COLUNA #13: O Pragmatismo Inteligente

Hora de almoço em Inglaterra e o Liverpool disputava um encontro complicado no King Power Stadium frente a um Leicester bem reforçado e que, nos últimos tempos, sempre dificulta a tarefa ao Liverpool. De resto, a maioria dos clubes o faz, pois a Premier League tem esse caráter particular de disputar todos os jogos até ao fim.

Sem a rotação de Naby Keïta, foi Jordan Henderson quem saltou para o 11 e a fixar-se como volante, soltando Georginio Wijnaldum pela direita e James Milner mais acomodado no seu papel típico de mezz’ala. O adversário esteve maioritariamente num bloco médio, congestionando algumas vezes a saída de bola do Liverpool, das quais nem sempre teve um critério para sair de forma confortável.

O capitão dá uma estabilidade à equipe que nenhum dos outros jogadores da posição “5/6" (depende da sua região) consegue dar. Após o gol, o Liverpool sentiu-se confortável sem bola e jogando no seu campo de defesa sob as ordens de Henderson, bloqueando a criatividade do Leicester. Não teve que agredir durante todo o período dos primeiros 45 minutos e decidia os lances de forma mais mastigada para não cair na atração de quebrar o jogo. Consegue aumentar a vantagem numa bola parada e gerir o resultado de forma inteligente. Foi um tempo onde o jogo pensado venceu a velocidade.




Se o primeiro tempo significou conforto na organização defensiva, o segundo trouxe o descontrole perante o atrevimento do Leicester em querer reduzir o placar. É certo que ainda se trabalha as situações de saída apoiada, mas o Liverpool esteve longe de conseguir ligar os seus setores. Quando tentava a bola longa o Leicester conseguia ganhar as segundas bolas com mais critério através de Ndidi e Mendy — algo que não é comum no Liverpool.
Pressionar alto significa abrir espaços atrás. Isso seria o cenário perfeito para o clube de Merseyside, mas o trio atacante não conseguia sair em transição nem ganhar metros no campo para o time respirar. Aos 71 minutos Klopp dá mais uma cartada interessante substituindo Salah e Henderson. Talvez quando se pedia um jogo mais vertical e de aproveitar o espaço para o contra-ataque, o técnico germânico adiciona Xherdan Shaqiri na partida para dar amplitude e conseguir segurar a bola na frente (uma das características referidas aqui). Junta isso ao pulmão de Keita no meio campo e a partir daí o Leicester pouco fez de forma clarividente.
Creio que ficou à vista de todos a quebra física de alguns jogadores. Pode ser motivos de fadiga pós-Copa ou início de temporada. O certo é que não é benéfico e para complicar ainda mais a situação vem aí um ciclo de viagens para vários jogadores do plantel.

O nível de exibição da equipe no segundo tempo tem caído de produção e isto pode ser encarado de duas formas: os motivos citados acima ligados ao cansaço; Jürgen Klopp preferir resguardar-se das fragilidades da sua equipe para não ter resultados avolumados; ou ainda uma mistura dos dois. De qualquer das formas, entende-se que o faça, mas às vezes convém não perder a identidade agressiva. Baixar o bloco e o ritmo de jogo implica estar mais perto da nossa baliza e há que estar preparado para o fazer.
Já surgem alguns ‘’zumbidos’’ sobre o trio torpedo não estar no mesmo nível da temporada passada. Porém, ignorando a fadiga e o facto de não terem feito toda a pré-temporada, há que entender que a equipe ainda procura se adaptar às novas ideias. Têm no onze base um jogador que acrescenta em demasia (Naby) por estar em todos os momentos do jogo e ainda estão se ajustando no posicionamento das diferentes fases. Querendo ou não, o Liverpool marcou 9 gols essa temporada e 7 foram do trio. Isso demonstra como tudo está a seu favor para serem os próprios a faturar.

A situação de Alisson será obviamente comentada, mas não se deve alongar por muito tempo. Conforme referido na análise do jogo vs Brighton, é da sua natureza e com certeza agora aprenderá a dosar melhores os momentos em que o deve fazer e em que não o deve fazer, até porque nesta altura do campeonato, a equipe ainda não consegue ter um grande critério em sair pelo chão em todas as situações de constrangimento adversário. O comentário do lance por parte de Klopp é bastante interessante, pois revela algo que todos nós sabíamos que estava eminente de acontecer mais tarde ou mais cedo. ‘’Era preciso acontecer para aprender’’. A Premier League (e o jogo inglês no geral) é muito dado a este tipo de ritmo, intensidade pura durante os 90 minutos e há até quem diga que se corre mais do que se pensa. Não esquecer de mencionar o mérito dos jogadores dos foxes no seu pressing alto, assumindo o alto risco.

A orientação corporal de Joe Gomez com bola permite que engane o oponente e consiga se livrar de apertos. A nível individual resultou, ainda assim não fica tão visível, pois a falta de apoios força ao despejo na frente ou opção de passe errada. Mais uma vez importante nos duelos pelo chão e nas dobras aos laterais e isso valeu-lhe a recompensa de melhor jogador em campo.

O Liverpool já não vencia os quatros primeiros jogos da liga desde 1990, ou seja, quando a liga inglesa ainda se chamava 1st Division. A vitória foi muito importante na consolidação da luta pelo título. Há muito a melhorar, como em todas as equipes em começo de temporada, mas convém não esquecer que os reds estiveram congestionados a problemas físicos. Mais uma vitória de campeão pela sua inteligência nos momentos decisivos e 3 pontos preciosos num terreno difícil.
