Apenas um corpo nu

Fotógrafo Lauro Borges

Quando eu digo nu, o que te vem a cabeça?

Sexo?

Como é o seu corpo nu? Sem os adereços que fazem com que seja melhor aceito aqui ou ali, que o fazem parecer como qualquer outro: roupas, cintos, meias, sapatos…

Você já se imaginou sem roupa em uma sessão de fotos? Imaginou como essas fotos seriam? Fez algum “nudes” mesmo que não tenha enviado?

Por que erotizamos o corpo? Por que ele nu vira objeto de desejo?

Tem que ser assim?

Tive o privilégio de me relacionar com pessoas que não tem essa referência do corpo como objeto de desejo. O desejo sexual fica em outro lugar, é despertado não por uma fenda, decote ou nudez, mas por outros sinais e consensos. Precisei me adaptar, inclusive. Estava acostumada aos padrões, aos charmes corriqueiros de mostrar algo aqui, dar uma reboladinha ali, mas esses sinais simplesmente não fazem sentido pra alguns homens e mulheres. Você pode deitar pelada em cima da pessoa e ela está de boa, apenas a sua intenção direta, claramente falada ou demonstrada é que vai iniciar um chamego que pode desembocar em sexo.

bem feliz em Massarandupió na Bahia

Um corpo nu é apenas um corpo nu. Descobri isso também nas praias nudistas que visitei e com o relato dos amigos que nadam pelados nos rios da Alemanha junto com famílias inteiras. Lá eu senti que é muito mais confortável não usar nada do que usar biquíni.

Entendi profundamente o incomodo de várias mães ao amamentarem: como podem ver essa fonte de alimento com esses olhos de chacal? Pra elas fica tão óbvia a função do peito que erotizá-lo da forma com que fazemos, a qualquer hora simplesmente por serem peitos, vira quase uma afronta.

E eu aprendi isso deixando meu corpo nu exposto. Participei da obra da artista plástica Laura Lima na inauguração do Museu Oscar Niemeyer em Curitiba, onde reproduzíamos um quadro de 1504 do pintor Rafael. Nele, 3 mulheres nuas.

"Três graças sobre Rafael" de Laura Lima

O museu enchia, todos queriam ver as mulheres peladas mas era tão decepcionante porque estávamos ali simplesmente nuas, não era sensual, não era nada, pelo contrário. A obra questionava o que eram consideradas virtudes femininas na época de Rafael como prisões nos dias atuais. O que não impediu de pegarmos dois ou três homens se masturbando escondidos atrás de outras obras.

Caranguejando! Dizem que esse lugar do corpo nunca vê o Sol… mentira!

Uma das histórias mais engraçadas foi quando eu e a equipe de um espetáculo estávamos tomando banho nus num Igarapé perto de Manaus e chegou um músico do Sul, que eu não conhecia, vestido. Ter o primeiro contato com uma pessoa estando nua foi beeeem estranho, com certeza o aperto de mão mais desengonçado que eu já dei. Eu também tive um namorado que sofreu 3 meses com medo de ir a uma praia nudista e no segundo dia lá já parecia que tinha nascido pelado!

Como atriz ainda atuei em um filme baseado na obra de Edgar Allan Poe onde interpretei uma mulher que se suicidava nua e era colocada morta na cama pelo marido, ficando ali vários dias até reviver quando o espírito de uma outra pessoa tomava o corpo (macabro mesmo). Uma das coisas mais divertidas que fiz como atriz foi "levantar da cama como um zumbi", afinal pessoas mortas não se movem como nós humanos.

Bastidores das gravações de "Nevermore — três pesadelos e um delírio": pra esse close eu tive praticamente que foder com o cinema!

Foram 2 dias pelada na frente de toda a equipe e como a personagem estava morta, eu era pintada dos pés a cabeça com uma suave tinta branca. A maquiadora tocava todo o meu corpo nú com ajudantes. E mesmo estando assim na frente de todos eu só senti constrangimento em um momento por causa de um olhar erotizado. Aquele olhar me desmontou. De repente eu senti vergonha e asco e o meu corpo que era apenas o corpo de uma atriz interpretando uma mulher morta virou objeto de desejo e imaginação de um babaca que não sabe trabalhar e certamente não está preparado pra conviver em sociedade. Então elaborei uma estratégia com o figurinista: quando o cara me olhava o figurinista o encarava e isso fazia com que ele não tivesse coragem de continuar. Vejam só: todos os homens sabem bem que olhar é esse ao ponto de se constrangerem de usá-lo quando são observados. Funcionou e em uma cena específica com mais movimento eu pedi ao diretor — que eu amo, foi meu professor de direção, um cara bem legal mesmo, que o set fosse esvaziado e ele fez isso na hora. Eu não queria ter que pensar em nada além da cena que já é trabalho pra caramba.

No teatro teve mais uma cena ou outra onde apareceu alguma parte do meu corpo e publiquei uma foto na campanha "meu corpo, minhas regras",

Minha versão do "Abaporu" (Homem que come gente) da Tarsila do Amaral pro #meucorpominhasregras

mas uma das coisas que mais me fez ver como meu corpo é lindo simplesmente por existir e não por ser erotizavel, foi uma sessão de fotos nua que eu me dei de presente ha uns 10 anos. Deixar um artista da fotografia me olhar pela lente dele sem os meus julgamentos foi libertador. Eu levei um susto com as fotos, eu nunca olharia meu corpo daquela forma. Quando me imagino nua eu lanço um monte de julgamentos e histórias sobre essa imagem e ele não. O fotógrafo Lauro Borges, especialista em teatro e performance, fez de mim uma obra que o olhar dele construiu com meu corpo. Não tenho nada contra a fotografia sensual Boudoir que está na moda, só acredito que ela estimula a comparação da gente com as imagens da revista, não estou falando desse tipo de fotografia que usa lingeries e camisolas. Estou falando de nú, não de erotismo, da beleza de um corpo nú. Sem poses sexys e carão. O corpo é lindo. O seu corpo é lindo, você merece ver ele assim.

Sugiro essa experiência. Parar de ver o corpo como algo erótico. Ele também pode ser isso mas ele é muito mais que isso, e na maior parte do tempo ele é outras coisas. Seu bíceps não precisa ser duro e "lindo", ele precisa abraçar com carinho, te ajudar no trabalho, carregar as compras do mercado, embalar as crianças, ele pode conduzir alguém na dança, ele tem que SENTIR. A imagem é o que menos importa.

Fotógrafo Lauro Borges
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