COLUNA #13: O Pragmatismo Inteligente

António Duarte
Sep 2, 2018 · 5 min read
Arnold, Milner, Firmino, Van Dijk, Robertson, Wijnaldum, Mané e Henderson.

Hora de almoço em Inglaterra e o Liverpool disputava um encontro complicado no King Power Stadium frente a um Leicester bem reforçado e que, nos últimos tempos, sempre dificulta a tarefa ao Liverpool. De resto, a maioria dos clubes o faz, pois a Premier League tem esse caráter particular de disputar todos os jogos até ao fim.

Posicionamento médio dos jogadores do Liverpool (SofaScore) com um dos mais baixos no campo da era Klopp.

Sem a rotação de Naby Keïta, foi Jordan Henderson quem saltou para o 11 e a fixar-se como volante, soltando Georginio Wijnaldum pela direita e James Milner mais acomodado no seu papel típico de mezz’ala. O adversário esteve maioritariamente num bloco médio, congestionando algumas vezes a saída de bola do Liverpool, das quais nem sempre teve um critério para sair de forma confortável.

O primeiro gol surge após um envolvimento dinâmico com Sadio Mané dando profundidade, Roberto Firmino se fixando entrelinhas e Mohamed Salah atravessando o campo para associar com os colegas. É possível observar ainda Wijnaldum se aproximando pelo ‘’half-space’’ direito.

O capitão dá uma estabilidade à equipe que nenhum dos outros jogadores da posição “5/6" (depende da sua região) consegue dar. Após o gol, o Liverpool sentiu-se confortável sem bola e jogando no seu campo de defesa sob as ordens de Henderson, bloqueando a criatividade do Leicester. Não teve que agredir durante todo o período dos primeiros 45 minutos e decidia os lances de forma mais mastigada para não cair na atração de quebrar o jogo. Consegue aumentar a vantagem numa bola parada e gerir o resultado de forma inteligente. Foi um tempo onde o jogo pensado venceu a velocidade.

A bola parada ofensiva do Liverpool (texto em breve) que resultou no 2x0. Um ‘’L’’ zonal do Leicester e marcações individuais à frente da pequena área. Antes da bola partir Joe Gomez livra-se de Ghezzal para atacar o 1º poste e Van Dijk, olhando para o companheiro, bloqueia aquela zona para quem o acompanha ter que dar a volta por detrás de outros jogadores. O cruzamento vem largo e bola passa por Gomez, mas momentos antes Maddison deixa escapar Firmino e este finaliza sozinho aumentando o placar. Obviamente que quem vem acelerado terá maior impulso e repare-se como Gomez salta bem mais alto que Morgan estático na posição. Provavelmente a bola seria para o central inglês, mas acabou por ter outro destino e… é um destino feliz!

Se o primeiro tempo significou conforto na organização defensiva, o segundo trouxe o descontrole perante o atrevimento do Leicester em querer reduzir o placar. É certo que ainda se trabalha as situações de saída apoiada, mas o Liverpool esteve longe de conseguir ligar os seus setores. Quando tentava a bola longa o Leicester conseguia ganhar as segundas bolas com mais critério através de Ndidi e Mendy — algo que não é comum no Liverpool.

Pressionar alto significa abrir espaços atrás. Isso seria o cenário perfeito para o clube de Merseyside, mas o trio atacante não conseguia sair em transição nem ganhar metros no campo para o time respirar. Aos 71 minutos Klopp dá mais uma cartada interessante substituindo Salah e Henderson. Talvez quando se pedia um jogo mais vertical e de aproveitar o espaço para o contra-ataque, o técnico germânico adiciona Xherdan Shaqiri na partida para dar amplitude e conseguir segurar a bola na frente (uma das características referidas aqui). Junta isso ao pulmão de Keita no meio campo e a partir daí o Leicester pouco fez de forma clarividente.

Creio que ficou à vista de todos a quebra física de alguns jogadores. Pode ser motivos de fadiga pós-Copa ou início de temporada. O certo é que não é benéfico e para complicar ainda mais a situação vem aí um ciclo de viagens para vários jogadores do plantel.

Roberto Firmino e Sadio Mané.

O nível de exibição da equipe no segundo tempo tem caído de produção e isto pode ser encarado de duas formas: os motivos citados acima ligados ao cansaço; Jürgen Klopp preferir resguardar-se das fragilidades da sua equipe para não ter resultados avolumados; ou ainda uma mistura dos dois. De qualquer das formas, entende-se que o faça, mas às vezes convém não perder a identidade agressiva. Baixar o bloco e o ritmo de jogo implica estar mais perto da nossa baliza e há que estar preparado para o fazer.

Já surgem alguns ‘’zumbidos’’ sobre o trio torpedo não estar no mesmo nível da temporada passada. Porém, ignorando a fadiga e o facto de não terem feito toda a pré-temporada, há que entender que a equipe ainda procura se adaptar às novas ideias. Têm no onze base um jogador que acrescenta em demasia (Naby) por estar em todos os momentos do jogo e ainda estão se ajustando no posicionamento das diferentes fases. Querendo ou não, o Liverpool marcou 9 gols essa temporada e 7 foram do trio. Isso demonstra como tudo está a seu favor para serem os próprios a faturar.

Alisson Becker.

A situação de Alisson será obviamente comentada, mas não se deve alongar por muito tempo. Conforme referido na análise do jogo vs Brighton, é da sua natureza e com certeza agora aprenderá a dosar melhores os momentos em que o deve fazer e em que não o deve fazer, até porque nesta altura do campeonato, a equipe ainda não consegue ter um grande critério em sair pelo chão em todas as situações de constrangimento adversário. O comentário do lance por parte de Klopp é bastante interessante, pois revela algo que todos nós sabíamos que estava eminente de acontecer mais tarde ou mais cedo. ‘’Era preciso acontecer para aprender’’. A Premier League (e o jogo inglês no geral) é muito dado a este tipo de ritmo, intensidade pura durante os 90 minutos e há até quem diga que se corre mais do que se pensa. Não esquecer de mencionar o mérito dos jogadores dos foxes no seu pressing alto, assumindo o alto risco.

Trecho da análise ao jogo contra o Brighton.

A orientação corporal de Joe Gomez com bola permite que engane o oponente e consiga se livrar de apertos. A nível individual resultou, ainda assim não fica tão visível, pois a falta de apoios força ao despejo na frente ou opção de passe errada. Mais uma vez importante nos duelos pelo chão e nas dobras aos laterais e isso valeu-lhe a recompensa de melhor jogador em campo.

Joe Gomez.

O Liverpool já não vencia os quatros primeiros jogos da liga desde 1990, ou seja, quando a liga inglesa ainda se chamava 1st Division. A vitória foi muito importante na consolidação da luta pelo título. Há muito a melhorar, como em todas as equipes em começo de temporada, mas convém não esquecer que os reds estiveram congestionados a problemas físicos. Mais uma vitória de campeão pela sua inteligência nos momentos decisivos e 3 pontos preciosos num terreno difícil.

António Duarte

Written by

Treinador de futebol da UEFA na AF Porto. Análise de futebol numa visão romântica do jogo. Twitter: @ShanklyLegacy

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