de fazer flutuar os seus pontas para dentro no apoio ao centro-avante e de projetar os seus laterais.

O 1x4x3x3 do Liverpool sub-23.

Há também pequenos detalhes, dependendo dos momentos do jogo, tais como: se o oponente pressiona alto com 3 jogadores, os sub-23 optam por uma saída pelo chão com o volante descendo no meio dos centrais (saída lavolpiana), os interiores descem para oferecer linha de passe (3–2), os laterais espetam-se nas faixas do campo dando amplitude e os extremos aproximam-se do atacante ficando em diagonal com os laterais e com o ‘’9’’ dando profundidade; ou no momento da organização defensiva recompor os pontas na linhas dos meio campistas e formar um 4x5x1.

Organização ofensiva do Liverpool sub-23.

Obviamente que os jogadores têm características diferentes e por isso nem tudo pode ser igual ao time principal. Mantém o estilo de volante regista, Pedro Chirivella é um jogador mais a ver com as características de Jordan Henderson e Georginio Wijnaldum. Já os habituais interiores, Davies e Virtue, têm outro tipo de recursos, ambos são mais físicos e que gostam bastante de pisar na área. Os pontas são mais de linha e gostam de fazer os movimentos interiores com bola (Adekanye, Curtis Jones ou o próprio Lewis quando joga por lá). Isso também tem a ver com o facto de não haver um falso 9, tanto Liam Millar como Glen McAuley são mais referências de área.

Organização defensiva em 4x5x1.

As não vitórias até agora não se devem, de certeza, aos guardiões das nossas redes. Critchley tem optado por alternar a cada jogo Kamil Grabara e Caoimhin Kelleher e ambos corresponderam bem às expetativas. Diria até que, de uma maneira geral, são as maiores promessas desta escola dos sub-23 em 2018/19. Ambos tiveram paradas importantes nos seus respetivos jogos e protegem bem a linha defensiva alta no campo. Ficaram muitas vezes em situações de 1v1 por erros de companheiros e responderam de forma positiva com uma mancha repentina, bloqueando a tomada de decisão dos adversários.

Pressing alto no campo congestionando a organização ofensiva do adversário.

A saída de Corey Whelan por empréstimo abriu portas a Neco Williams. O lateral direito de projeção ofensiva tem estado bem no apoio a Adekanye atacando bem o espaço deixado pelo canhoto. Tem tido dificuldades na transição defensiva.

Ao que tudo indica, Rafa Camacho está sendo transformado num lateral. O português figurou na pré-temporada da equipe principal atuando na linha defensiva na maioria das vezes e a sua capacidade de fogo impressionou Klopp. Nota-se que ainda não está habituado às rotinas de lateral e tem dificuldades em defender por dentro, deixando muito espaço entre ele e o central — algo que estará sendo trabalhado.

Adam Lewis tem sido uma das sensações de 2018/19 por também ter uma grande progressão ofensiva. O canhoto é bastante agudo e chega com facilidade à linha de fundo para cruzamentos perigosos. É um jogador interessante no passe, mas tem tido também, à semelhança da maioria dos laterais das categorias de base, dificuldades no seu posicionamento defensivo. O jogo contra o Tottenham foi de azar extremo, começando com uma grande penalidade falhada, deixar-se ser driblado facilmente e permitir muito espaço nas costas. Já surgem notícias de que pode figurar no time principal nos próximos anos e isso será benéfico.

Saída lavolpiana em 3–2.

Tanto Nathaniel Phillips como George Johnston têm tido muito trabalho nas transições do time. Phillips lidera com alguma naturalidade a linha defensiva e trouxe estabilidade e conforto a Johnston. O último desgarra mais da linha para ir ao choque às primeiras bolas e Phillips, de forma mais inteligente, tem feito um bom trabalho de coberturas e duelos pelo chão. Já havia demonstrado na pré-temporada a sua qualidade técnica com bola no pé e mantém-na com imperialismo na saída dos reds, mas com melhor dosagem de quando deve utilizar. Começa a construir-se uma solidez.

A equipe procura bastante Pedro Chirivella para controlar o jogo. O capitão tem feito uma sociedade muito positiva com Davies e Virtue, que agora têm mais liberdade de movimentos. O jogo contra o Tottenham U23 foi o seu ponto alto até agora, onde chegou com à vontade à área para desbloquear jogo, mas com insucesso. A sua capacidade de distribuir o jogo é única nos sub-23 e faz uso da sua maior experiência como jogador para decidir melhor os momentos onde deve soltar a bola, inverter o corredor, ou pausá-lo.

Matty Virtue costuma descair mais pelo lado direito, no half-space do campo, para as associações com o lateral e Adekanye. Pisa bastante na área e é o elemento mais criativo dos interiores. O seu companheiro interior, Isaac Christie-Davies, tem mais características de explosão e imposição física, demonstrando ser um grande apoio ao centro avante. É quase como contar com um atacante surpresa que rompe desde trás. Os movimentos de ambos são determinantes para a equipe.

Superioridade quantitativa no campo adversário.

A estrela com mais qualidade técnica destes rapazes é, sem qualquer tipo de dúvida, Bobby Adekanye. O holandês é um poço de explosão, arrancada e partida para cima do seu adversário em qualquer situação. Dêem-lhe 5 metros para correr e ele vai aproveitar esse curto espaço com mudanças de direção repentinas. É um canhoto imprevisível, que tanto gosta de puxar para dentro como procurar a linha de fundo. A sua vitória pessoal pode ser exagerada em vários momentos, pois não consegue ainda fazer boas combinações com os colegas. É da sua natureza, mas terá que melhorar esse aspeto se quiser figurar algo maior. Faço a comparação com Adama Traoré, do Wolverhampton.

Nos centroavantes temos dois jogadores distintos. Sem bola agrada-me mais Glen McAuley, pois a sua inteligência na pressão para cortar várias linhas de passe é um ponto mais vantajoso para a equipe. É um jogador mais disponível para outro tipo de trabalho. As suas desmarcações para pequenos pivôs dão uma maior envolvência com o time e o setor ofensivo fica mais próximo do original. No entanto, nem tudo tem que ser próximo da equipe principal e Liam Millar tem uma qualidade de finalização bem maior que McAuley. Em tese é mais jogador que o irlandês num ponto de vista geral. É mais incisivo, aparece melhor para finalizar e até com melhor displicência para o fazer. Não tem todo os outros requisitos de McAuley, porque tem mais características terminais dentro de área.

Nova formação de triângulo pelo lado direito com Virtue na base, Adekanye por dentro e Williams dando amplitude.

Creio que um bom ponto para a formação nas categorias de base é apostar mais no desempenho do jovem do que propriamente estar preocupado em vencer títulos ou em obter resultados forçadamente. Claro que será sempre importante impingir uma mentalidade vencedora nos atletas e os títulos tornam-te mais calejados neste mundo. Contudo, são bons indícios e com certeza que os resultados virão de acordo com as afinações do time. Os momentos chave ainda estão a ser trabalhados e isso vê-se nos momentos cruciais do jogo em que os rapazes se deixam levar pela emoção.

Ao serviço das seleções base ou principais estarão: Liam Millar, Adam Lewis, Curtis Jones, Glen McAuley, Kamil Grabara, Rafa Camacho, Isaac Christie-Davies e Neco Williams.

António Duarte

Written by

Treinador de futebol da UEFA na AF Porto. Análise de futebol numa visão romântica do jogo. Twitter: @ShanklyLegacy

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